Macacos-prego de Ubajara usam ferramentas de pedra para quebrar o coco babaçu

Blog do  Amaury Alencar
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Quem passa pelas trilhas do Parque Nacional de Ubajara, no Ceará, pode até confundir o som com o de um canteiro de obras. Mas os operários ali são outros. Em uma demonstração surpreendente de inteligência, os macacos-prego da região desenvolveram uma técnica digna de ancestrais humanos: eles usam pedras como verdadeiros martelos e bigornas. O motivo de tanto esforço? Uma verdadeira operação de engenharia para conseguir abrir e saborear o duro coco babaçu.

O uso de ferramentas por animais ainda desafia a ciência e impressiona pela raridade. De acordo com a bióloga Tatiane Valença, integrante do projeto Neoprego — que estuda os macacos-prego no Parque Nacional de Ubajara —, essa habilidade faz parte de um clube extremamente exclusivo na natureza.

“A quebra de cocos e outros alimentos duros é um comportamento relativamente raro entre os primatas, sendo realizado apenas por chimpanzés, macacos cinomolgos, macacos caiararas e macacos-prego”, destaca a pesquisadora.

Tatiane ressalta que nem mesmo todos os indivíduos da própria espécie compartilham esse hábito: “A grande maioria das espécies e populações de macacos-prego não realiza esse comportamento, estando mais restrito às populações que vivem em áreas de Cerrado, Caatinga e regiões mais secas da Mata Atlântica”.

De acordo com a bióloga, os macacos-prego são capazes de erguer pedras consideravelmente mais pesadas que o próprio corpo para conseguir alimento. O grande recordista dessa demonstração de força bruta é Fabiano, o macho dominante do principal grupo acompanhado pelos pesquisadores do Neoprego. Pesando apenas 3,5 kg, o macaco impressionou a equipe ao levantar uma pedra de impressionantes 5,725 kg. Para entender o tamanho da façanha, a especialista faz uma comparação com a nossa realidade: seria o equivalente a um ser humano de 60 kg erguer um peso de 98 kg acima da cabeça, no puro gogó, sem a ajuda de qualquer equipamento ou guindaste.

Embora esse comportamento de quebra seja comum, a bióloga afirma que o Parque Nacional de Ubajara é um laboratório vivo de comportamentos inéditos no planeta, e que a quebra de cocos com pedras, é apenas o começo da história.

“Esse comportamento de quebra é bem comum. Mas os macacos de Ubajara usam pedras para cavar e varetas para desentocar presas, comportamentos raríssimos em animais em geral. E tem comportamento que só encontra em Ubajara, nenhum outro macaco do mundo faz.”, explica a bióloga Tatiane Valença.

A abundância de recursos transformou os macacos-prego da parte baixa de Ubajara em recordistas mundiais de produtividade. A bióloga explica que a geografia local joga a favor dos animais que vivem no sertão, a área mais baixa do parque.

“Uma coisa interessante sobre a quebra de cocos dos macacos do Parque Nacional de Ubajara é que as pedras são muito mais abundantes na parte baixa do parque, o sertão, do que na parte alta”, revela Tatiana.

Com ferramentas e comida de sobra no mesmo lugar, o comportamento explodiu: “Por conta da abundância de pedras e palmeiras, os macacos que vivem na parte baixa quebram cocos com uma frequência altíssima, a maior já registrada entre as populações dessa espécie”.

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