A disputa por recursos orçamentários e protagonismo no governo acirrou a divisão entre militares e civis na Esplanada dos Ministérios. A queda de braço entre os grupos, que antes era restrita a discordâncias de bastidor, tornou-se pública nas últimas semanas e tem potencial de se agravar até o final do ano. O embate ocorre tanto em torno do remanejamento de verbas federais como por causa de opiniões distintas sobre políticas de enfrentamento à atual recessão econômica. O antagonismo chegou até mesmo ao grupo de WhatsApp da equipe ministerial, formado pelos 23 auxiliares presidenciais e criado no início do governo para a discussão de pautas prioritárias.




                                       

                                       


Segundo relatos feitos à reportagem, militares e civis têm reforçado, no aplicativo de mensagens, o compartilhamento de notícias que reafirmem as suas bandeiras ideológicas. Por um lado, os civis, a maior parte deles afinada ao ministro Paulo Guedes (Economia), defendem a preservação do teto de gastos e o ajuste fiscal, seguindo o ideário liberal. Os militares, por sua vez, pregam a necessidade de induzir a atividade econômica e aumentar os investimentos públicos, em uma linha desenvolvimentista. Com a previsão para o ano que vem de R$ 92 bilhões para gastos não carimbados, a expectativa entre assessores presidenciais é de que a proposta orçamentária para 2021 estimule novos choques.


Na última semana, deputados governistas relataram à Folha de S. Paulo que já foram sondados por assessores de ministros para discutir o aporte em projetos de infraestrutura e avaliar remanejamentos de recursos. A piora na relação entre civis e militares teve início com a pandemia do novo coronavírus. A decretação do estado de calamidade permitiu o aumento dos gastos, mas manteve limitações para despesas não relacionadas ao combate à doença. Desde então, militares do governo já defenderam em caráter reservado a demissão de dois auxiliares civis, mas o presidente Jair Bolsonaro manteve os assessores e preferiu não se envolver nas crises internas. O primeiro embate público se deu em abril, quando o ministro da Casa Civil, general Braga Netto, montou um plano de retomada da economia chamado de Pró-Brasil. Ele foi apelidado de “Plano Marshall”, em referência ao programa norte-americano adotado após a Segunda Guerra Mundial.


Proposta
A proposta foi anunciada com a previsão de criação de 1 milhão de empregos por meio da retomada de obras públicas. A iniciativa enfrentou uma resistência imediata de Guedes, para o qual a saída da crise não se dará por meio do gasto público. “Se a gente quiser acabar igual a [presidente] Dilma [Rousseff], a gente segue esse caminho”, disse o ministro em reunião ministerial no final de abril. A presidente sofreu impeachment em 2016. Mesmo com a oposição de Guedes, Bolsonaro autorizou Braga Netto a dar prosseguimento ao plano, em uma tentativa de criar uma vitrine eleitoral que possa aumentar as chances de uma eventual reeleição em 2022. Nessa época, em uma conversa reservada, ministros civis alertaram o presidente deque, caso ele desse sequência a um plano de aumento dos gastos, seu destino poderia ser o mesmo do ex-presidente argentino Mauricio Macri.

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