O café da vizinhança
que estava sempre cheio agora não tem duas mesas ocupadas, um quarto das
pessoas que estão no supermercado usam máscaras e um vidro separava o
atendente da farmácia italiana de Florença da brasileira Analice Baldo,
40 anos, quando ela explicava para Agência Brasil a mudança na sua rotina após o governo da Itália ampliar os cuidados em decorrência da pandemia de coronavírus.
Na última semana, em uma passagem pelo
supermercado, Analice viu prateleiras vazias. Entre os itens que mais
sentiu falta estavam papel higiênico, molho de tomate, massas e frango. A
situação pareceu se normalizar, mas novamente nesta quarta-feira (11)
artigos de primeira necessidade estavam em falta.
Ana Carolina, 26 anos, teve que fazer uma quarentena informal na república onde morava em Roma quando teve sintomas de gripe.
Para Mateus, 26 anos, arquiteto, o novo
coronavírus afetou um pouco a rotina do escritório: agora a recomendação
é que os encontros na hora do café sejam evitados.
Analice, Anna Carolina e Matheus, são brasileiros que vivem em diferentes regiões da Itália e relataram à Agência Brasil um pouco de suas rotinas após a propagação de Covid-19.
No último dia 8, a Itália começou a adotar
medidas drásticas para tentar conter o vírus. O primeiro-ministro
italiano, Giuseppe Conte, assinou decretos que estabelecem a necessidade
das pessoas portarem uma autorização especial para circular e viajar.
O primeiro-ministro anunciou o fechamento de
escolas, ginásios, museus, cinemas, clubes noturnos e outros espaços
públicos. Segundo dados da Organização Mundial de Saúde (OMS), a Itália
tem o maior número de casos do novo coronavírus da Europa e é o
segundo país com mais casos no mundo, perdendo apenas para a China.
Analice se mudou para a Itália com o marido e
os dois filhos, de 4 e 13 anos, em agosto do ano passado. Ela não
pretende retornar ao Brasil, sua casa está na Itália e os filhos
frequentam a escola daquele país. Está segura da qualidade da saúde
pública italiana e entende a urgência das medidas tomadas pelo país, mas
diz que toda essa situação a deixou um pouco angustiada.
“Eu entendo perfeitamente as medidas
tomadas, o decreto [que proibiu a livre circulação de pessoas], e acato
completamente de boa vontade, mas confesso que isso me angustia mais, me
deixa mais apreensiva do que o coronavírus em si. Porque tudo está
diferente. A cidade está toda diferente. Eu moro numa área residencial, e
está tudo diferente, muitos comércios fechados, muitas lojas a cada dia
mais e mais fechando. O meu médico - se eu me sinto mal - ele sempre me
pede para ir até o consultório. Dessa vez ele fez uma consulta
telefônica. Então a gente se sente presa, a mim e aos meus filhos em
casa, e mesmo na Itália, porque se nós quisermos sair daqui não pode.
Isso sim me deixa bastante apreensiva. Um tanto quanto ansiosa, pensando
quando e como isso vai acabar. Eu temo inclusive pela economia italiana
porque o impacto é grande".
Anna Carolina Martins, 26 anos, é uma
estudante de mestrado brasileira que mora em Roma desde os 17 anos.
Segundo ela, sua rotina se resumia em estudar e escrever tese na
biblioteca nacional em Roma, onde ia a pé por morar no centro da cidade.
Logo que o vírus começou a se alastrar já era possível ver avisos e
panfletos sobre como prevenir a difusão de Covid-19. Aos poucos o número
de pessoas usando máscaras aumentou.
“Não deixei de fazer as minhas atividades e,
sinceramente, não imaginava que a situação chegaria a este ponto. Há
uma semana a situação começou a ficar mais preocupante. A biblioteca
esvaziou e os espaços foram delimitados, você só poderia se sentar com
um metro de distância das pessoas. Tudo esvaziou. As pessoas começaram a
ficar com muito medo, a brigar na rua.”
Carol, como é conhecida, chegou a pegar um
resfriado e ter febre, como mora em uma casa com outras cinco mulheres,
ficou afastada. “Me isolaram no meu quarto. Procuramos máscaras e tudo
tinha acabado. Então, só uma [pessoa] entrava em contato comigo e me
preparava algo para comer. E fizemos assim até melhorar."
“Achei que as coisas iriam se acalmar, mas
ao invés disso, logo depois, foram tomadas essas medidas mais sérias.
Com o decreto, agora ninguém mais pode sair de casa tá tudo proibido.
Você só pode sair com essa autocertificação. Você baixa o formulário
pela internet e tem que provar que você está saindo de casa pelos
motivos previstos pela lei, situação de necessidade, de trabalho, e de
saúde. Se não for nenhum desses motivos e alguém te perguntar o porquê
você saiu, se você não tiver dizendo a verdade ou não tivesse
autorização, você ganha uma multa. Eu estava muito assustada, as pessoas
estão muito muito assustadas, agora tá todo mundo dentro de casa
ninguém, na Itália inteira, pode sair a não ser que seja por motivos
extremamente necessários.”
A estudante resolveu antecipar o retorno
para o Brasil, que já estava previsto. Até a formatura, que ocorreria em
março, foi adiada e será realizada apenas online. “Não está
nada confortável. Estou com medo que isso chegue ao Brasil também. Aqui
as previsões dizem que atingiu o mundo inteiro e não é tão perigoso, tão
mortal. Porém ele se difunde com uma velocidade muito rápida. A
epidemia tem que acabar porque está ganhando uma proporção muito
grande.”
Dentre os problemas provocados, a estudante
destaca os prejuízos na economia. “As lojas não ficam abertas após as
18h e todos os pubs estão fechados. Muitos negócios tiveram que
ser fechados. Eu iria me formar agora dia 23 de março mas a minha
formatura foi cancelada e eles colocaram para o dia 30 de abril e vai
ser online porque ninguém vai poder se reunir. A previsão é que a situação melhore apenas bem lá bem para frente”.
Matheus Bastos, 26 anos, é arquiteto e mora
em uma cidade de cerca de dez mil pessoas próxima a Gênova. Sua rotina é
pacata. Passa o dia no trabalho e retorna para casa no fim do
expediente. Por morar sozinho e não conviver com idosos continua
trabalhando normalmente. E mesmo fora dos grandes centros, com um dia a
dia de poucos eventos sociais, sem utilizar transporte público (se
locomove de bicicleta), percebeu mudanças no comportamento das pessoas.
“A mudança é no próprio ambiente do
escritório. Antigamente as pessoas procuravam se encontrar e conversar
às 11h ou às 17h da tarde no café, e hoje em dia você vê claramente,
inclusive foi discutido e avisado para todos os funcionários, que
deve-se evitar qualquer tipo de aglomeração. Não se deve frequentar
locais com mais três pessoas ao mesmo tempo."
Apesar da pandemia, o arquiteto se sente
seguro no país e não pretende voltar ao Brasil. "Todas essas
circunstâncias me deixam bastante tranquilo, de que por mais que seja
uma doença bastante séria, eu acredito que essa onda de infecção vai
passar e as coisas vão voltar à normalidade. Então não é preciso tomar
nenhuma medida tão drástica assim.”