Em um posto de saúde de uma cidade a cerca de 176 km de Fortaleza, ele é o único médico fixo.
Os outros 14 profissionais de saúde do quadro municipal trabalham em
diferentes unidades, o que faz com que os horários de plantão sejam
pouco flexíveis. Em tempos normais, o sistema pode até funcionar, mas
quando o assunto é uma pandemia, o cenário é outro. Principalmente, quando o único médico do posto, que preferiu não se identificar, está com suspeita de coronavírus.
A insegurança em relação à saúde do médico é consequência da escassez de equipamentos de proteção individuais (EPI),
desde os mais complexos até as máscaras N95. De acordo com nota do
Sindicato dos Médicos Cearenses (Sindmedce), são em média 20 denúncias
diárias sobre a falta de EPIs e de orientações claras sobre a atuação
dos médicos no Ceará.
“Nós, enquanto profissionais de saúde, temos potencial
risco de sermos vetores. Eu trabalho no hospital com contato direto com
cerca de 150 pessoas em 12 horas. Então, são 150 pessoas que, se eu
estiver doente, eu potencialmente vou passar”, preocupa-se o médico.
Por estar apresentando sintomas como tosse seca e
febre, ele está isolado e aguarda os resultados do teste para
coronavírus. Enquanto isso, o posto de saúde no qual trabalha encontra
formas de atender os pacientes com um integrante a menos. Além da
angústia de não poder atuar como desejaria, o médico ainda enfrenta o
medo de ter transmitido a Covid-19 para os familiares, com quem teve
contato recentemente.
Outros municípios do interior do Ceará que registraram denúncias, segundo o Sindmedce, são Itu, Itapipoca, Campos Sales, Sobral, Canindé, Barbalha, Cascavel, Catunda e Eusébio.
Outro médico, atuante na cidade de Amontada,
também teme pela segurança dos pacientes e dos familiares de
profissionais de saúde. De acordo com ele, os médicos são cobrados pelas
gestões e entidades de setorização profissional a serem “linha de
frente no combate ao vírus”, ainda que sem EPIs.
“O ministro da Saúde recentemente divulgou que primeiro
a linha de frente será dos mais jovens, depois dos mais velhos. Perceba
que nessa fala já está implícita a perda de recurso humano. E que a
falta dos EPIs certamente vai ser uma das grandes causas disso”,
comenta. O profissional menciona que muitos médicos tentam adquirir os
materiais por conta própria, mas se deparam com estoques zerados.
EQUIPAMENTOS DE PROTEÇÃO INDIVIDUAL
A máscara N95 é apenas uma pequena parte de toda a vestimenta caracterizada como EPI.
Utilizada principalmente para intubar pacientes com Síndrome
Respiratória Aguda Grave (Srag), a roupa “de astronauta” é essencial
para proteger os profissionais de partículas aerossóis que podem ser
produzidas ao abrir a traquéia do paciente durante o procedimento de
intubação.
Aerossóis são aquelas partículas tão finas que ficam suspensas no ar e, por isso, são as principais transmissoras do Sars-Cov-2.
Para a segurança dos médicos, o EPI deve ser composto por duas
máscaras, uma delas a N95, luvas, óculos de proteção, avental
impermeabilizante, sapatos descartáveis ou esterilizáveis e um capacete
parecido com uma viseira transparente.
Após a intubação de um paciente, todo o EPI deve ser
descartado ou esterilizado. “Tudo isso é para um paciente. Imagina isso
para 500 pessoas. A gente não tem material para tudo isso, e isso gera
uma complicação muito grande. As pessoas que precisam de suporte
ventilatório são as que vão superlotar os hospitais”, analisa o médico.
Ele continua: “Se a gente não tem material, das duas
uma: ou a gente vai se infectar, eu vou intubar um paciente e sair da
linha de frente porque estou infectado; ou eu vou me recusar. Isso, para
mim, é uma coisa inconcebível. Eu ter que pensar em recusar intubar a
pessoa porque eu não tenho material adequado. Porque eu sei que, se eu
for intubar, eu vou pegar. Com 100% de certeza.”
“Vemos nos vídeos da Itália, por exemplo, profissionais
altamente paramentados e mesmo assim indo a óbito”, completa o médico
de Amontada. “Imagina aqui, um País de proporção continental, com uma
população que não está seguindo as orientações como deveria, que lida
com sucateamento do SUS e hospitais privados limitados com leitos já
saturados em alguns casos e ainda com profissionais expostos à linha de
frente sem os recursos necessários para enfrentar o vírus.”
Na última quarta, 18 de março, o Sindmedce afirmou, em
nota, ter enviado às secretarias estadual e municipal de Saúde, além do
Ministério Público do Estado (MPCE), um documento pedindo medidas
urgentes para “garantir a proteção de médicos, demais profissionais que
atuam nas unidades de saúde e pacientes”.
No documento, o sindicato pede a garantia de
fornecimento de EPIs, treinamento “adequado e extensivo” quanto à
correta utilização e descarte dos equipamentos, a salvaguarda de
profissionais de saúde que compõem grupos de risco, garantia à
imunização contra o influenza e outras demandas.
DESINFORMAÇÃO TAMBÉM AMEAÇA OS PROFISSIONAIS DE SAÚDE
Outro fator que preocupa o médico é a desinformação
da população. “A gente sofre com a desinformação da população. Apesar
de a gente ter as mídias e os meios de comunicação, eles preferem
acreditar no WhatsApp”, comenta.
Segundo ele, a sociedade segue contrariando as medidas
de isolamento social. Outro médico, atuante em Amontada, descreve que
muitas pessoas estão ignorando a quarentena e “achando que são férias”.
Além disso, o desabastecimento de máscaras e álcool em gel
em farmácias e lojas de equipamentos médicos também se dá pela falta de
informação do público. Com o primeiro surto de Sars-Cov-2, ainda fora
do Brasil, muitas pessoas fizeram estoques de álcool em gel e máscaras
em casa.
A Organização Mundial da Saúde (OMS), no entanto,
recomenda que apenas pessoas que apresentem sintomas e profissionais de
saúde utilizem máscaras de proteção. A máscara é, em geral, ineficiente
contra a Covid-19 e não é produzida em larga escala por muitos países, o
que favorece o desabastecimento.o Povo