O isolamento social em razão do novo
coronavírus gera mudanças de hábitos que repercutem na economia
doméstica. Em casa, as pessoas consomem mais alimentos, energia elétrica
e água. Alguns consumidores já observam aumentos no preço de alguns produtos e temem novas elevações diante das incertezas neste cenário de pandemia. Outro fator que impacta é o
ato de estocar alimentos, que já pressiona a inflação do item
alimentação e bebidas, principalmente pra as pessoas de baixa renda.
De acordo com o economista André Braz, coordenador do
Índice de Preço ao Consumidor (IPC) do Instituto Brasileiro de Economia
da Fundação Getulio Vargas (IBRE FGV), é natural uma alta nos itens da cesta básica, mas, muito mais pela pressão da demanda do que o descontrole inflacionário. Em março último, a taxa ficou em 0,34%.
"Não é nada alarmante. Esse nível é considerado baixo
levando em conta que a nossa meta de para 2020 é 4%. Então, o governo
espera conviver com ela em torno de 4%. E mesmo essa alta provocada pela
procura de alimento não deve fazer com que supere esse patamar. Pelo
contrário, a expectativa para esse ano é muito baixa, em torno de 2%", explica.
Porém, a taxa mais baixa significa que a economia não está crescendo e, consequentemente, não há mais geração de emprego e renda.
Mas se a inflação não vai subir por que algumas comidas estão mais
caras? Ocorre que outros produtos importantes para compor o indicador
estão caindo, como a gasolina, botijão de gás.
Os bens duráveis também não devem sofrer elevações
diante das incertezas do mercado de trabalho. Já os demais serviços
estão fechados, segurando assim o preço. Sozinho, o componente
alimentação não é o suficiente para acelerar a inflação.
"Quanto menos você ganha, mais se compromete com a compra de alimentos. Se eles ficam mais caros, é fato que as famílias mais humildes vão perceber isso e vão sofrer nesse processo",
aponta. "As de maior poder aquisitivo não comprometem muito da renda
com alimentos, pois têm uma cesta de consumo muito mais diversifica. As
famílias pobres não. Dada a restrição na renda, o consumo delas se
baseia mais na subsistência", frisa.
Em março, o conjunto dos 12 itens que compõem a
cesta básica de Fortaleza registrou inflação de 2,62%. O valor dela
ficou em R$ 475,11. Puxaram o aumento o tomate (10,03%), o feijão
(4,34%) e o óleo (2,80%). O gasto com alimentação de uma família padrão
(dois adultos e dua crianças) foi de R$ 1.425. O economista Guilherme Paiva pondera que "o custo logístico desses produtos cresceu e também pode refletir".
Neste momento, em que pessoas de baixa renda terão mais
dificuldades de aquisição, é fundamental o senso de coletividade. Já
que algumas famílias não poderão comprar de forma antecipada por
questões financeiras, as que têm essas condições devem ter consciência
de que os outros também vão precisar. Por isso é que a orientação
da Associação Cearense de Supermercados (Acesu), entidade que
representa as principais redes do segmento varejista no Estado, é que os
consumidores não estoquem alimentos, pois não há risco de
desabastecimento. O pânico em guardar gera apenas pressão inflacionária
na alimentação.