
Uma operação denominada “Mensageiros do Crime” foi deflagrada nesta terça-feira (30) pelo Ministério Público do Ceará (MPCE) por meio do Grupo de Atuação Especial de Combate às Organizações Criminosas (Gaeco). A força-tarefa, que conta com a Polícia Civil e a Secretaria da Administração Penitenciária, busca desmantelar uma rede que usava o acesso de advogados aos presídios para transmitir ordens de chefias criminosas a integrantes da facção que estão nas ruas. A operação ocorre em Fortaleza, Aquiraz, Caucaia, Itaitinga, Maracanaú e São Gonçalo do Amarante, além do estado de São Paulo.
Ao todo, 29 ordens de prisão e 29 de busca e apreensão estão sendo executadas em uma operação contra o crime organizado. Até o momento, 17 líderes de facções, 15 deles já reclusos na Unidade Prisional de Segurança Máxima do Estado do Ceará (UP-Máxima) e 11 advogados foram detidos. A polícia busca, agora, uma advogada residente em São Paulo, atualmente considerada foragida.
As investigações do Ministério Público do Ceará (MPCE) tiveram início após autorização do Tribunal de Justiça, em novembro de 2025, para a captação de áudios e imagens nos parlatórios da unidade de segurança máxima do estado. O Promotor de Justiça e Coordenador do Grupo de Atuação Especial de Combate às Organizações Criminosas (Gaeco), promotor Oscar Stefano, explicou que as investigações começaram após o Ministério Público identificar um fluxo anormal de visitas diárias de advogados ao presídio de segurança máxima, muitos deles sem procuração nos autos. Segundo Stefano, enquanto familiares têm visitas restritas a cada 15 dias, a frequência de advogados tornou-se incompatível com a rotina da unidade. “Era algo absurdo diante da realidade do Ceará”, afirmou. O promotor ressaltou que a captação de áudio e vídeo respeita o sigilo profissional: a Secretaria da Administração Penitenciária (SAP) faz um filtro prévio, enviando à Vara de Execuções Penais apenas conversas com indícios de crimes. Somente após a análise da juíza corregedora é que o material é repassado ao MP para investigação.
“Diante disso, nós deslumbramos que em vários supostos atendimentos, o que de fato era feito era uma comunicação entre lideranças e subordinados, entre lideranças dentro do mesmo regime Prisão, né? Era feita cooptação de liderança, por exemplo, da massa carcerária para migrar para o comando vermelho. Então era isso que era feito. Foi isso que foi realizado. Então o que nós fizemos? Nós denunciamos os advogados que atuaram dessa maneira. São 12 advogados denunciados nessa primeira etapa da operação. 17 presos, 17 indivíduos de alta periculosidade, lideranças de organizações criminosas e o judiciário recebeu a denúncia e determinou essas medidas cautelares de visão preventiva e busca a apreensão desfavor dos desses elementos”, explica o promotor.
A primeira fase da operação contra o crime organizado no Ceará baseou-se em 36 relatórios de áudio e vídeo (os chamados raves) que revelam como parlatórios de unidades prisionais de segurança máxima foram transformados em centros de comando. Segundo Oscar Stefano, a investigação constatou que advogados passaram a atuar como elos fundamentais para a manutenção das atividades de facções criminosas. “Nós percebemos vários várias conversas, nós percebemos, por exemplo, uma advogada que não estava atendendo um cliente dela, ela foi mandada por outra liderança para cotar, para trazer liderança de facção rival para o comando vermelho”.
O monitoramento detalha o uso de linguagem cifrada para disfarçar ordens criminosas. Em um dos casos, uma advogada perguntou a um detento de alta periculosidade se ele “já havia pintado a casa”, “feito a mudança” ou “providenciado a matrícula das crianças em outra escola”. Conforme a apuração, os termos eram códigos para a migração do preso entre facções rivais. O Ministério Público confirmou que, logo após o atendimento, a liderança em questão mudou de facção.
“Nós percebemos linguagem cifrada em alguns momentos, é, a advogada, por exemplo, foi atender o preso de segurança máxima, um indivíduo de alta periculosidade e perguntou se ele já havia pintado a casa, se ele já havia feito a mudança, se ele já havia providenciado a matrícula das crianças em outra escola, se referindo a quê? Se referindo à mudança de facção. E depois do atendimento, de fato, nós verificamos que essa liderança mudou de facção. Então, foram várias ações articuladas. Nós percebemos também que alguns casos, os advogados faziam referência a outros, como pessoas que eram interpostas de lideranças e que poderiam ser conectadas, que poderiam ser contatadas para que o recado fosse dado”, destaca Oscar
Para o Ministério Público, a estrutura montada explica como indivíduos de altíssima periculosidade, mesmo reclusos em regime diferenciado, continuam ordenando crimes como tráfico de drogas, aquisição de armas e expansão territorial. Ao utilizar advogados como mensageiros ou “pessoas interpostas”, as lideranças garantem a comunicação com comparsas em liberdade. “Muitos desses profissionais passam a compactuar com o crime e a integrar as próprias organizações criminosas”, concluiu o promotor.
O Procurador-Geral de Justiça do Ceará, Herbet Santos enfatizou que a operação foi conduzida com rigor técnico, observando todos os princípios da legalidade e da constitucionalidade. Segundo o chefe do Ministério Público, o trabalho contou com a transparência do acompanhamento de representantes da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), que puderam verificar o cumprimento das ordens judiciais. Ele destacou que o combate ao crime organizado tem sido o foco principal de sua gestão, tratando o fenômeno como um desafio que exige uma resposta firme e incessante, dado o seu alcance nacional.
“Esse trabalho vem sendo realizado pelo Ministério Público com muito cuidado, com muita eficiência, mas acima de tudo com cumprimento da legalidade e da constitucionalidade. Tivemos aqui a presença de membros da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) que puderam acompanhar todos os detalhes e os seguimentos dos mandados. Gostaria de dizer que o Ministério Público vem focando seu trabalho no que diz respeito ao combate das organizações criminosas. Desde o início da nossa gestão. E aumentando de maneira firme e incessante o combate às organizações criminosas. Um problema que afeta todo o país”, afirmou o Procurador- Geral, Herbet Santos.
Além das prisões, a Justiça determinou o bloqueio de R$ 20 milhões vinculados aos alvos da investigação. O patrimônio apreendido inclui uma Range Rover blindada, pertencente a um dos líderes de facção capturados, além de joias e equipamentos eletrônicos, como celulares e computadores que serão periciados para buscar mais provas contra o grupo.