Agora é definitivo. Os orelhões serão recolhidos das ruas, bairros e outras localidades de Iguatu. O anúncio foi feito há uma semana pela empresa de telefonia detentora dos direitos sobre os equipamentos, em consonância com a Anatel.
Com a chegada do telefone celular e a popularização dos sistemas de comunicação via telefone, evoluindo para as redes sociais, os telefones públicos foram ficando de lado e hoje são meros objetos de decoração da cidade. Antes de se tornarem obsoletos, já foram de grande valia.
Desde quando surgiram em meados da década de 70, criados pela arquiteta designer chinesa Chu Ming Silveira, os equipamentos revolucionaram a comunicação entre cidades, estados e outros países aproximando as pessoas. Com o avanço da tecnologia, a era digital e a popularização dos celulares, os orelhões foram deixados de lado e hoje não passam de meros objetos esquecidos nas ruas.
Os orelhões que ainda estão nas ruas estão danificados e depredados pela ação de vândalos. Agonizam ao relento enquanto esperam pelo recolhimento. Nos locais ficarão apenas as lembranças de quando se usava ficha de metal para fazer uma ligação local, interurbano, ou ligava a cobrar. O desprezo por esses equipamentos é a forma mais ingrata de tratar o que já foi outrora o principal canal de comunicação das famílias. No auge da vida útil dos orelhões, sair de casa para ir telefonar para alguém era um acontecimento. Receber uma ligação também era motivo de comemoração, tristeza ou para alguém bater com a ‘língua nos dentes’ e espalhar fofoca.
Aqui em Iguatu, a reportagem ainda conseguiu localizar dois orelhões, na Rua Floriano Peixoto (antigo prédio da Teleceará) e na rua que liga a Dr. João Pessoa e 15 de novembro, na calçada da Biblioteca Matos Peixoto. O número de aparelhos na cidade incluindo bairros e vilarejos da zona rural era bem maior, mas com a falta de uso os equipamentos foram abandonados e agora os que restaram serão recolhidos pela empresa responsável.
De acordo com a Anatel-Agência Nacional de Telecomunicações, ainda existem 38 mil aparelhos espalhados por todo Brasil. A retirada, de acordo com o órgão, é motivada pelo fim das concessões de telefonia fixa em 2025. Os aparelhos só serão mantidos em locais onde não há redes de telefonia móvel, o que não é o caso de Iguatu.
Origem
Chu Ming Silveira, nascida em Xangai e formada em Arquitetura e Urbanismo na FAU-Mackenzie, em São Paulo, no ano de 1964. Começou a trabalhar na Companhia Telefônica Brasileira (CTB), em São Paulo, em 1966, realizando anteprojetos, supervisão e coordenação do desenvolvimento dos projetos de Centrais Telefônicas e Postos de Serviço, além de acompanhamento de obras. Marco da comunicação de massa, aquela caixa acústica em formato de um ‘ovo’ teve tanta utilidade e durou tanto tempo, marcando a vida de pessoas, famílias, bairros, ruas, cidades.
O poeta e cronista mineiro Carlos Drummond de Andrade escreveu crônicas para o Jornal do Brasil, de outubro de 1969 a setembro de 1974. O texto “Amenidades da Rua” reportou o surgimento do orelhão no cenário brasileiro:
“Amenidades da Rua”
(Carlos Drummond de Andrade)
De repente – notaram? – a rua melhorou em São Paulo, com o aparecimento do telefone-capacete. Bem que eu queria falar sobre ele, mas bobeei, e Ziraldo, com aquele humour (sic) que não pede licença para explodir, disse em cartoon o que eu tentaria escrever sobre o Orelhão.
Ah, Ziraldo, isso não se faz: ter, antes dos outros, as melhores ideias!
A verdade é que a rua ficou sendo outra coisa, com as pessoas descobrindo que não precisam mais fazer fila no boteco ou na farmácia para dar um recado telefônico. Na própria calçada, uma vez comprada a ficha no jornaleiro, comunicam-se. Tão simples. Em outras cidades desse mundinho que é o mundo, já se fazia isso há muito tempo, mas aqui é novidade grande/ gostosa.
A primeira experiência foi aquele fiasco. As cabinas cilíndricas despertaram a agressividade, o instinto predatório de alguns, e logo se tornaram ruínas. O usuário repelia a dádiva. Eram feias? Nem por isso. Eram úteis, mas os destruidores não repararam na utilidade. Vingavam-se, talvez, nas pobres cabinas, das frustrações e irritações acumuladas durante anos de mau serviço telefônico. Para não falar no gosto puro e simples de arrebentar, que dorme nas cavernas psíquicas do suposto civilizado, e que, se ninguém está perto para servir de alvo, ou com receio de levar a pior na arrebentação, desaba sobre as coisas, que não reagem.
A CTB não desanimou, e saiu-se com o telefone protegido por uma cuia invertida: um, dois, três aparelhos geminados. Agiu tão depressa, e bolou tão bem a coisa, que os vândalos ficaram tontos e não contra-atacaram, senão em escala mínima. A população tomou conta das cabinas, que não são cabinas, são uma cuia gozada, a céu aberto, uma cuia que fala. Simpatizou com elas. Aprovou-as.
Então começamos a reparar que a rua é afinal uma boa coisa, apesar dos automóveis que a entopem ou que fazem dela pista para treinamento para fittipaldis em potencial. E, na rua, a calçada é aquela parte boa em que é bom ir e vir, parar e até telefonar. Com depósitos metálicos onde você pode colocar o seu papel de sorvete.
Com pontos de parada de coletivos, que indicam números de linhas à sua escolha. São pequenas viagens que se oferecem, em todas as direções. Sucedem-se as placas, prestando informações que todo mundo consome, sem ligar para o esforço que toda essa sinalização representa. Uma série de códigos em ação para sua segurança. O hidrante está li, prevenido, para você poder continuar desprevenido. Ao lado dele, o telefone vermelho dos bombeiros. As pedrinhas que você pisa procuram diverti-lo, formando arabescos em preto e branco; de vez em quando interrompem o desenho para dar espaço a tampas que vedam condutos subterrâneos de que dependem a sua higiene, o seu conforto domiciliar, a sua vida. No leito da rua, pintaram listas amarelas que lhe permitem passar incólume, com ar superior de pedestre que despreza os motorizados, em frente à massa de carros subitamente imobilizados, impotentes para massacrá-lo. E não falei em outros serviços e dedicações mudas da rua para o citadino: a rua oferecida em árvores, toldos, lojas de tudo, escritórios, consultórios, jardins, cinemas, igrejas, oficinas; a rua, enciclopédia de utilidades e favores gerais. Tudo isso representando investimento, e que investimento colossal é a rua.
Nós a estimamos pouco, não sabemos prezá-la. Cuspir na rua, jogar-lhe detritos, conspurcá-la, são pecados que cometemos sem sentir, de tão habituados. Cobrar-lhe os defeitos, as lacunas, é costume velho. Mas celebrar-lhe e preservar-lhe as excelências, disso ninguém se lembra. Agora, o telefone-cuia dá ensejo para rimar, com satisfação” Viva a cuia, aleluia!
E diz-se que vem aí uma nova caixa de correio, para aumentar as amenidades da rua. As que havia, raras e pesadonas, eram demasiado republicanas, com as armas nacionais em relevo dando a impressão de que só o Quintino Bocaiúva podia botar lá dentro sua correspondência; quem fosse monarquista, anarquista ou nada, estaria excluído. Desejo que a EBCT faça como a CBT: peça a um industrial designer que bole a caixa diferente, atraente, simpática: enfim, uma caixa que desperte no brasileiro, tão incorrespondente por natureza e por má educação, o desejo de escrever cartas, para o prazer de botá-las numa caixa bacana, a dois passos de casa; porque sendo a duzentos passos, o brasileiro desiste de escrever, mesmo que seja para pedir dinheiro ao pai.
Jornal a Praça



