Seis escolas de samba desfilaram na categoria do grupo especial na Marquês de Sapucaí, no Rio de Janeiro, nesta segunda-feira, 24, a partir de 21h30. Os cortejos foram iniciados pela São Clemente, com um expediente, digamos, global. A convite do apresentador e humorista Marcelo Adnet, o também humorista Eduardo Sterblitch e o ator Mateus Solano deram as caras no desfile. A fila seguiu com a Unidos de Vila Isabel, terceiro lugar no Carnaval do ano passado, e com o Salgueiro – que contou a história do primeiro palhaço negro do Brasil, Benjamin de Oliveira. Madrugada adentro, a Sapucaí recebeu a Unidos da Tijuca, trazendo os problemas de infraestrutura para a pauta carnavalesca em uma cidade que sofre com questões de gestão.

 Em seguida, os foliões abriram alas para a Mocidade Independente de Padre Miguel e uma homenagem à estrela Elza Soares. A noite foi encerrada pelo desfile da Beija-Flor de Nilópolis, com um samba-enredo lotado de referências às religiões de matriz africana sobre os caminhos da humanidade.
Confira horários e detalhes de cada desfile:
O “laranjal” da São Clemente Sergio Moraes/VEJA

São Clemente (21h30)

“Brasil compartilhou, viralizou, nem viu. E o país inteiro assim sambou, caiu nas fake news”. Com um enredo irreverente e politizado, batizado de O Conto do Vigário, a São Clemente abriu o segundo dia de desfile do Grupo Especial no Carnaval do Rio. Para tratar do tema da mentira, brincou com “golpes” corriqueiros como curas milagrosas e bilhetes premiados. Até a grávida de Taubaté foi retratada entre as alegorias.
Sobraram alfinetadas políticas na avenida. A bateria foi trajada de laranja, em alusão ao esquema de candidaturas-laranja no PSL, antes partido de Bolsonaro. Um dos autores do samba-enredo, o comediante Marcelo Adnet desfilou fantasiado como o presidente em uma alegoria intitulada “Malandro Oficial”, rodeado de placas com frases associadas ao presidente como “tá ok?” e “foi o Leonardo di Caprio” (em referência à acusação de que o ator seria o responsável pelos incêndios na floresta amazônica). No último carro alegórico, um grande telão simulava conversas de WhatsApp contendo notícias falsas, como a inexistência do aquecimento global ou a teoria de que vacinas fazem mal à saúde.



A escola da Zona Sul, que amargou a décima-segunda colocação no ano passado, saiu ovacionada da Sapucaí.
Membro da Vila Isabel desfila no segundo dia do Carnaval na Sapucaí (24/02/2020)
Membro da Vila Isabel desfila no segundo dia do Carnaval na Sapucaí (24/02/2020) Sergio Moraes/Reuters

Vila Isabel (22h30)

Terceira colocada no Carnaval do Rio de 2019, a Vila Isabel voltou à Marquês do Sapucaí contando a história de Brasília como se fosse uma lenda indígena. O enredo envolve a construção da capital federal como uma forma de esperança para um pequeno índio chamado Brasil. Lotado de passagens que evocam a cultura brasileira, o samba Gigante pela própria natureza: Jaçanã e um índio chamado Brasil foi escrito por Cláudio Russo, Chico Alves e Júlio Alves.
A escola da Zona Norte pareceu não ter cativado o público como a anterior. O desfile tratou de aspectos periféricos da construção da capital, como os diversos povos que estiveram envolvidos no processo. Apesar de tratar a cidade como protagonista da política, a Vila foi uma das únicas escolas a não levar nenhuma crítica à avenida.
Entre as alegorias, havia referências à paisagem do Cerrado e aos paus-de-arara, que trouxeram os “candangos” às cidades em construção pelo país, ao sofrimento do povo nordestino ao longo do trajeto e até ao santo católico Dom Bosco que, segundo a lenda, teria sonhado com Brasília antes de sua construção. Em um carro intitulado “o fundador”, o destaque era um passista fantasiado como o ex-presidente Juscelino Kubitschek.
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Depois de várias referências indiretas, o último carro impressionou a plateia com uma réplica da Catedral de Brasília, feita de espelhos. Anderson Antônio dos Santos, conhecido pelo apelido de Tinga, entoou o canto na Sapucaí, enquanto a musa Aline Riscado desfilou como rainha de bateria. Sua presença, contudo, foi ofuscada pela “simbólica” rainha Sabrina Sato.
Desfile do Salgueiro Maria Clara Vieira/VEJA

Salgueiro (23h30)

Nascido em 1870, Benjamin Oliveira é considerado o primeiro palhaço negro da história do Brasil. Multiartista, ele foi o homenageado da noite pelo Salgueiro no Carnaval deste ano. Filho de escravos, fugiu com circenses aos 12 anos de Pará de Minas, em Minas Gerais, para viver de arte. O Rei Negro do Picadeiro, título do samba-enredo, contou como Benjamin ocupou desde as lonas até o Theatro Municipal do Rio de Janeiro. A rainha de bateria foi a modelo Viviane Araújo, vestida de palhaça.
Com alegorias suntuosas e muitas palmas do “respeitável público”, a escola trouxe picadeiro com figuras de leões e elefantes, além de acrobatas e fantasias que remetiam a atrações circenses.
Também foram representadas as principais peças encenadas por Benjamin, criador do gênero Circo-Teatro. Cenas de Otelo, de Shakespeare, e da ópera O Guarany, passaram pela avenida. O papel do homenageado ficou por conta do ator Hélio de la Peña. Ao longo da apresentação, a Furiosa, bateria da casa, arriscou ritmos que remetem as canções de circo.
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Unidos da Tijuca (00h30)

Com pirâmides, castelos, mausoléus e grandes monumentos expostos sobre seus carros alegóricos, inclusive o Cristo Redentor, a agremiação abordou a capacidade humana de construir grandes obras – porém, não só isso. A alfinetada está, exatamente, no quanto as autoridades públicas e a população são incapazes, por outro lado, de manter a infraestrutura das cidades minimamente organizadas.
Vale lembrar: o desfile aconteceu num Rio de Janeiro acometido por uma água turva saindo das torneiras, vindas da Cedae, a companhia de água e esgoto do estado. Composto pelos célebres Jorge Aragão, Fadico, André Diniz, Totonho e Dudu Nobre, Onde Moram os Sonhos gritou, literalmente: “O Rio pede socorro”.
A agremiação falou sobre arquitetura e urbanismo, além do crescimento desordenado que também prejudica o meio ambiente, a partir de temas como lixo e reciclagem. O desfile marcou a volta do carnavalesco Paulo Barros. A cantora e rainha de bateria Lexa levou um tombo ao vivo na avenida, mas logo se recuperou.
Elza Soares é homenageada da Mocidade e assistirá ao desfile em trono (25/02/2020)
Elza Soares é homenageada da Mocidade e assistirá ao desfile em trono Maria Clara Vieira/VEJA

Mocidade Independente de Padre Miguel (1h30)

Penúltima escola a desfilar, já na madrugada de terça-feira, 25, a Mocidade Independente de Padre Miguel conquistou a plateia com sua homenagem à cantora Elza Soares, 89, ligada à agremiação. O enredo abordou a origem da artista, filha de um funcionário da Fábrica de Tecidos Bangu. Mostrou também os trens da Central do Brasil, onde ajudava a mãe, e o cenário do programa Ary Barroso, onde começou sua carreira.
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A escola deu espaço para os dramas da vida da estrela, que perdeu dois filhos e o primeiro marido antes dos 21 anos. A relação com o jogador Mané Garrincha foi retratada em um carro alegórico com as cores do Botafogo, com seis foliões caracterizados como esportistas. Elza foi tratada pela Mocidade como um símbolo da resistência negra e feminina, uma deusa. Desfilou no último carro, no qual se via a frase “Sobreviver é um ato político”. Foi intensamente ovacionada pela plateia.
Beija-Flor Sergio Moraes/Reuters

Beija-Flor de Nilópolis (2h30)

Os caminhos da humanidade em busca do desenvolvimento: este foi o tema da Beija-Flor para o desfile de Carnaval em 2020. Sob a beleza de Raíssa de Oliveira como rainha de bateria, o samba-enredo Se Essa Rua Fosse Minha se mostrou uma ode aos quatro dias de folia – os quais o carioca sabe aproveitar.
No samba, a avenida foi classificada como um destino da história do Brasil pelos carnavalescos Alexandre Louzada e Cid Carvalho. Detentora de nove títulos, a mais vitoriosa entre as escolas, a Beija-Flor frustrou-se com a décima-primeira colocação no Carnaval do ano passado. Com a homenagem ao espaço que abre alas para seus carros alegóricos, a agremiação espera que a avenida devolva a felicidade com o mesmo entusiasmo.


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