
Estudos recentes da Fundação Getúlio Vargas (FGV) apontam que somente um data center de 100 Megawatts (MW) voltado para inteligência artificial mobiliza cerca de R$ 25 bilhões em investimentos e pode gerar aproximadamente 37,2 mil empregos (considerando vagas diretas, indiretas e induzidas), movimentando um volume de R$ 590 milhões em salários.
Esses novos investimentos vão intensificar a demanda de setores como o da energia, porém, segundo o membro da diretoria executiva do Sindicato das Indústrias de Energia e de Serviços do Setor Elétrico do Estado do Ceará (Sindienergia-CE), Adão Linhares Muniz, o que depender da geração desse recurso, o Ceará está preparado com folga para receber esse tipo de tecnologia. “O Ceará tem capacidade de geração renovável que pode chegar a 4,5 GW em plena produção, contra um consumo médio da ordem de 1,65 GW. Sobra energia”, afirma.
O diretor executivo observa que o gargalo está no escoamento dessa produção. Somente o projeto da Qair soma 150 MW na primeira fase e mais 415 MW na segunda. O empreendimento ligado à ByteDance opera em regime 24/7, com capacidade de cerca de 300 MW. Além disso, ele soma ainda o projeto da Voltalia, Tecto e os demais aprovados na ZPE. “Você chega a um bloco de carga que se aproxima ou supera o consumo médio atual do Estado inteiro. Não é um incremento marginal, é praticamente um segundo Ceará elétrico sendo criado em poucos anos e concentrado em um raio de dezenas de quilômetros”, explicou.
Para que esse escoamento ocorra de forma correta, Adão Linhares Muniz destaca que três coisas precisam andar em paralelo. A primeira tem haver com a transmissão. Segundo ele, deve ocorrer um reforço de rede e novas subestações no eixo Pecém–Caucaia–Fortaleza, com cronograma compatível com a entrada das cargas. O Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) já rejeitou pedidos de conexão de grande porte no país por risco de sobrecarga. Os projetos que hoje avançam no Ceará são justamente os que garantiram a viabilidade de conexão cedo”.
Outro ponto abordado pelo dirigente é o Armazenamento. Segundo ele, a lei estadual já criou a política para baterias (Lei Nº 19.849/2026), porém, o leilão de armazenamento é decisivo, porque é a bateria que une a intermitência da fonte com uma carga plana. Por último, Adão Linhares Muniz ressalta uma espécie de capacidade firme. “O sistema precisa de despachabilidade nas horas críticas, no fim da tarde, quando o sol se some e o vento pode cair. Isso vem da hidráulica, da térmica a gás e, no futuro, do armazenamento em escala”.
Em meio a todos esses desafios, o especialista aponta um dado que reflete um cenário de otimismo. De acordo com ele, parte dos empreendimentos está se estruturando com geração própria dedicada, como faz a Qair, que vai alimentar o data center com suas próprias plantas de energia renovável e isso reduzirá a pressão sobre a rede e antecipa investimento privado em geração.
Adão Linhares Muniz conclui destacando um ponto importante que é a preparação, planejamento. “É preciso que a Empresa de Pesquisa Energética (EPE) incorpore essas cargas ao Plano Decenal, que o Estado mantenha um mapa único de carga futura por subestação e que licenciamento, conexão e transmissão andem sincronizados. Se cada projeto for tratado isoladamente, o somatório vai bater no limite da rede antes que alguém perceba. O Ceará tem hoje a energia e a janela. O que precisa garantir é a infraestrutura que transforma uma na outra”.