Flávio/Vorcaro: Produtora tem elo com emendas; PF suspeita custeio de Eduardo

Blog do  Amaury Alencar
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Ao justificar o pedido de dinheiro ao empresário Daniel Vorcaro, do Banco Master, para financiar o filme sobre a história de Jair Bolsonaro (PL), o pré-candidato à Presidência da República, Flávio Bolsonaro (PL-RJ), enfatizou haver “zero de dinheiro público”, mas a produtora responsável pelo projeto tem ligações com uma rede que já foi abastecida por emendas de deputados do PL e contrato com a Prefeitura de São Paulo na gestão Ricardo Nunes (MDB). A Go Up, produtora de “Dark Horse” (“Azarão”), que trata da vida do ex-presidente, tem como sócia-administradora Karina Gama, que controla outras empresas ou entidades do ramo cultural beneficiadas por verbas públicas destinadas por deputados federais do PL, como Mário Frias (SP).

O Instituto Conhecer Brasil, presidido por Karina, também firmou termo de colaboração para receber R$ 108 milhões da Prefeitura paulistana, conforme revelado pelo The Intercept Brasil, para fornecer internet wi-fi a comunidades de baixa renda, após chamamento público realizado em 2024. Karina nega que o filme sobre Bolsonaro tenha recebido dinheiro de pessoas ou empresas brasileiras, seja público ou privado, e também nega que Vorcaro tenha passado qualquer valor à produção.

A gestão Nunes afirma que “a contratação do Instituto Conhecer Brasil para a instalação de 5.000 pontos do Wi-Fi Livre na cidade foi realizada por meio de chamamento público transparente e sem contestações”. Segundo a Prefeitura, “a organização social cumpriu todas as exigências previstas no edital, e a prestação do serviço está em andamento com 3.200 pontos de wi-fi implementados e 1.800 pontos previstos para 2026”.

Em relação ao financiamento do filme, a Go Up, que também está associada a um endereço nos Estados Unidos, diz não ser possível revelar nenhum dos mais de dez investidores estrangeiros em razão de acordo de confidencialidade. Além da Go Up, Karina é associada a mais três empresas do ramo cultural. Todas têm o mesmo endereço e telefone fixo para contato nos dados oficiais da Receita Federal, mas o local abriga uma quarta empresa, a Gowork, um escritório virtual com endereço fiscal que atende diversas empresas para o recebimento de correspondência simples. Segundo a Gowork, a produtora não tem relação com o endereço e apenas uma empresa de Karina, o Instituto Conhecer Brasil, é cliente do serviço. A Go Up nega qualquer irregularidade com os dados.

O Instituto Conhecer Brasil também recebeu R$ 2 milhões de Mario Frias em 2025 para projetos de letramento digital e incentivo ao esporte. Segundo o parlamentar, as emendas foram entregues a “projetos sociais devidamente estruturados e supervisionados por órgãos federais” e nada têm a ver com o filme “Dark Horse”, para o qual contribuiu com argumento inicial, atuação e produção executiva.
Ele, que também é citado pelo Intercept como possível intermediário nos trâmites com Vorcaro, endossou em nota o posicionamento da produtora e negou que tenha havido repasses. Outra empresa da qual Karina é presidente, a Academia Nacional de Cultura (ANC), teve R$ 2,6 milhões de emendas destinadas pelos deputados Marcos Pollon (PL-MS) e Bia Kicis (PL- DF), além de Carla Zambelli, então deputada pelo PL de São Paulo, e Alexandre Ramagem, que exercia o mandato pelo PL do Rio de Janeiro. Conforme revelado pelo UOL, o dinheiro foi repassado em 2024, por emenda Pix, para o Estado de São Paulo e tinha como destino final a ANC para a realização de uma série sobre heróis nacionais.

Segundo a assessoria de Pollon, a emenda do parlamentar, de R$ 1 milhão, foi redirecionada para uma instituição oncológica depois de o projeto não cumprir os requisitos necessários. Kicis afirma que a emenda passada por ela, de R$ 150 mil, “sequer foi paga até o presente momento” e que o projeto tem natureza cultural e educativa. Gerido pelo governador Tarcísio de Freitas (Republicanos), o Estado de São Paulo confirmou que as emendas para a série “encontram-se, em sua totalidade, sem execução em razão de diligências em curso para sanar restrições técnicas e pendências documentais relacionadas ao beneficiário”.

Representação no STF
Os repasses ligados a Karina geraram uma representação, aberta no Supremo Tribunal Federal (STF), da deputada Tabata Amaral (PSB-SP) sobre os aportes públicos da Prefeitura de São Paulo e de emendas às organizações ligadas à empresária. Já a Conhecer Brasil Assessoria Produção e MKT Cultural, quarta empresa ligada a Karina, recebeu R$ 54 mil de Mário Frias em gastos da campanha de 2022.
Segundo Frias, a prestação de contas foi devidamente analisada e aprovada pelos órgãos competentes. A Go Up afirma que a estreia comercial do filme sobre Bolsonaro está em fase de definição.

Custeado nos EUA
A Polícia Federal (PF) suspeita que recursos ligados a Vorcaro foram usados para financiar despesas do ex-deputado Eduardo Bolsonaro (PL-SP) nos Estados Unidos, onde ele vive desde fevereiro de 2025. Esses recursos teriam sido transferidos a um fundo sediado no Texas, nos EUA, por uma empresa chamada Entre Investimentos e Participações. O objetivo era bancar o filme que trata da vida do ex-presidente.
Há a suspeita de que esse fundo seja controlado por aliados de Eduardo. A linha investigativa da PF foi divulgada inicialmente pelo site Amado Mundo e confirmada pela reportagem. A PF pretende entender se os recursos, que teriam sido enviados a pedido do dono do Banco Master, foram, de fato, usados para financiar o filme ou se uma parte desse dinheiro serviu para custear a vida de Eduardo no país.

A reportagem tentou contato com Eduardo nessa quinta-feira (14) por ligações e mensagens de WhatsApp, mas não obteve resposta até o fechamento desta edição. Na quarta-feira (13), o site The Intercept Brasil revelou que Flávio Bolsonaro pediu dinheiro a Vorcaro para financiar o filme. O ex-banqueiro chegou a pagar R$ 61 milhões para a produção, e um áudio de setembro de 2025 mostra o senador cobrando mais recursos. O senador confirmou ter pedido dinheiro a Vorcaro para o filme, mas negou ter recebido ou oferecido vantagens. Ontem, disse que omitiu contato com Vorcaro por cláusula de confidencialidade em patrocínio de filme.

Prisão do pai de Vorcaro

Nessa quinta-feira, a PF prendeu o empresário Henrique Vorcaro, pai de Daniel, por ordem do ministro André Mendonça, do STF, na sexta fase da Operação Compliance Zero, que investiga irregularidades relacionadas ao Banco Master. As investigações da PF que levaram à prisão de Henrique apontam que ele atuava em conjunto com o filho como “solicitador e beneficiário” de serviços ilícitos prestados pelo grupo “A Turma”, que fazia ameaças e tentava obter acesso a informações sigilosas de investigações contra eles.

Essa atuação, segundo as apurações, continuou mesmo após a prisão de Daniel, em novembro do ano passado. No total, a PF cumpriu sete mandados de prisão preventiva (sem tempo determinado) e 17 de busca e apreensão, expedidos pelo STF. São investigadas suspeitas dos crimes de ameaça, corrupção, lavagem de dinheiro, organização criminosa, invasão de dispositivos informáticos e violação de sigilo funcional.

A defesa de Henrique Vorcaro disse que a prisão é uma medida grave e desnecessária, e que o ideal seria ouvir os esclarecimentos dele antes de a decisão ser tomada. Segundo o advogado, será comprovada a licitude dos atos do empresário.

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