
Produtos provenientes da agricultura familiar, distribuídos pela Cooperativa Agroindustrial Sul Cearense. | Foto: Nathalie Fernandes/ M1
Bruna Santos e Nathalie Fernandes
O cheiro verde que dá sabor aos pratos coloridos servidos a mais de 250 pessoas por dia em Juazeiro do Norte nasceu no Sítio Romualdo, no Crato, a mais de 20 km dali. Antes de virar tempero, foi folha cuidada pelas mãos de Edília Sabino, 52 anos, agricultora familiar.
Ela aprendeu a lidar com a terra ainda criança, aos 13 anos. Hoje, sabe o tempo de plantar e de colher. Sabe também que a manga, o cheiro verde, a banana e outros alimentos que produz, tem como destino final o restaurante do Serviço Social do Comércio (Sesc) de Juazeiro do Norte, e que o trabalho dela corresponde a uma parcela significativa dos mantimentos que chegam aos brasileiros.

Edília Sabino, agricultora. | Foto: Arquivo Pessoal
Não só o dela, mas o de todos os agricultores credenciados na Cooperativa Agroindustrial Sul Cearense (Coopersul), que atende os municípios da região do Cariri. No entanto, a rota que sai da terra em que esses trabalhadores vivem até o prato de alguém, nem sempre é certa, e o retorno financeiro, muito menos.
Por muito tempo, a agricultora voltava com os caixotes cheios da Central de Abastecimento do Ceará – Unidade Regional do Cariri (Ceasa Cariri), por não conseguir vender todos os produtos. Nem sempre o percurso do chão ao prato era finalizado.
Mas, a rota dos alimentos, da terra à mesa, começou a se completar com mais segurança no Cariri e Ceará. O trajeto, no entanto, é novo e até 2023, não existia, nem para Edília, nem para os demais agricultores do estado.
Entendendo a necessidade de valorizar a produção agrícola e movimentar a economia, o Sistema Fecomércio Ceará lançou, em 2023, o Projeto de Aquisição de Gêneros Através do Credenciamento de Cooperativas da Agricultura Familiar. O programa começou com 13 cooperativas de todo o estado e, em 2026, já conta com 26, beneficiando mais de 4,5 mil famílias cearenses que vivem da produção agrícola.
O projeto funciona da seguinte forma: a entidade compra produtos da agricultura familiar para abastecer suas unidades e restaurantes. As aquisições são feitas por meio de cooperativas que atuam nos setores da agricultura, pecuária, piscicultura e carcinicultura, em diferentes regiões do estado.

Agricultor da cooperativa Agroindustrial Sul Cearense. | Foto: Reprodução/Coopersul
A diretora administrativa do Sistema Fecomércio, Marlea Nobre, explica ao Portal M1 que a iniciativa surgiu após o presidente do sistema, à época, relatar que havia muitas reclamações de restaurantes, nutricionistas e unidades que não recebiam os produtos devido à falta de organização e à irregularidade nas entregas dos fornecedores.
“E aí a gente foi estudar e a gente viu que eu não podia fazer uma licitação só limitando o Ceará. Porque eu ia ferir a competitividade, porém eu poderia credenciar. Então o que é que a gente fez? Junto com o pessoal do desenvolvimento comunitário do Sesc e do Senac, junto com eles, nós mapeamos cooperativas aqui no estado, e começamos a ter reunião com essas cooperativas”, afirma.
A partir de um trabalho coletivo com as cooperativas, foi elaborado o edital de credenciamento para selecionar organizações que atuassem nas respectivas regiões e estivessem regularizadas para iniciar os trabalhos.
“E um dos elementos que ficou importante nesse edital foi que a gente com a nossa equipe do desenvolvimento comunitário ia visitar as cooperativas que tentassem se submeter ao edital para saber se era uma verdadeira cooperativa. Porque às vezes existe sim uma falsa cooperativa, uma cooperativa não regulamentada ou às vezes um empresário que tenta parecer que é uma cooperativa”, disse.
Com base em um estudo de mercado e na escuta dos representantes das unidades cearenses, o documento foi elaborado considerando as principais demandas por gêneros alimentícios.“Nós ouvimos as cooperativas, levantamos a nossa necessidade, fizemos a cotação e encontramos uma metodologia que era uma visita técnica”, explica.
Marlea também informou que as cooperativas recebem visitas técnicas, antes e pós credenciamento, para avaliar as condições de produção das famílias e das próprias organizações, além de contribuir para a melhoria do trabalho dos agricultores e da distribuição dos alimentos às instituições. Durante esse período, apenas três foram embargadas por descumprirem as regras do edital.

Visita técnica feita à cooperativa Santa Bárbara, em Caucaia, com o presidente Nonato Barbosa . | Foto: Reprodução/ copasbsantabarbara
Outra mudança foi a adaptação dos cardápios das unidades. O cardápio de Fortaleza é semelhante ao de Itapipoca, que, por sua vez, segue um padrão parecido com o das unidades do interior, como as de Sobral. De acordo com a diretora, essa padronização facilita a solicitação de produtos aos agricultores e contribui para a organização das cooperativas na distribuição dos alimentos.
Entre 2023 e setembro de 2026, R$ 74,26 milhões foram investidos nas cooperativas cearenses de agricultura familiar para abastecer as unidades do Sesc e do Senac em todo o Ceará, além dos restaurantes, clubes recreativos, cursos de gastronomia e empresas-escolas da instituição.
“Se esse dinheiro não estava circulando no estado, agora ele está. Se ele estava indo para licitantes de fora do Ceará, agora ele está só aqui”, complementa a diretora.
Além dos recursos financeiros, os alimentos produzidos pela agricultura familiar também circulam pelo estado. Um exemplo é a atuação da Coopersul. A organização distribui os produtos nas unidades da região, levando alimentos de cidades como Juazeiro do Norte, Barbalha, Nova Olinda e Crato para abastecer as cozinhas da instituição.
Da terra à mesa
Há uma rede que liga o sítio à cozinha, construída por muitas mãos. No início dela, estão os agricultores de produções distintas. Do outro lado, os equipamentos do Sesc e do Senac, cada um com sua demanda. O que liga os pontos dessa rota são as cooperativas, que reúnem o que cada agricultor produz, organizam a carga e fazem o alimento chegar às cozinhas do sistema.
Ao chegar ao ambiente de preparo, todos os alimentos passam pelo controle de qualidade, monitoramento da temperatura, pesagem e higienização. Na unidade de Juazeiro do Norte, são solicitados, em média, por semana, 60 quilos de tomate e acelga, 45 quilos de melancia e 40 quilos de abacaxi, além das polpas de fruta, que também entram no cardápio.


Produção das tomates na cozinha do Sesc, após o controle de qualidade para o almoço. | Foto: Nathalie Fernandes/M1
Segundo a nutricionista do Sesc Cariri, Germana Matos, o principal benefício de adquirir alimentos direto das cooperativas é a organicidade e o pouco ou nenhum uso de agrotóxicos.
“Com certeza esses produtos que são oriundos da agricultura familiar tem uma qualidade maior. A gente também, querendo ou não, fortalece esse empreendimento, por conta dos produtores locais, valorizando sempre o que a gente tem”, afirma.
A depender da região do estado onde é solicitado, as entregas são feitas pelas cooperativas de forma semanal ou quinzenal. “A gente procura sempre comprar coisas que a gente tem na região. Seja alface, acelga, são coisas bem regionais que a gente mesmo produz para garantir todo esse processo”, acrescenta a profissional.
Mas nada disso chega ao destino final, que é o consumidor das refeições do Sistema Fecomércio, por acaso. Antes do alimento, existe a terra. E a forma como ela é tratada é o que determina não só a qualidade do que se come, mas o futuro de quem planta.
Cuidado com o solo
Quando desenvolvida com práticas sustentáveis, a agricultura familiar promove uma relação mais equilibrada entre a produção de alimentos e a conservação ambiental. É o que explica o biólogo Laércio Moraes.
A utilização de estratégias como a diversificação e rotação de culturas, a implantação de sistemas agroflorestais, as práticas de conservação do solo, como plantio direto sem uso de queimadas e plantio em curvas de nível, o uso eficiente da água e a redução do uso de agrotóxicos podem contribuir para proteger os ecossistemas, preservar polinizadores, reduzir a erosão e manter a fertilidade do solo.
A adoção dessas medidas é estimulada dentro das cooperativas credenciadas ao projeto de aquisição. “O Sesc, a partir do momento que ele assumiu esse compromisso com a gente das cooperativas, nesse edital de compra direta, também teve essa questão da cobrança, dessa questão da sustentabilidade, da preocupação com o meio ambiente”, explica Nonato Barbosa, agricultor e presidente da Cooperativa Santa Bárbara, em Caucaia.
Na comunidade que ele representa, foi adquirido um biodigestor que gera gás para os produtores rurais e biofertilizante para a produção. “E isso não só melhorou a produção, como hoje e evita do pessoal de estar colocando o veneno nessas plantações”, diz.
No Cariri cearense, existem diversos conhecimentos tradicionais que contribuem para a conservação ambiental. Um deles, utilizado por Edília, é o manejo cuidadoso do solo e da água. Na prática, ela deixa o solo “descansar” durante um tempo para efetuar um novo plantio.

Processo de como funciona o projeto de aquisição direta dos alimentos da agricultura familiar. | Imagem: Bruna Santos/M1
O tempo depende de cada alimento. “O cheiro verde a gente planta direto. Por exemplo, a gente tira cinco fileiras hoje, aí amanhã já planta. Aí tira o final de semana. Agora a manga não. A manga a gente tem que esperar, porque é por período”, elucida Sabino.
Marlea Nobre ainda destaca que, com o fortalecimento da agricultura familiar no estado e a aquisição direta, reduz-se a emissão de gases do efeito estufa que antes eram gerados devido ao transporte dos insumos vindos de outros locais do país até o Ceará.
“Eu comprei e transportei aqui no meu estado para dentro do estado, então eu tive uma baixa emissão de gases de efeito estufa, eu tive a aquisição de um sistema alimentar regenerativo, porque é um sistema de produção de alimentos que cuida da solo, ele valoriza a ancestralidade, a fixação do homem do campo no campo, ele promove a sucessão rural e ele traz oportunidades”, reforça a diretora.
Para Laércio, o projeto pode contribuir para a sustentabilidade no Cariri, território que abriga parte da Chapada do Araripe, importante formação geológica que sido impactada nos últimos anos pelo modelo de produção em larga escala, pelo avanço do desmatamento e pelas queimadas.
“Essa iniciativa tem um importante potencial para integrar desenvolvimento econômico, inclusão social e conservação ambiental, fortalecendo a economia regional e a segurança alimentar, especialmente quando acompanhada de assistência técnica e critérios de sustentabilidade”, ressalta.
Desde 2023, o cuidado com o meio ambiente e a segurança financeira conquistadas com os editais, andam juntas. É o que mostram os números e as contas de quem produz.
Para além da economia
Mais do que incentivar a economia cearense, o projeto contribui para a estabilidade financeira e a melhoria da renda das famílias credenciadas. De acordo com Nonato Barbosa, uma das principais dificuldades enfrentadas pelos agricultores era a demora no pagamento pelos produtos. Outro desafio ocorria durante as férias escolares, quando as escolas suspendiam as compras, provocando uma queda nas vendas e instabilidade na renda dos produtores.
No Cariri, Edília Sabino, também relatou dificuldades para comercializar a produção antes de ingressar na iniciativa, em 2024. Na época, ela vendia os produtos na Ceasa, mas, em diversas ocasiões, voltava para casa sem conseguir vender os alimentos, alguns dos quais já começavam a se deteriorar.
Após ingressar no projeto, a agricultora afirmou que passou a ter mais estabilidade financeira e conseguiu ampliar a produção. Segundo ela, a garantia de um destino para os alimentos trouxe mais segurança para o trabalho no campo.
“O que incentivou mais a gente trabalhar foi porque antes a gente entregava e vendia no comércio. E muitas vezes voltava com aquele produto. Porque não vendia. E hoje não, hoje a gente já tem aquele amor de plantar, né? E trabalhar para que já tenha onde entregar”, disse.

Mais de 4 mil famílias que vivem do campo são beneficiadas. | Imagem: Bruna Santos/M1
Para Nonato, uma das principais mudanças proporcionadas foi o prazo para receber pelos produtos vendidos. Segundo ele, os pagamentos podem ser realizados em até 15 dias após a venda. De acordo com o presidente, atualmente, 60% da renda da cooperativa é proveniente do projeto.
“Às vezes a gente trabalha com prefeitura, trabalha com escola, é um mês, dois meses para eles pagarem e às vezes a prefeitura demora até mais, né? Então, o Sesc que ele trouxe essa estabilidade para o agricultor. O que melhorou na minha vida e na vida dos demais cooperados”, informa.
Na avaliação de Marlea Nobre, a melhoria da qualidade de vida das famílias também contribui para o fortalecimento dos municípios e para a valorização dos conhecimentos e das práticas tradicionais.
“Quando a família do campo ela melhora, todo município melhora, porque aumenta a circulação de riqueza naquele território. E aí você tem uma um fortalecimento do território, um fortalecimento e valorização da ancestralidade, você tem um enraizamento afetivo respeitado e incentivado em que aquele jovem se encanta por aquele projeto e acredita que vai dar certo”, explica.
Além dos benefícios financeiros, a iniciativa também tem possibilitado o acesso à formação educacional, com oportunidades para agricultores e familiares aprimorarem os conhecimentos e buscarem melhorias nos processos de produção.
“Através da Faculdade Senac, nós estamos tendo uma turma de jovens das mais de 20 cooperativas que estão se formando na área do cooperativismo. Então esse é o programa compra direta, que não é simplesmente comprar o que está sendo produzido, mas em construir uma ideia de compromisso”, diz Nonato.
Ele também relatou que os agricultores conseguiram adquirir veículos para transportar os produtos, sistemas de energia solar e equipamentos para a produção e a logística, como kits de pesca e balanças por meio do projeto.
Apesar dos avanços, ainda há necessidade de articulação entre os envolvidos para promover melhorias contínuas no funcionamento, nos editais e nas condições de produção das cooperativas.
Da revisão à escuta
Marlea Nobre explicou que os editais são revisados periodicamente para corrigir problemas identificados, incluir novos produtos e acompanhar a diversificação da produção das cooperativas. A adequação dos pedidos à capacidade de fornecimento de cada organização também é necessária para tornar as entregas viáveis, considerando a quantidade produzida, a distância percorrida e os custos de transporte.
Outro ponto destacado pela diretora é a articulação entre as cooperativas. A proposta é ampliar as compras coletivas de insumos e equipamentos, permitindo que organizações de diferentes regiões compartilhem custos e recursos. O Sistema Fecomércio também realiza reuniões trimestrais com os representantes para ouvir demandas e revisar os preços conforme as variações do mercado e a sazonalidade dos alimentos.
“Nesses encontros trimestrais, a gente ouve reclamação também. Como, por exemplo, ‘Poxa, doutora, uma nutricionista pediu um tomate? Aí eu não gente, pelo amor de Deus, nem na casa dela, ela compra um tomate. É óbvio que na cooperativa eu não posso pedir. Eu tenho que fazer um pedido que vale a pena para que ele [o agricultor] traga o caminhãozinho dele lá do município, da cooperativa, para cá”, explica.
Por meio da comunicação e entendimento das necessidades, vão se aprimorando os caminhos e os meios necessários para que o alimento consiga chegar à mesa de milhares de pessoas de forma segura e eficaz.
Um caminho que não termina na mesa
A rota é a mesma há meses. Do sítio à cooperativa, da cooperativa à cozinha, da cozinha ao prato. O que muda é a proporção que ela toma e, de acordo com Marlea Nobre, a expectativa é que o caminho chegue a novos pontos.

Salada produzida com os alimentos orgânicos do projeto. | Foto: Nathalie Fernandes/M1
Agricultores cearenses como Edília Sabino e Nonato Barbosa já sabem que o que sai de suas terras tem destino certo, e que o caminho até as cozinhas não depende mais da sorte ou de um período de compras em alta.
O cheiro verde que brotou no Sítio Romulado, interior do Ceará, já não é mais o fim de uma história, e sim o começo de um caminho que se repete, se aperfeiçoa e se multiplica.