FORTALEZA, CE, BRASIL, 12-07-2017: Pele de tilápia (peixe) envelopada depois do processo de limpeza, vem sendo utilizada para tratamento de queimaduras. Primeiro Banco de Pele de Animal, do Núcleo de Pesquisa e Desenvolvimento de Medicamentos (NPDM) da Universidade Federal do Ceará (UFC) em parceria com o Instituto de Apoio ao Queimado (IAQ).  (Foto: Mariana Parente/Especial para O POVO)
FORTALEZA, CE, BRASIL, 12-07-2017: Pele de tilápia (peixe) envelopada depois do processo de limpeza, vem sendo utilizada para tratamento de queimaduras. Primeiro Banco de Pele de Animal, do Núcleo de Pesquisa e Desenvolvimento de Medicamentos (NPDM) da Universidade Federal do Ceará (UFC) em parceria com o Instituto de Apoio ao Queimado (IAQ). (Foto: Mariana Parente/Especial para O POVO)

Na noite do último dia 24, o estudo cearanse sobre o tratamento com pele de tilápia para queimaduras foi o grande vencedor do Prêmio Euro Inovação na Saúde 2020 - evento com o intuito de reconhecer e oferecer incentivo na busca por soluções de produtos que tenham um forte impacto nacional. "A Pele de Tilápia: Um Novo Biomaterial para Tratamento de Queimaduras, Feridas, Cirurgias Ginecológicas e Medicina Regenerativa" foi totalmente realizado na Universidade Federal do Ceará (UFC) e articula os estudos da pele do peixe em diversas outras especialidades médico-cirúrgicas.

O anúncio foi realizado em um evento virtual que contou com a presença de diversos convidados. O projeto foi desenvolvido no Núcleo de Pesquisa e Desenvolvimento de Medicamentos (NPDM) da UFC. A coordenação dos estudos é feita pelo professor Odorico de Moraes, diretor do NPDM, e pelo médico e presidente do Instituto de Apoio ao Queimado (IAQ), Edmar Maciel, que se mostrou feliz pela conquista.



"O Brasil nunca teve pele de animal para tratar queimados e feridos, e os produtos que estamos estudando e desenvolvendo são exportados por nosso País, com um elevado custo, não chegando, na maioria das vezes, na população mais carente", explica Maciel. "Estamos finalizando o processo de negociação para que uma empresa possa registrar o produto na Anvisa [Agência Nacional de Vigilância Sanitária], produzir e comercializar em larga escala e, inclusive, ser utilizado no mercado internacional".



Vencedor do prêmio principal, o estudo receberá o valor correspondente em reais a € 500 mil. As outras iniciativas finalistas receberão o valor correspondente em reais a € 50 mil.


O estudo já teve outras conquistas antes da premiação no último dia 24. Edmar pontua que os estudos realizados pelo grupo com a pele do peixe já conquistaram 14 primeiros lugares em diversos concursos e resultaram em 22 trabalhos científicos publicados em periódicos nacionais e internacionais.

Desde 2015, a pele de tilápia vem sendo utilizada no tratamento de queimados do Instituto Dr. José Frota (IJF) em forma de testes. Após estudos mais conclusivos, em fevereiro de 2016 a pesquisa revelou que a pele do peixe tem componentes que ajudam na cicatrização de feridas e queimaduras. 

O preparo da tilápia inicia com a retirada de toda a musculatura, deixando apenas a pele. Depois é feito um processo de esterilização, por meio de banhos em substâncias químicas para a retirada de bactérias. Além disso, também há processo para desidratação. Ao fim o material é irradiado e a pele então é colocada sobre a ferida.

O couro da derme do animal é rico em colágeno tipo 1, com alto grau de resistência e elasticidade. Devido ao componente, o produto foi utilizado como substituto de curativos, constantemente trocados quando há uma queimadura grave no corpo. Durante o procedimento, foi avaliado que o paciente que usou a pele do peixe durante o tratamento teve recuperação mais rápida do que pacientes que utilizaram a troca dos curativos.

Enquanto o curativo exige a troca de 3 em 3 dias, a pele do peixe pode ficar por até 10 dias sob o machucado. Isso reduz em até 50% os gastos com o procedimento. Com o uso, também foram percebidos os benefícios da ausência de dor, o fato de evitar a contaminação na ferida e a perda de líquido.

O pouco contato do peixe com os humanos reduz a possibilidade da pele humana rejeitar a membrana. Isso favorece a continuação da pesquisa em outros setores, como a ginecologia. A pele do animal também foi usada no tratamento da síndrome de Rokitansky, anomalia caracterizada pela ausência do canal vaginal. Desde 2017, o procedimento é realizado na Maternidade-Escola Assis Chateubriand (Meac) da UFC, onde as pacientes serão acompanhadas pelo resto da vida.

Em 2019, o procedimento de reconstrução vaginal de uma mulher transexual através da pele do animal foi um sucesso. O médico cirurgião e professor do Departamento de Saúde Materno-Infantil e da Pós-Graduação em Cirurgia da UFC, Leonardo Bezerra, relatou que a paciente já havia sido submetida à cirurgia de redesignação sexual anteriormente, mas ainda sentia dores. Aí então foi realizado o procedimento com a pele do animal.


A pesquisa também possibilitou o tratamento de úlceras causadas por varizes, tratamento realizado no Hospital Universitário Walter Cantídio (HUWC).

Em 2020, o procedimento foi utilizado em tratamentos de pacientes no Rio de Janeiro. Segundo informações do jornal Meia Hora, o Hospital Municipal Souza Aguiar começou a utilizar o procedimento para cuidar de ferimentos causado por água fervente em até 30% do corpo. Logo nos primeiros meses de tratamento os pacientes apresentaram uma melhora significativa dos machucados.

Ainda, os pesquisadores da UFC ofereceram o envio da pele de tilápia para o tratamento das vítimas da explosão em Beirute, capital do Líbano. Até 2021, a equipe do projeto Pele de Tilápia deve produzir 2 mil unidades de peles para compor um estoque brasileiro. Com a pesquisa, desde 2017 a UFC mantém um dos bancos brasileiros.

o Povo 

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