A indústria JA Calçados encerrou as atividades no município de Brejo Santo (na Região do Cariri, a 447 km de Fortaleza), culminando na demissão de 89 operários.
A unidade pertence ao Grupo Becker, do empresário Alexandre Becker, que entre o dia 23 de junho e o dia 22 de julho já desativou cinco plantas calçadistas em Pentecoste (no Vale do Curu, a 80 km de Fortaleza), resultando na dispensa de mais de 830 pessoas.
Em espaço de 35 dias, seis indústrias calçadistas encerraram operação no Ceará, com fechamento de 923 postos de trabalho.Conforme O POVO apurou, a JA Calçados deixou pendências trabalhistas. Os ex-funcionários cobram o pagamento de direitos como os dias trabalhados em julho e o Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS), alegando que não era recolhido há quatro anos.
A ex-costureira da empresa, Sabrina Bezerra, 25, relata que o grupo patronal dividiu os demitidos em dois lotes para o repasse parcelado das verbas rescisórias, mas os compromissos foram descumpridos. Apenas um dos grupos teria recebido a primeira parcela. Depois disso, a empresa interrompeu o contato com o Sindicato dos Sapateiros do Ceará."É tamanha a irresponsabilidade do dono da fábrica, que ele fez os colaboradores trabalharem o mês inteiro até chegar no fim do mês e ele simplesmente mandar todos embora, informando que indenizaria o aviso prévio de todos e o salário do mês seria pago junto com a rescisão."E continua: "A nossa parcela dos direitos é para o próximo dia 14, com possibilidade de não recebermos. Nós trabalhamos e fomos lesados. O pior é que o empresário nem pensou nos pais e mães de família que têm contas a pagar de alimentação, moradia e saúde", afirmou Sabrina.
O Sindicato dos Sapateiros conseguiu uma liminar para bloquear os recursos do grupo econômico e seus sócios, com objetivo de garantir o pagamento das verbas rescisórias. O pedido foi pelo bloqueio de R$ 1,5 milhão, que foi aceito pela justiça do trabalho.
"A gente não sabe se a empresa tem esse valor nas contas, mas a decisão deferiu de pronto que haja esse bloqueio. Nos próximos dias vamos ter acesso, por enquanto está tudo sobre sigilo, para saber se houve de fato o bloqueio", declarou o advogado do sindicato, Rafael Sales, em vídeo publicado nas redes sociais. E ele afirma ainda: "Se não (houve o bloqueio), vamos continuar ajuizando medidas executivas, tentando buscar um retorno para esses trabalhadores.
"Diferentemente das estruturas utilizadas em Pentecoste, instaladas em galpões do Governo do Estado, a unidade de Brejo Santo funcionava em parceria com a administração municipal, recebendo isenções e o custeio do aluguel do imóvel.Em nota à imprensa, a Prefeitura Municipal de Brejo Santo afirma que foi surpreendida com o encerramento das atividades do Grupo Becker.
"A referida empresa integrava a política pública municipal de fomento à industrialização, geração de empregos e atração de investimentos, tendo sido beneficiada por incentivos concedidos na forma da legislação municipal, dentre eles o custeio das despesas de locação do imóvel utilizado para o desenvolvimento de suas atividades, como forma de estimular a instalação e a permanência do empreendimento", diz a nota.
O município ainda disse que colocará a Procuradoria Jurídica e demais órgãos do poder municipal à disposição dos trabalhadores que necessitem de orientações jurídicas, além de repudiar qualquer prática de violação dos direitos trabalhistas.
Quando fechou as quatro primeiras unidades em Pentecoste, em 24 de junho, o empresário Alexandre Becker alegou que a situação financeira das indústrias se agravou após a pandemia de Covid-19.Outro fator lembrado foi o encerramento das atividades da Paquetá Calçados, companhia para a qual prestava serviços terceirizados.
"Chegou um momento em que a gente está passando por uma dificuldade econômica muito grande. Essa dificuldade impossibilita a gente de continuar", disse.Becker frisava que, apesar do fechamento de quatro fábricas, manteria os trabalhos na VS Sport, o que não se confirmou após menos de um mês.
Com o fim das atividades em Brejo Santo, o Ceará perde a sexta operação industrial em 35 dias, gerando o fechamento de 923 postos de trabalho.
O POVO apurou que a crise financeira vivida pelo empresário ia desde dívidas com o Governo do Estado pelo aluguel dos galpões e créditos tributários até pendências com marcas contratantes que eram as donas das máquinas da operação.Nas redes sociais, os funcionários que chegaram para trabalhar na quarta-feira, 22, flagraram o momento em que caminhões eram carregados com as máquinas da VS Sport.
No município, a empresa fabricava para marcas como a Nike e a Lacoste.O POVO entrou em contato com Alexandre Becker por meio de sua esposa, que informou que o empresário não voltará a se pronunciar sobre o encerramento da operação devido a motivos de saúde
Blog do Amaury Alencar o Povo