Conheça Mestre Macaúba do Bandolim, o homenageado do Ciclo Carnavalesco de Fortaleza

Blog do  Amaury Alencar
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Fortaleza respira os primeiros ares da folia. A capital cearense inicia oficialmente o seu Ciclo Carnavalesco de 2026, abrindo as portas para uma vasta programação de pré-carnaval que promete ocupar as praças e avenidas da cidade. No centro desta celebração, uma figura emblemática personifica a resistência e a elegância da música local: José Felipe da Silva, o Mestre Macaúba do Bandolim. Aos 82 anos, ele foi escolhido como o grande homenageado do ano, recebendo o título de “Homem do Carnaval de Rua”.
Mestre Macaúba não é apenas um nome no cartaz; ele é amplamente reconhecido como o maior bandolinista do Ceará e serve como uma referência viva para a cena artística cearense. Sua trajetória, que já soma quase sete décadas, confunde-se com a própria história da música instrumental no estado.

A honra da
homenagem
em vida
Para o músico, a indicação para representar o carnaval de rua de Fortaleza traz um sentimento de realização profunda. Em entrevista, ele expressou sentir-se imensamente orgulhoso e honrado pela escolha, descrevendo o carnaval da cidade como uma manifestação “muito rica”. Macaúba ressaltou que, embora já tenha recebido diversas homenagens ao longo da vida incluindo o reconhecimento em Brasília, onde é sócio do prestigiado Clube do Choro , ser celebrado em sua terra natal possui um significado especial.
A felicidade de receber esse destaque aos 82 anos se traduz em uma renovada “vontade de tocar” para mostrar ao público a essência do seu trabalho. O troféu que ele receberá neste ciclo carnavalesco é visto pelo mestre como um reconhecimento fundamental de Fortaleza à sua dedicação contínua à arte.

Memórias de
um pioneiro
Falar de Mestre Macaúba é viajar no tempo pelas ruas de uma Fortaleza que já não existe mais, mas que sobrevive em suas memórias. Um dos momentos mais marcantes de sua trajetória no carnaval foi a participação no primeiro trio elétrico da cidade. Naquela época, a estrutura era bem diferente das atuais: tratava-se de um caminhão de uma cervejaria local adaptado para a música.
Macaúba recorda com detalhes as rotas que faziam a alegria dos foliões: “a gente animava o carnaval, tocava na avenida iluminada, fazia todos os eventos”. O desfile percorria pontos como as Caxias e encerrava-se de forma apoteótica no antigo matadouro. Para ele, essas lembranças de tocar sobre um caminhão elétrico representam um marco do seu envolvimento com a festa popular, muito antes do carnaval de Fortaleza tomar as proporções que tem hoje.
“Olha, estou me sentindo muito orgulhoso e honrado por ter escolhido para ser homem do carnaval de rua, que é o nosso carnaval muito rico, e dizer que só felicidade, vontade de tocar, pra gente mostrar alguma coisa que a gente sabe.”, conta em entrevista ao O Estado

Sete décadas de
choro e resistência
A relação de José Felipe da Silva com o bandolim começou na adolescência. Aos 15 ou 16 anos, ele já estava na ativa, tocando na noite fortalezense e acompanhando cantores de seresta em diversas casas da cidade. O Choro, para ele, é a “primeira expressão musical” brasileira e um patrimônio nacional de valor inestimável.
Ao longo de sua vida, o mestre integrou grupos que misturavam o choro com o samba e a seresta, mantendo o ritmo sempre presente em seu repertório. Sua carreira profissional também é marcada por passagens importantes nos meios de comunicação; ele tocou na Rádio Clube e passou cinco anos na Rádio Universitária, uma emissora que ele elogia por dar “muita vida ao choro”. Macaúba destaca o papel de resistência do gênero musical em Fortaleza, citando programas como o de Nels, que aos domingos divulga o chorinho e fortalece a cena local. “Eu continuo chorando”, afirma ele, referindo-se à sua persistência em manter o gênero pulsante.

A “Escola da Vida”
nas segundas-feiras
Mesmo afirmando que está “quase se aposentando” devido à idade, Mestre Macaúba mantém uma conexão vibrante com as novas gerações. Ele não se isola em seu título de mestre; ao contrário, transforma sua própria residência em um centro cultural informal. Toda segunda-feira, ele promove reuniões em sua casa que atraem diversos músicos jovens. Nesses encontros, o objetivo é tocar, brincar, compartilhar e ensinar.
No entanto, Macaúba enfatiza que a troca é mútua: “eu aprendo muito com jovem. Eu gosto de aprender com jovens e trocar experiência”. Para ele, o Choro é um ritmo que atravessa gerações e não possui idade, sendo acolhido tanto pelo público antigo quanto pelos novos instrumentistas que buscam beber de sua fonte.

O Legado da humildade
Como uma referência absoluta para quem está começando na música, o mestre deixa um recado claro sobre o que considera o segredo de uma trajetória longeva e respeitada. Para Macaúba, o pilar de qualquer artista deve ser a humildade. “A humildade cabe em todo canto”, ensina ele, reforçando que é através dessa postura que ele construiu grandes amizades e conquistou o respeito que recebe até hoje nas rodas de música.
O Choro é descrito por ele como uma expressão musical belíssima, porém difícil de executar, o que torna sua maestria ao longo de 70 anos ainda mais notável. Ao iniciar este Ciclo Carnavalesco de 2026, Fortaleza não apenas celebra a música de José Felipe da Silva, mas reverencia a própria história da boemia e da cultura cearense, personificada nas cordas de seu bandolim.

Por Priscila Sampaio

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