Enfermeira Fideralina Rodrigues ganha destaque nacional ao transformar prática em pesquisa sobre sífilis congênita

Blog do  Amaury Alencar
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Enfermeira e servidora pública Fideralina Rodrigues de Albuquerque vem conquistando reconhecimento nacional ao transformar sua atuação na saúde pública em uma pesquisa científica de impacto. Atualmente diretora da Escola de Saúde Pública de Iguatu, ela teve sua dissertação de mestrado destacada na Plataforma Sucupira e também foi tema de uma reportagem especial publicada pelo Instituto da Cultura Científica da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar).

O estudo, concluído em 2023 no Programa de Pós-Graduação em Gestão da Clínica, analisou uma experiência exitosa no enfrentamento à sífilis congênita no município de Iguatu — iniciativa que nasceu da prática profissional da própria pesquisadora, enquanto coordenadora da Atenção Primária à Saúde.

A relação com o serviço público começou há mais de uma década. “Minha caminhada na saúde pública começou em 2013, quando ingressei por concurso como enfermeira no município de Iguatu, onde sigo atuando até hoje”, relembra.

Com uma trajetória que alia compromisso social, gestão pública e produção científica, Fideralina que é natural de Acopiara se consolida como um dos nomes de destaque na saúde pública do interior nordestino, demonstrando como experiências locais podem gerar impacto e reconhecimento em nível nacional.

 

Realidade e mudança

Antes da implementação da estratégia, o cenário da sífilis no município acendia um alerta. Havia poucos registros da doença em gestantes e, em contrapartida, um número elevado de casos em recém-nascidos.

“O cenário apresentava incidência reduzida de sífilis gestacional e grande incidência de sífilis congênita, o que deveria ser o contrário, já que é uma doença de fácil diagnóstico e tratamento. O que faltava era monitoramento e sensibilização dos profissionais”, explica.

Na prática, um dos principais entraves estava na organização das informações. Dados de gestantes, pacientes diagnosticadas e crianças expostas à doença não eram sistematizados de forma eficiente, o que comprometia o acompanhamento. “Às vezes, uma mesma gestante precisava ser tratada novamente porque não havia registro oficial do primeiro atendimento”, destaca.

A partir disso, o município passou a adotar uma estratégia baseada na reorganização dos dados, ampliação da testagem e monitoramento contínuo dos casos. Um grupo de trabalho com profissionais de diferentes áreas foi criado para discutir mensalmente as situações e definir ações mais eficazes.

A mudança na prática trouxe resultados expressivos. “A gente diagnosticava cinco casos de sífilis congênita e quatro de sífilis gestacional por ano. Passamos a identificar cerca de 40 casos de sífilis gestacional e apenas um de congênita”, afirma.

O aumento dos casos em gestantes, segundo ela, é um indicativo positivo, pois representa diagnóstico precoce e possibilidade de tratamento antes da transmissão para o bebê. Em 2024, o município chegou a zerar os casos de sífilis congênita.

Reconhecimento

Os avanços renderam reconhecimento do Ministério da Saúde. Iguatu recebeu, em 2023, o Selo Prata de boas práticas rumo à erradicação da sífilis congênita, premiação que voltou a ser concedida nos anos seguintes.

Além da organização dos processos, a estratégia também exigiu atuação direta no território. “Muitas pacientes são usuárias de substâncias e não comparecem regularmente às consultas, então precisamos fazer busca ativa para garantir o acompanhamento”, relata.

A experiência, inicialmente construída em parceria com instituições como OPAS, Secretaria Estadual e Municipal de Saúde e a Universidade de Fortaleza (UNIFOR), acabou se transformando em objeto de pesquisa acadêmica.

“A pesquisa surgiu no meio dessa caminhada. Analisei o perfil epidemiológico antes e durante a implantação da política pública, transformando o trabalho em estudo científico”, explica.

O reconhecimento na Plataforma Sucupira representa um marco importante. “Significa que a pesquisa foi selecionada como uma produção relevante e de impacto dentro do programa. É como uma vitrine de excelência”, afirma. Para Fideralina, o destaque também tem um valor simbólico importante. “Sendo do interior e vindo de onde vim, da história que carrego, isso é imensurável”.

A publicação de uma reportagem especial de 11 páginas sobre sua trajetória pela UFSCar amplia ainda mais o alcance do trabalho. “É mais um reconhecimento da relevância da pesquisa e fortalece a necessidade de continuidade da política. Sem dúvidas, abre portas para o mundo”, destaca.

Mesmo após deixar a função na Atenção Primária, ela ressalta que o modelo segue sendo aplicado no município. “Uma política de saúde não pertence a uma pessoa, pertence às pessoas. O importante é que ela continue gerando resultados positivos para a população”.

Atualmente, além de dirigir a Escola de Saúde Pública de Iguatu, Fideralina também atua como docente no curso de Medicina da Estácio IDOMED Iguatu. Na área acadêmica, já desenvolveu projetos de extensão e iniciação científica voltados à temática da sífilis e projeta novos passos. “O próximo passo é o doutorado, em um programa que me permita continuar estudando essa temática”, conclui.

O que é sífilis?

A sífilis é uma infecção sexualmente transmissível (IST) causada pela bactéria Treponema pallidum. Ela pode ser transmitida por relação sexual desprotegida e também da mãe para o bebê durante a gestação — nesse caso, é chamada de sífilis congênita.

Quando não diagnosticada e tratada a tempo, a doença pode causar complicações graves, afetando órgãos como pele, ossos, fígado e sistema nervoso. Em gestantes, há risco de má-formação do feto, parto prematuro e até morte do bebê.

Apesar da gravidade, a sífilis tem diagnóstico simples e tratamento eficaz, disponível gratuitamente nas unidades básicas de saúde. Por isso, o pré-natal adequado é fundamental para identificar e tratar a doença precocemente.


                                                   Jornal a Praça 

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