
O Museu de Arte da Universidade Federal do Ceará (Mauc) deu um passo importante na democratização do acesso à cultura ao lançar um aplicativo voltado à acessibilidade artística e cultural de pessoas com deficiência visual total ou com baixa visão. A ferramenta, inédita no Ceará, funciona como um audioguia digital e reúne audiodescrição detalhada das obras, conteúdos sonoros gerais sobre o acervo e versões em inglês, ampliando também o alcance internacional do museu.
O aplicativo, desenvolvido ao longo de cinco anos, começou a ser pensado em 2020 e nasceu da integração entre tecnologia, educação e inclusão. O projeto envolveu diferentes setores da Universidade Federal do Ceará, como o Programa de Promoção da Cultura Artística (PPCA), a Universitária FM e o Instituto de Arquitetura, Urbanismo e Design (IAUD), além de contar com parceria da Universidade Estadual do Ceará (Uece). A proposta é permitir que pessoas com deficiência visual tenham uma experiência sensorial mais completa dentro do espaço museológico.
O acesso ao App Mauc pode ser feito por meio de QR Codes distribuídos no museu ou por link disponível no site oficial da instituição. A iniciativa destaca a importância da audiodescrição aliada a recursos táteis, possibilitando que o visitante reconheça formas, elementos figurativos e detalhes das obras expostas. A proposta rompe com a ideia de que a fruição artística está restrita ao olhar, ampliando as formas de percepção da arte.
Para a servidora Kathleen Silveira, do Núcleo de Comunicação do Mauc, o aplicativo representa um esforço coletivo para tornar o museu mais inclusivo. Segundo ela, o projeto envolveu diferentes profissionais e instituições com o objetivo de criar uma ferramenta capaz de aproximar pessoas com deficiência visual do universo artístico, aliando audiodescrição às peças táteis disponíveis no espaço.
Usuários que participaram da experiência destacam a relevância da iniciativa. Kiko Targino, deficiente visual há 13 anos em decorrência de um tumor no nervo óptico, relata que a combinação entre audiodescrição e peças táteis facilita o reconhecimento das obras. Ele destaca a clareza das descrições e a precisão das peças como elementos fundamentais para compreender o trabalho artístico exposto.
Acessibilidade
A artista Ariel Loiola, que perdeu a visão após uma retinopatia diabética, também compartilha sua vivência no museu. Para ela, ferramentas como a audiodescrição são essenciais para garantir autonomia em espaços culturais. Segundo Ariel, as descrições permitem construir mentalmente imagens das obras, compreendendo detalhes, formas e até a expressividade das figuras retratadas.
Ambos fazem parte de um projeto artístico iniciado no Instituto dos Cegos, em Fortaleza, coordenado pelo artista visual Dias Brasil. A iniciativa já atendeu mais de 30 pessoas, incluindo pessoas com deficiência visual, síndrome de Down, Transtorno do Espectro Autista e pacientes em tratamento oncológico, estimulando a produção artística autoral e a inclusão por meio da arte.
O desenvolvimento do aplicativo também contou com a participação direta de estudantes da UFC. A aluna de Design Giovanna Olivati atuou na reformulação visual da plataforma, com atenção especial à escolha de cores, tipografia e identidade gráfica, levando em conta pessoas com baixa visão e daltonismo. Já o estudante Mateus de Aquino, do curso de Sistemas e Mídias Digitais, trabalhou na programação e na implementação de recursos de acessibilidade, como textos alternativos em imagens e navegação adaptada.
Ao lançar o aplicativo, o Mauc reforça o papel social dos museus e das universidades públicas na promoção da inclusão cultural. A iniciativa evidencia que acessibilidade não é um recurso complementar, mas um elemento essencial para garantir que a arte seja, de fato, um direito de todos.
Por Priscila Sampaio