Mariana vê melhora econômica e aguarda Samarco após 4 anos da tragédia
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personBlog do Amaury Alencar
novembro 05, 2019
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O início de novembro tem sido, nos últimos anos, um momento de
lembranças difíceis para o município de Mariana (MG). Amanhã (5),
completam-se exatos quatro anos de uma das maiores tragédias ambientais
do país, que se tornou um marco na história da cidade.
Mas se não é
possível esconder cicatrizes ainda abertas pelos 39 milhões de metros
cúbicos que vazaram da barragem da Samarco, este é o primeiro
aniversário do episódio em que a prefeitura faz um balanço de melhora
econômica. A situação financeira pode ficar ainda mais confortável com o
retorno das atividades da mineradora, que estão paralisadas desde a
tragédia. A retomada é aguardada para 2020. Antonio Cruz/ Agência Brasil
O avanço das obras de reconstrução das comunidadesdestruídas
influencia o quadro favorável, incrementando a arrecadação de Imposto
sobre Serviços (ISS). Outro fator é a regularização, por parte do
governo estadual, dos repasses relacionados ao Imposto sobre Circulação
de Mercadorias e Serviços (ICMS). Valores atrasados também devem chegar
aos cofres do Poder Público municipal. Em abril deste ano, após três
meses de negociações, o governador mineiro Romeu Zema e a Associação
Mineira de Municípios (ANM) firmaram um acordo para que dívidas com as
prefeituras, no valor de R$ 7 bilhões, fossem pagas em 33 parcelas, a
partir de janeiro do ano que vem.
“Este ano, a cidade tem vivido uma realidade diferente. O governo do
estado normalizou os repasses. A reconstrução de Bento Rodrigues e de
Paracatu aumentou um pouco a arrecadação de ISS. E o retorno da Samarco
está trazendo uma esperança também. Chegamos a ter 26% de
desempregados. Hoje estamos com cerca de 11%. A cidade chegou a perder,
em um único ano, R$ 64 milhões com a paralisação da empresa. Mas hoje se
encontra muito bem ajustada. Qualquer nova receita que aparecer pode
ser usada para investimentos”, diz o prefeito de Mariana, Duarte Júnior.
O cenário apresentado é bem diferente do que vinha sendo anunciado
até o início deste ano. Em março, a prefeitura chegou a decretar estado
de calamidade financeira, que só foi revogado após um acordo com a Vale
para compensação de perdas associadas à paralisação da Mina de Alegria. A
Vale é uma das acionistas da Samarco e se envolveu em uma nova tragédia
de grandes proporções, ocorrida em janeiro deste ano na cidade de
Brumadinho (MG). Como consequência, outras estruturas da mineradora
foram reavaliadas e tiveram suas operações interrompidas. A Mina de
Alegria foi uma delas.
A paralisação traz impacto para a arrecadação da Compensação
Financeira pela Exploração dos Recursos Minerais (CFEM), conhecido como o
royaltie da mineração. A receita com esse tributo já havia despencado
após a tragédia de novembro de 2015. No fim de 2017, a prefeitura também
anunciou dificuldades com a queda dos recursos associados ao ICMS. O
tributo é pago pelas empresas que realizam operações de venda,
transferência e transporte de mercadorias ou serviços de transporte e
comunicação. Muitas dessas empresas atuavam em Mariana devido a
contratos com a Samarco, suspensos com a paralisação da mineradora.
Atualmente, Mariana está sendo novamente palco de atuação de grandes
empresas, contratadas agora pela Fundação Renova, entidade criada para
administrar todas as ações de reparação de danos conforme acordo firmado
entre a Samarco, o governo federal e os governos de Minas Gerais e do
Espírito Santo. As obras de reconstrução dos distritos de Bento
Rodrigues e Paracatu, por exemplo, contam com a participação de
diferentes empreiteiras como a Andrade Gutierrez e a HTB. O turismo de
negócios, que havia deixado de movimentar a hotelaria, também revela
sinais de recuperação a partir das atividades da Fundação Renova.
Segundo a Fundação Renova, de julho de 2017 a agosto de 2019 as
contratações de variadas empresas renderam R$ 21,5 milhões em ISS ao
município. Para o prefeito Duarte Júnior, o que houve foi uma retomada
da situação anterior. “O que nós recebíamos da Samarco e deixamos de
receber com a paralisação da mineradora era exatamente isso. Então não
houve aumento de receita com esse tributo”, afirma.
Apesar da melhora do cenário geral, os 11% de desempregados ainda
preocupam o município. Duarte Júnior se queixa de que a Fundação Renova
assumiu com a Câmara de Vereadores para que 70% da mão de obra
contratada sejam locais. Ele reconhece que a medida está sendo cumprida,
mas pondera: “Estão contratando sim. Mas no caso da mão de obra
especializada, que inclui engenheiros, arquitetos e outros
profissionais, faltam oportunidades para o pessoal de Mariana. Há
profissionais na cidade que mereceriam ser valorizados”. A entidade, por
sua vez, afirma que o percentual de 70% consta em todos os editais de
contratação.
A Fundação Renova também tem feito aportes de recursos em projetos
acordados com a prefeitura. Em julho, por exemplo, foi anunciado um
pacote de aproximadamente R$ 100 milhões para ações de diversificação
econômica, infraestrutura e desenvolvimento sustentável. Entre as
iniciativas estão a reforma da praça Gomes Freire, a reativação de uma
cooperativa de laticínios e a ampliação do Centro de Atenção
Psicossocial Infantojuvenil.
Parte desses R$ 100 milhões será destinada à infraestrutura
necessária para elaborar o georreferenciamento e o plano diretor de
Mariana, que possibilitará que inadimplentes com o Imposto sobre a
Propriedade Predial e Territorial Urbana (IPTU) regularizem sua
situação. Será mais um incremento nos cofres municipais.
Outra iniciativa é o Fundo Diversifica Mariana, criado para reduzir a
dependência do município da mineração, oferecendo vantajosas operações
de crédito para atrair empresas de outros setores. Foram fornecidos R$
55 milhões pela Fundação Renova e a iniciativa conta ainda com a
participação do Banco de Desenvolvimento de Minas Gerais (BDMG), que vai
administrar a verba, e do Instituto de Desenvolvimento Integrado de
Minas Gerais (Indi), responsável pela busca das empresas. Retomada da Samarco
A necessidade de diversificar as fontes de renda foi um dos
principais desafios citados em entrevistas pelo prefeito Duarte Júnior
após a tragédia, mas o município ainda não consegue apresentar nenhum
resultado concreto nesse sentido. Ao mesmo tempo, o retorno da Samarco é
considerado pelo município um elemento fundamental para a consolidação
do cenário positivo.
Há pouco mais de uma semana, a mineradora obteve a Licença de
Operação Corretiva (LOC), a principal pendência junto ao Conselho
Estadual de Política Ambiental (Copam) para que as operações pudessem
ser retomadas. No entanto, a retomada não será imediata já que a Samarco
alterou seus planos.
Anteriormente, a ideia era depositar rejeitos na Cava de Alegria do
Sul. A cava é uma estrutura resultante do próprio processo de lavra de
minério e considerada mais segura que a barragem, pois o rejeito fica em
um espaço confinado. Posteriormente, houve a decisão por reiniciar suas
operações utilizando novas tecnologias para o empilhamento de rejeitos a
seco. Dessa forma, apenas 20% dos rejeitos serão depositados na cava,
cujo obra de preparação foi concluída no mês passado.
O retorno das atividades somente ocorrerá após implementação de um
sistema de filtragem, previsto para o fim de 2020. Por meio desse
sistema, será possível o empilhamento a seco. A cautela é aprovada por
Duarte Júnior. “A filtragem é a garantia de que novas tragédias não
ocorram”.
O Ministério Público de Minas Gerais (MPMG) acompanha a situação e
cobra mais empenho no pagamento das indenizações e na reparação dos
danos causados aos atingidos. “Lamentamos o fato de a Samarco estar
retomando e não terem sido realizados ainda nem 10% da reparação. A
concessão da LOC foi uma decisão do Copam e não há o que possamos fazer,
pois é uma decisão administrativa”, diz o promotor Guilherme Meneghin.