Borboleta rara surge em área urbana e revela biodiversidade ainda presente em Iguatu

Blog do  Amaury Alencar
0

 


O registro de uma borboleta considerada rara em plena área urbana de Iguatu, no Centro-Sul do Ceará, reacende o debate sobre a relação entre crescimento da cidade e preservação ambiental. A espécie, identificada como Melanis caatingensis, foi fotografada pelo observador da natureza Alan Marcel em um local improvável: o estacionamento de um supermercado, onde antes existia um trecho de mata ciliar ligado à lagoa do Julião.

Descrita cientificamente há cerca de uma década — marco celebrado recentemente pela comunidade científica — a espécie ainda possui poucos registros documentados. O nome faz referência ao bioma Caatinga, onde foi identificada, com ocorrências registradas em regiões como Cabrobó, no Sertão de Pernambuco, e Brejo Santo, no Ceará. A raridade está associada justamente à sua descoberta recente, à distribuição limitada e ao número reduzido de observações confirmadas.

Segundo Alan, o reconhecimento da espécie aconteceu no momento do clique. “Suas marcações brancas nas asas escuras. Naquele momento já sabia que era uma espécie incomum”, relatou. A confirmação, no entanto, trouxe surpresa. “Foi totalmente inesperado. Já havia observado outra do mesmo gênero, mas não imaginava a quão rara era a Melanis em questão.”

O ambiente também chamou atenção. Diferente do padrão associado à espécie, geralmente ligada a áreas de mata ciliar e ambientes úmidos, o registro ocorreu em uma área urbanizada. Para o observador, o cenário reforça a memória ambiental da cidade. “Ali passou um riacho. O habitat da espécie é esse tipo de ambiente. Isso mostra que naquela região existiu uma diversidade muito grande, parte dela ainda desconhecida.”

O registro tem relevância científica por ampliar os pontos conhecidos de ocorrência da espécie e reforça a necessidade de monitoramento ambiental. “Mostra que ela ocorria em maior abundância. Com o avanço da cidade e a antropização, foi perdendo espaço”, afirmou.

Cidade entre lagoas e concreto

Conhecida historicamente pelas lagoas e áreas alagadas, Iguatu ainda preserva, segundo levantamentos de observadores, uma diversidade significativa de fauna. Dados reunidos por Alan indicam ao menos 578 espécies de lepidópteros — grupo que inclui borboletas e mariposas — e 196 espécies de aves já registradas no município.

“Apesar das falhas na urbanização, a cidade ainda tem uma fauna e flora muito interessantes”, disse. Ele atribui parte dessa diversidade à presença das lagoas. “É exatamente por elas que Iguatu se torna tão especial.”

Ao mesmo tempo, ele faz uma avaliação crítica sobre o processo de expansão urbana. “Da forma mais negativa possível. Muitos ambientes que deveriam ter sido preservados foram ocupados. Lagoas aterradas, riachos sufocados.” Segundo ele, a manutenção dessas áreas poderia influenciar diretamente no clima local.

Há oito anos, Alan Marcel percorre diferentes pontos de Iguatu registrando espécies. A atividade, que começou por curiosidade, se tornou uma contribuição contínua para o mapeamento da biodiversidade local. Ele mantém quase sete mil registros na plataforma iNaturalist, utilizada por pesquisadores e entusiastas para catalogação de espécies.

A rotina envolve observações noturnas, com uso de armadilhas luminosas para insetos, e saídas em fins de semana para registro de aves, especialmente em áreas próximas às lagoas e ao Rio Jaguaribe.

Entre os momentos mais marcantes, ele destaca o registro de aves em comportamento reprodutivo. “Tapicuru nidificando e tuiuiús no rio Jaguaribe foram experiências importantes”, contou.

O registro da Melanis caatingensis já foi compartilhado com pesquisadores e deve integrar publicações científicas sobre a fauna do Ceará. A repercussão, segundo Alan, foi positiva. “Foi de total alegria. Não é só mais um número. A espécie representa um ponto de resistência em meio ao concreto.”

Para ele, cada nova observação ajuda a compor um panorama mais amplo da biodiversidade regional. “É mais uma peça do quebra-cabeça da fauna cearense.”

O episódio, além do ineditismo do registro em área urbana, reforça um contraste presente em Iguatu: uma cidade marcada pela transformação de seus ambientes naturais, mas que ainda guarda sinais de uma biodiversidade ativa — muitas vezes pouco visível na paisagem cotidiana.

                                                     Jornal a Praça 

Postar um comentário

0Comentários
Postar um comentário (0)