
Entre promessas, curas e superação, as histórias compartilhadas por fiéis de Nossa Senhora da Assunção ajudam a entender por que a santa mobiliza fiéis desde 2003 pelas ruas da Capital. Por trás da multidão que percorre as vias da Cidade, existem devotos com histórias de fé sobre a padroeira de Fortaleza, celebrada neste sábado (15) durante a 24ª edição da Caminhada com Maria. No meio delas está a dona de casa Nereuda Moreira, de 67 anos, que participa da Caminhada com Maria desde as primeiras edições e diz que só deixou de ir uma vez.
“Eu perdi só um ano. Fiquei pensando: ‘Meu Deus, vou perder a graça’. Porque, quando você falta, parece que perde aquela força que mantém a gente de pé”, afirma. A devoção acompanha Nereuda desde a infância. Criada em uma família católica do interior, ela diz que cresceu entre missas e orações em casa. “Rezávamos todos os dias. Quando me casei, continuei frequentando a igreja. Nunca abandonei a fé”.
Choque elétrico
Foi durante um dos períodos mais difíceis da vida que a relação com a padroeira de Fortaleza ganhou um significado ainda mais profundo para a dona de casa. Em 1994, depois do nascimento do segundo filho, ela conta que começou a apresentar sintomas de depressão pós-parto. Em virtude de sua falta de conhecimento sobre o assunto na época, Nereuda explica que não entendia o que estava acontecendo. “Eu tinha 34 anos e não sabia o que era depressão. Sentia uma vontade estranha de conhecer a morte. Não era vontade de me matar. Era uma sensação que eu não conseguia explicar”, relembra.

Foto: Arquivo Pessoal
A dona de casa conta que se levantava durante a madrugada, saía do quarto e se sentava na sala para escrever cartas dirigidas à santa. Os textos funcionavam, segundo ela, como uma forma de desabafo além da oração. “Eu escrevia e guardava as cartas em casa. Era um jeito de conversar com ela”. Ela conta que estava amamentando o filho e decidiu desligar um ventilador. Ao tocar o aparelho, sofreu uma descarga elétrica. A lembrança daquele momento permanece viva em sua memória.
“Eu vi Nossa Senhora vindo na minha direção. Era como se ela estivesse correndo em câmera lenta. O manto voava. Foi uma coisa muito rápida, mas eu tenho certeza de que ela me salvou daquele choque.” Para Nereuda, a experiência representou a confirmação da presença da santa em sua vida. Apesar das dificuldades, ela afirma que nunca pensou em abandonar a religião. A experiência reforçou a importância da perseverança. “Quanto mais a gente está fraco, mais precisa de Deus. Se eu me afastar, eu me perco’’. A fé em Nossa Senhora mais as consultas no psiquiatra afastaram os pensamentos negativos, segundo a dona de casa, que afirma não ter mais sintomas de depressão desde então.
A maternidade e um sonho
A fé também transformou a vida de Márcia Bezerra. Aos 50 anos, sua história com a santa começa depois do casamento. A artesã e o marido desejavam construir uma família, mas o casal enfrentava dificuldades para engravidar. “Eu me sentia incapaz, era uma sensação estranha, de você querer e não conseguir’’. Apesar da frustração, ela relata que não recebia cobranças por parte do companheiro, mas enfrentava cobranças por parte de familiares. “Me sentia pressionada por meus familiares por não engravidar’’.
Com a autoestima afetada, Márcia relata que, em um determinado dia, decidiu ir até a Capela do Santíssimo e, diante da imagem de Nossa Senhora. “Eu disse que estava dando o meu ‘sim’ para a maternidade, assim como Maria tinha dado o ‘sim’ ao anjo Gabriel. Pedi que ela intercedesse por mim.” Após o episódio, Márcia afirma ter encontrado mais tranquilidade. “Fui me sentindo menos pressionada. Aquela sensação de vazio foi diminuindo.” Além da fé, ela também encontrou apoio dentro da própria comunidade religiosa. O padre da igreja a incentivava a manter a esperança. “Tenha fé. Você vai ser mãe na hora certa’, ele sempre dizia.”
Depois da oração, Márcia prometeu para si mesma que não faria mais exames para descobrir se estava grávida. Acreditava que a padroeira mostraria o momento certo. O milagre, segundo ela, aconteceu durante as novenas de Nossa Senhora Aparecida, em 2018. “Fui me sentindo diferente, o corpo, e tudo já estava acontecendo, já tinha sido concebido. Quando descobri, já estava com três meses e duas semanas de gestação. Assim que entrou na sala, o médico perguntou se ela estava grávida.
“Eu disse que não e contei minha história. Ele riu e disse que muitas mulheres chegavam ao consultório contando histórias parecidas e acabavam descobrindo que estavam grávidas’’. Após o exame de transvaginal, veio a confirmação. “Quando ele me mostrou o coraçãozinho batendo, foi uma alegria imensa. Era a realização de um sonho.”
Meses depois, nasceu o filho José Nathan, hoje com 8 anos. Hoje, ela afirma que o sentimento predominante é a gratidão. “Meu pedido sempre foi um só: ser mãe, como Maria foi mãe. E eu consegui. A artesã relembra a própria trajetória e deixa mensagem de incentivo para outras mulheres que enfrentam dificuldades semelhantes. “Eu digo apenas uma palavra: fé. Fé, fé e fé.”
Tradição por gerações
Além das missas celebradas durante este sábado, a 24ª Caminhada com Maria reúne fiéis em um percurso com orações, músicas e manifestações dos devotos. O evento é promovido pela Arquidiocese de Fortaleza. Para Nereuda, o evento representa um reencontro anual com a própria fé. A dona de casa diz que a idade já não a permite caminhar tanto, mas que já comprou um tênis novo para participar da peregrinação deste ano. “Eu choro de alegria quando vejo aquela multidão.”
O feriado dedicado à padroeira será celebrado com missas em diferentes igrejas de Fortaleza e com a 24ª edição da Caminhada com Maria. O trajeto tem início às 14h, no Santuário Nossa Senhora da Assunção, no bairro Vila Velha, e segue até a Igreja Santa Edwiges, no Jacarecanga, em um percurso de aproximadamente onze quilômetros. A caminhada deste ano tem como tema “Por Cristo, caminhamos com Maria nos 300 anos de Fortaleza”, em referência às comemorações do tricentenário da cidade, celebrado oficialmente em abril, mas com programação durante o ano de 2026.