Os produtores de cajuína do Ceará decidiram transformar uma tradição centenária em uma pauta de interesse público. A principal reivindicação é que a bebida produzida pela agricultura familiar passe a integrar o cardápio da merenda escolar, por meio das compras do Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE), unindo alimentação saudável, geração de renda no campo e valorização da cultura regional.
A proposta ganha força a partir da experiência da Cajuína São João, na comunidade de Lagoa de São João, em Aracoiaba.
o empreendimento familiar reúne dezenas de agricultores, fortalece a economia rural e preserva um dos símbolos da cultura alimentar cearense.
Da descoberta da cajuína ao fortalecimento da agricultura familiar
À frente da iniciativa está o agricultor familiar Silvanar Soares Pereira, que conheceu a cajuína em 1988 durante um encontro promovido pela Igreja Católica. Embora não tenha apreciado a bebida no primeiro contato, mudou de opinião ao conhecer seu valor nutricional e o potencial de aproveitamento integral do caju.
“Passei a entender que a cajuína representava muito mais do que uma bebida. Era uma forma de aproveitar o caju, gerar renda para as famílias e valorizar a cultura do nosso povo”, relembra Silvanar, que conduz a produção ao lado do irmão Itamar e da cunhada Elisangela.
O interesse se consolidou em 2005, quando, na presidência da Associação Comunitária de Lagoa de São João, conseguiu, em parceria com a Embrapa, um curso sobre aproveitamento do caju. Entre mais de 20 produtos derivados da fruta, a fabricação da cajuína foi a atividade que mais chamou sua atenção.
Incentivo do pai impulsionou o empreendimento
A produção começou de forma artesanal, voltada ao consumo da família, à distribuição entre amigos e aos eventos comunitários. O grande impulso veio do incentivo dos pais, Seu Chico Soares e Dona Luzia Pereira, agricultores familiares dedicados ao cultivo do caju e da mandioca.
O momento decisivo aconteceu em 2018, durante a comemoração dos 100 anos de Seu Chico. O tradicional beiju servido com cajuína conquistou os convidados e despertou interesse comercial. Diante da procura, o pai incentivou o filho a ampliar a produção.
“Meta as caras, seu besta, que eu lhe ajudo”, recorda Silvanar sobre o conselho do pai.
Com financiamento do Pronaf, a antiga casa de farinha da família foi adaptada para funcionar como uma pequena agroindústria. Em 2020, mesmo enfrentando os desafios da pandemia e a perda de Seu Chico, a produção comercial foi iniciada.
Naquele ano foram produzidos cerca de cinco mil litros de cajuína. Em 2021, a produção ultrapassou 13 mil litros e a marca conquistou o registro do Ministério da Agricultura.
Cadeia produtiva fortalece economia rural
Hoje, a Cajuína São João movimenta uma cadeia produtiva formada por 42 famílias de agricultores familiares, responsáveis pelo fornecimento do caju, além de outras oito famílias envolvidas na coleta e reutilização de garrafas.
Agora, os produtores querem ampliar esse impacto por meio da inclusão da cajuína na alimentação escolar.
Segundo Silvanar, a medida abriria um mercado permanente para os agricultores familiares, reduziria o desperdício do caju e aproximaria os estudantes de um produto tradicional da cultura cearense.
“Queremos que as crianças conheçam um produto da nossa terra e que a agricultura familiar seja reconhecida como parceira da alimentação escolar. Isso significa renda para quem produz, preservação da cultura e mais saúde para nossos estudantes”, afirma.
Para reforçar a mobilização, Silvanar gravou um vídeo dirigido ao senador Camilo Santana (PT), defendendo que a cajuína passe a integrar o cardápio da merenda escolar.
Na avaliação do agricultor, a iniciativa representa muito mais do que ampliar a comercialização da bebida: significa fortalecer a agricultura familiar, incentivar o aproveitamento do caju e preservar uma tradição que faz parte da identidade do Ceará.
História que cruza memória, agricultura e cidadania
O convite de Silvanar ao Jornal Alerta Geral levou a equipe até Lagoa de São João, onde, além da degustação da cajuína, foi possível conhecer a história da família e o legado deixado por Seu Chico Soares, cuja principal herança foi incentivar o filho a ousar e investir em um projeto capaz de transformar a realidade da comunidade.
A visita também resgatou outro capítulo marcante da história de Aracoiaba. Foi no município que, na década de 1990, a então promotora de Justiça Marília Uchoa revelou o esquema que ficou conhecido como a Máfia da Aposentadoria, responsável por fraudes contra aposentados rurais.
Seu Chico Soares esteve entre as vítimas desse esquema, episódio que marcou milhares de famílias cearenses. Três décadas depois, essa história será registrada em um livro com produção coordenada pela jornalista Suzete Nocrato, que acompanhou a reportagem ao lado do historiador Cosme do Vale, colhendo depoimentos e preservando a memória da luta dos trabalhadores rurais de Aracoiaba.
Ceará Agora