O livro “água-ventre” começa a nascer em 2021, em meio à pandemia de covid-19. “Água-ventre não se define dentro de um gênero literário: não é poesia, não é conto ou romance. É, antes, um gesto artístico com a palavra. Aqui, as histórias são atravessadas por mulheres que passaram pela minha vida, algumas de forma direta, outras como ecos e silêncios. Mulheres contadas na voz de outras mulheres. Eu vou mesclando, quase sem perceber, o que foi vivido e o que foi inventado. E é assim, no meio do processo, que as fronteiras começam a se dissolver”, conta Zulmira.
Antes de ser livro, água-ventre nasce como exposição de arte. A primeira mostra do projeto foi em Salvador, Bahia, em novembro de 2025, n’A Galeria. Com curadoria de Lia Krucken, a exposição explorou o espaço como um livro aberto, pensando em outros formatos para contar histórias.
O processo
Em 2021, durante a pandemia, Zulmira, sua prima Héllen, e a mãe Cícera Alves (que assina a maioria das fotos), fizeram uma série de fotografias usando o celular. Os registros foram no Sítio Urucum, Distrito de Santa Fé, em Crato, lugar de origem da família. Naquele momento, a ideia era produzir um trabalho chamado de Placenta. Desde então tem feito trabalhos na arte e na literatura que pensam o território.
Na mesma época, uma tia veio de São Paulo enterrar o cordão umbilical de um primo no sítio. Um costume popular e cultural antigo no Brasil, especialmente no Nordeste e em regiões rurais. Isso provocou novas reflexões sobre o corpo, o território, a ancestralidade e os vínculos familiares, levando a autora a aprofundar essa investigação.
Outro momento importante foi um projeto realizado em parceria com Ezequiel Tuxá, incentivado por um edital de Tessituras da Escola de Belas Artes durante a pandemia. Enquanto ele estava em território indígena, em Ibotirama, Zulmira estava na Chapada do Araripe. Os dois desenvolveram um projeto artístico Ponto de Encontro por meio da troca de e-mails sobre seus respectivos territórios.
A história familiar de Zulmira, especialmente a partir da figura de sua bisavó Maria, conhecida como uma das parteiras do sítio e responsável pelo nascimento de diversos integrantes da família, foi a principal fonte de vida para água-ventre. A investigação levou à identificação de diferentes Marias e ao retorno a histórias familiares que já apareciam, de diferentes formas, em trabalhos anteriores da autora, incluindo As Cartas de Maria. Histórias atravessadas por relações de gênero, violência, ausência e segredos.
Lançamentos:
10/11 - EEIEF Professora Pureza Teles - distrito de Monte Alverne, zona rural do município de Crato, 14h, aberto ao público.
Apesar da circulação por outros territórios, o lugar de origem permanece como referência para Zulmira. Seja através do lançamento de livros, da realização de oficinas ou do desenvolvimento de outros projetos, esse vínculo se manifesta na atuação como designer e escritora não como uma iniciativa isolada, mas como parte de um movimento contínuo de aproximação, troca e compartilhamento com a comunidade. A primeira ação de lançamento é na escola onde sua mãe Cícera atua há mais de dez anos, e onde também a própria Zulmira nutriu um vínculo de afeto e memória.
13/11, 17h - Centro Cultural do Cariri - Bosque, com mediação de Jaque Rodrigues.
A autora
Zulmira Correia é escritora, designer, artista e pesquisadora. Foi vencedora do V Prêmio Cepe Nacional de Literatura, da Companhia Editora de Pernambuco, na categoria poesia, com o livro de estreia As cartas de Maria, em 2020. Autora de Abissal, pela Editora Patuá (poesia, 2023), e a duração entre um fósforo e outro (poesia, 2024), vencedor do Tato Literário, 1º Prêmio com.tato de Literatura Independente. Também organizou e editou os livros Inventário poético multilinguagens (2021), Mapas Imaginários (2024), Umbigo (2025), Grafias femininas de um Cariri - De qual Cariri falamos? (2026) pela editora respo, autoral.
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