
Enquanto o Congresso Nacional discute e destrava um programa de R$ 5 bilhões voltado para o Regime Especial de Tributação para Serviços de Data Center (Redata), o Ceará já vive a expectativa da transformação econômica a partir da chegada dessas tecnologias. Somente o empreendimento da Omnia, que está em obra e vai receber a plataforma Tik Tok, reúne um investimento total de R$ 200 bilhões. Além disso, o da Tecto Data Centers concentra recursos da ordem de R$ 350 bilhões e, mais recentemente, a Qair Brasil, subsidiária da multinacional francesa de energias renováveis Qair, e a também francesa Voltalia, anunciaram que vão investir em equipamentos dessas proporções no Estado. Dessa última, o investimento é de R$ 181,7 bilhões.
Situadas na região da Zona de Processamento de Exportação (ZPE) do Pecém, em São Gonçalo do Amarante, essas obras mostram o potencial estratégico do Estado, seja pelos investimentos logísticos, especialmente no complexo Portuário do Pecém e a chegada da Transnordestina, além de incentivos fiscais e diálogos para adequações legais. O Ceará também reúne vantagens geográficas e climáticas que favorecem investimentos em energias renováveis, bem como a tendência tecnológica, a exemplo dos cabos de fibra óptica submarinos (intra-oceânicos) que fazem do Estado, um dos maiores hubs do mundo.
Para o membro da diretoria executiva do Sindicato das Indústrias de Energia e de Serviços do Setor Elétrico do Estado do Ceará (Sindienergia-CE), Adão Linhares Muniz, a chegada dos data centers é a maior oportunidade de industrialização que o Ceará tem desde a siderurgia do Pecém e, por uma razão específica, pela primeira vez, o ativo que atrai investimento é algo que o Estado já tem em abundância e não consegue escoar por inteiro.
“Durante vinte anos, o Ceará vendeu energia. Gerava aqui, transmitia para o Sudeste e capturava a margem menor da cadeia e, nos últimos anos, passou a nem sequer conseguir escoar tudo, com o corte de geração. O data center inverte essa lógica, ele traz o consumidor para junto da fonte. O Estado deixa de exportar elétron e passa a exportar serviço digital, que tem valor agregado muito maior e fica registrado aqui, na arrecadação e no PIB”, explicou.
Adão Linhares observa ainda dois efeitos: o de encadeamento e o de soberania digital. Para o primeiro, ele destaca que o data center não chega sozinho, pois atua em transmissão, subestação, armazenamento em baterias, geração dedicada, fibra, refrigeração, construção pesada, manutenção especializada e segurança de dados. “E, sobretudo, na formação de gente: engenharia elétrica, engenharia de dados, operação, cibersegurança. Isso muda o perfil do emprego no Estado de uma forma que nenhuma planta industrial isolada muda”, disse.
Para o segundo ponto, o dirigente enfatiza que o tema é nacional e que o Ceará tem posição privilegiada. “O Brasil hoje processa uma grande parte dos seus dados no exterior. Ter capacidade computacional em território nacional, alimentada por energia limpa e conectada por cabos submarinos que partem de Fortaleza, é de interesse estratégico do Brasil, não apenas do Ceará e há a convergência com o hidrogênio verde. Não são apostas concorrentes, no Pecém. Elas já estão sendo desenhadas juntas, no mesmo território e sobre a mesma base de geração. Isso é o que transforma um conjunto de anúncios em um polo”, ressaltou Adão Linhares.
Data Center
Um data center (centro de processamento de dados) é um local físico, que pode ser uma sala, um prédio ou um galpão gigante, projetado para abrigar computadores, servidores e outros equipamentos de tecnologia que armazenam, processam e distribuem grandes volumes de informações.