O parto é um momento esperado e sonhado por muitas mães, principalmente quando se planeja ter o filho de forma natural, sem auxílio de cirurgia. Desde a notícia da gravidez e pré-natal até o recebimento da criança, a família se prepara de forma única. Mas, para muitas mulheres no Cariri, esse momento tem se tornado algo de insegurança e medo.

A violência obstétrica é um tipo de violência que atinge muitas mulheres e bebês em todo o país, e pode ser física e/ou psicológica, chegando a deixar sequelas. Gritos, chacotas, piadas, omissão de informações e não permitir o acompanhante que a gestante escolher são alguns exemplos.

Após observarem repetidos casos dessa violência pelo Cariri, um grupo de mulheres composto por parteira, enfermeira, doula, advogada entre outras profissões formou, ao longo da quarentena, o coletivo Parir em Paz Cariri. O trabalho do grupo é voluntário e gratuito, e busca combater a violência obstétrica no Cariri com informação, suporte e ações sociais.

A parteira Samara Simões, integrante do grupo, explica que com a pandemia do novo coronavírus, a lei do acompanhante está sendo desrespeitada constantemente. “Tem hospitais que já não respeitavam, e agora usam como justificativa a pandemia para não deixarem o acompanhante entrar. As mulheres estão entrando para parir sozinhas”, afirma Samara ao Portal Badalo.

Outra reclamação constante que o grupo ouve de parturientes é sobre a violência verbal. “Uma violência muito ‘comum’ é falar para a mulher que foi bom na hora de fazer, e que agora aguente parir. Ou mesmo mandar a mulher se calar enquanto grita de dores no parto”, diz Samara.

Através de uma página no Instagram, o grupo atualiza sobre o direito das mulheres parturientes, acesso à prontuários, sobre como é o procedimento de cesária entre outras imformações importantes às parturientes. Para preservar o anonimato, o grupo também criou um formulário para as mulheres contarem seus relatos, que pode ser acessado clicando aqui.

“Em um dos relatos, uma mulher em gravidez de risco entrou no pré-natal sozinha, pois não deixaram o companheiro entrar, e lá ela recebeu a noticia de que o bebê havia morrido, sem tem ninguém ao lado dela”, conta Samara Simões.

A episiotomia, segundo a parteira, também é um procedimento comumente aplicado nas mulheres parturientes e que pode configurar violência obstétrica. Em suma, a episiotomia é uma incisão efetuada na região do períneo (área muscular entre a vagina e o ânus) para ampliar o canal de parto. “É uma técnica desatualizada”, diz Samara, “e os médicos ainda usam com a justificativa de que vai ajudar no parto”.

Justamente esta técnica foi uma das violências praticadas contra a gestante B. C. O relato dela foi o que impulsionou a criação do coletivo Parir em Paz Cariri.

Em meio à pandemia, a parturiente foi vítima de diversas violências, entre elas mandarem parar ao gemer de dores no parto, ter um exame de toque doloroso e que estimulasse mais ainda dores na gestante e o corte da episiotomia, que mesmo B.C. implorando para o médico não realizar, acabou passando por mais uma violência.

“O dia do parto se tornou uma marca na alma, marca de dor”

Leia o relato de parto:

No dia 23 de maio de 2020 compareci a Maternidade com 39 semanas de gestação, no processo de bolsa rota para poder ter o parto normal. Ao ser avaliada constataram 4 cm de dilatação, e mesmo explicando que já estava com a bolsa rompida, ao primeiro atendimento já me deparei com a médica que ao fazer o exame de toque e não conseguindo alcançar o colo do útero forçou para alcançar, e segundo ela “estimular a dor”, constatando assim a ruptura da bolsa e dando entrada ao internamento antes das 14 horas. Em meio a dores depois do toque para estímulo da dor, sai da sala chorando, e para meu maior desespero não permitiram meu esposo me acompanhar. O momento tão aguardado pelos dois; e tive que ficar sozinha!

Fui direcionada ao quarto e com o aumento das contrações outro profissional realizou o exame de toque de forma ríspida, informando aos enfermeiros que estava com 6 cm sem direcionar uma palavra a paciente que no caso era eu, a que para eles menos importavam nessa situação toda.

Com a troca de plantão depois de horas de contrações e de quatro em uma maca, recebo a “ilustre” presença do Dr chegando na porta dizendo pra eu parar de ficar gemendo, que não adiantava, mandando eu deitar na maca, pois de quatro faria o bebê “voltar”. Realizou o exame de toque dizendo que já estava quase, e um tempo depois chegaram com soro para me colocar e questionei o que seria a medicação e sem aviso prévio algum estavam me aplicando ocitocina (para acelerar o trabalho de parto).

Com o aumento intenso das contrações permaneci na maca de quatro em meio à liquido, sangue que saiam a cada contração, e com a constante visita do Dr mandando eu parar de ficar gemendo e deitar na maca; o que ao obedecê-lo, um breve momento depois uma moça entrou no quarto dizendo que se eu preferisse voltar a posição de quatro poderia ser mais confortável; causando espanto da outra gestante que estava comigo no quarto que explicou que quem havia ordenado a deitar era o próprio médico.

Fui levada para a sala de parto onde o Dr aguardava para o seu ritual com a sua caixa de música e trilhas da sua vontade, e enfermeiros me acelerando para subir na cama para o parto, mesmo com contrações constantes que impediam de fazer as coisas na velocidade que eles desejavam.

Ao deitar na cama o Dr me puxou pelo braço para que eu segurasse no ferro da cama. Resisti ao puxão trazendo o meu braço sentido contrario e questionando se ele poderia ser menos bruto. Logo depois surge uma enfermeira com uma bandeja com instrumentos cortantes, e que no meu desespero perguntei se aqueles aparatos era para uma episiotomia… Ao me responder que sim, implorei para que não fizesse e ele me respondeu de forma ríspida que eu não tinha escolha, que se o menino saísse e rasgasse daria mais trabalho para costurar.

As 21:20 meu filho nasceu. Nessas horas todas de trabalho de parto nem água pude tomar mesmo pedindo às enfermeiras. Naquela sala vivi os momentos de piores dores e maus tratos, desde a forma de falar (onde ele me mandava fazer força de cocô e parar de gemer), ao puxão do braço de forma agressiva, o questionamento de como eu sabia o que era episiotomia (como se as pessoas não pudessem ter acesso a informação), uma verdadeira violência obstétrica que recordarei para sempre em minha pele, assim como o corte; mesmo implorando para que não o fizessem, cada ponto realizado depois sentia a entrada da agulha e a linha e o doutor mandando não me mexer para ele terminar o serviço dele logo, falando de forma agressiva até com os próprios profissionais que estavam presentes.

Um momento tão esperado que se tornou um desespero, e o dia do parto se tornou uma marca na alma, marca de dor. Ao final do processo da sala de parto, parti em uma maca para o quarto com o papel sendo entregue para assinar, e ao correr meus olhos pelo documento vejo uma declaração que deveria assinar naquele momento autorizando tudo que já haviam realizado. Questionei se era obrigado assinar e me disseram que todas eram, tanto normal como cesária . E assim nove meses de gestação tranquilos sem nenhum risco, terminaram com um parto traumático.

“Fiquei traumatizada e desisti do tão sonhado parto normal”

Em outro relato de parto recebido através da rede social do Coletivo, outra gestante relata momentos difíceis a que foi forçada a passar. Em um hospital na cidade do Crato, a gestante que preferiu não ser identificada foi internada em uma sala de pré-parto sem aviso, deixada sem acompanhante e sem comunicação com o mundo externo. “Lá não pode nem entrar com o celular”, relata a gestante, que não teve ao menos como avisar a família a situação em que se encontrava.

Diagnosticada com uma infecção, ela se deparou com uma internação inesperada, em meio a outras gestantes parindo na própria sala de pré-parto, sem acompanhante e sem alguém para ajudar nas atividades mais simples como pegar um copo de água. “Cai no choro, queria ir embora, não tinha por quem pedir socorro pra sair”, contou ela.

Leia o relato completo:

“Aconteceu que durante toda minha gravidez vinha me preparando para o dia do parto, queria normal e já havia conversado com meu esposo e tudo. Como o parto normal na região é caro, e estava fazendo o acompanhamento pelo SUS, com o parto não seria diferente.

Porém, com 35 semanas, por conta de uma infecção, quando fui ao pré-natal do meu bairro. A médica pediu que eu fosse para a maternidade aqui em Crato. Chegando lá, fui examinada, feito o exame de toque, e a médica constatou que estava com uma dilatação de 2cm. Ela falou que eu ia ficar internada, pediu pra ir levar a documentação no setor e assim fiz.

Não imagina que já estava sendo internada na sala de pré-parto, sem acompanhante e lá não pode nem entrar com o celular. Fiquei meia que em choque, mas estava pensando em minha bebê e fui. Chegando lá, fui medicada com soro na veia em um dos braços. Em tempos de pandemia, em em uma sala pré-parto, sem poder falar com minha família, dar alguma noticia, sem ver ninguém além de muitas outras mulheres grávidas com os mesmo medos que eu sentia.

Cai no choro, queria ir embora, não tinha por quem pedir socorro pra sair, fui ficando com medo e sem saber o que ia acontecer. Outras gestantes viram meu desespero, e foram conversando pra que eu ficasse calma… Uma mãezinha lá falou que estava internada há quase 3 dias, sem contato com a família. Usou o celular escondido de uma das gestantes que entrou com ele escondido, foi pega e acabaram pegando o celular.

Isso em tempos de pandemia, gestante, com uma infecção, soro em um braço não podia ficar sem pegar nas coisas pq não tinha alguém pra me ajudar (além das outras mães), então tinha que tá pegando em copos pra beber água, trinco de porta de banheiro (resumindo, tudo, sem conseguir fazer a higienização correta pra esses tempos).

Tentei me ocupar conversando e dormir. Quando conseguir pegar um sono já mais de meia noite (fui internada umas 14:00), às 2h acordei com uma gestante parindo em uma cama ao lado da minha, na sala de pré-parto, sem acompanhante.

Minhas contrações aumentaram, então em oração pedia a Deus para minha bebê não encaixar mais, não queria mais parto normal, queria sair do hospital quanto antes. As contrações diminuiram, não teve mais dilatação, no outro dia quando o médico foi me examinar, chorei muito, estava abalada pela falta de rede de apoio, por não ter nem um celular, por as enfermeiras todas com celular e tudo e a gente sem poder.

Durante a madruga atá a manhã umas três mulheres pariram na sala de pré-parto, sem ter acompanhante, no meio de outras mulheres que estavam com medo também. Tive alta, fui pra casa, fiquei traumatizada. Desisti do tão sonhado parto normal. Graças a Deus tive como pagar um parto cesária, mesmo minha bolsa estourando e tendo tudo pra ter normal. Mas minha vontade era fazer algo pra mudar isso nesse hospital. Na gestação estamos tão vulneráveis, de onde precisamos apoio fiquei mais traumatizada”. 


     Badalo  

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