Cariri: 90% das cidades da região ainda descartam resíduos em lixões e espaços inadequados

Blog do  Amaury Alencar
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O cenário do saneamento básico no Ceará apresenta um contraste entre o avanço das metas do Marco Legal e a realidade do interior. Dados do último relatório do Sistema Nacional de Informações sobre Saneamento (Sinisa), publicado em dezembro de 2025, revelam que 80% dos municípios cearenses ainda realizam a disposição inadequada de resíduos. Na região do Cariri, o índice de precariedade é ainda mais grave: 90% das cidades ainda dependem de lixões ou aterros controlados - uma categoria que, apesar de cobrir os resíduos com terra, ainda carece de sistemas de impermeabilização do solo e tratamento adequado dos gases.


O relatório, que consolida os dados de 2024, destaca que a universalização do manejo de resíduos é financeiramente insustentável para municípios isolados, especialmente os de pequeno porte. Este gargalo valida o modelo de gestão compartilhada adotado pelo Consórcio Intermunicipal de Gestão de Resíduos Sólidos da Região do Cariri (Comares Cariri) e a concessão da Regenera Cariri.

Para Ingrid Botelho, engenheira ambiental e gerente da Regenera Cariri, os números do Sinisa não são apenas estatísticas, mas um chamado à ação coordenada. "Os dados reforçam que o esforço isolado das prefeituras esbarra no alto custo operacional. A atuação da Regenera junto ao Comares e municípios permite uma gestão compartilhada que viabiliza o fechamento definitivo dos lixões. Estamos transformando um passivo ambiental histórico em uma operação profissional, garantindo proteção ao solo e ao lençol freático da nossa região", afirma a especialista.

*Realidade do Cariri*
De acordo com o relatório, dos 29 municípios que compõem a região, 20 ainda utilizam lixões, enquanto apenas dois contam com a estrutura adequada de aterros sanitários. Na Região Metropolitana do Cariri (RMC), das nove cidades que a integram, sete ainda fazem o descarte irregular em lixões e apenas uma utiliza aterro. Seis municípios da região do Cariri e um da RMC não informaram dados ao Sinisa, o que evidencia a necessidade de uma gestão profissional e integrada para tirar a região da invisibilidade estatística e do atraso ambiental.

O município do Crato, com 138 mil habitantes, reportou 100% de cobertura na coleta. Embora ainda constasse como usuário de "lixão" no sistema federal em 2024, a cidade viveu uma virada de chave histórica com o fechamento definitivo do lixão no final de agosto daquele ano. Com a operação adequada, o Crato deixará de enviar anualmente mais de 42 toneladas de lixo por ano para disposição inadequada, gerando um impacto ambiental positivo para a região.

Já Barbalha, segundo o Sinisa, foi a única cidade a reportar o encaminhamento dos resíduos para aterro sanitário em 2024. O município serve como referência operacional na região, enquanto vizinhos ainda buscam soluções para encerrar depósitos a céu aberto. Barbalha desativou o lixão em janeiro de 2023, após mais de duas décadas de funcionamento, tornando a cidade uma das pioneiras na região do Cariri a cumprir essa etapa da Política Nacional de Resíduos Sólidos (PNRS).

Em Caririaçu, embora os dados que constam no sistema federal indiquem que o município destina os resíduos para o lixão, as atividades foram encerradas oficialmente em abril de 2024. Desde então o município envia os resíduos para um aterro sanitário, localizado em Juazeiro do Norte.

*Ações integradas*

O caminho para pôr fim ao cenário de descarte incorreto de resíduos envolve diversas camadas de gestão e responsabilidades, desde o poder público, com a criação e garantia de cumprimento de políticas públicas e ações educacionais, até a população, com a mudança de hábitos e responsabilidades nos resíduos.

Nesse cenário entra a Regenera Cariri, que visa transformar gestão de resíduos sólidos em nove municípios da região que integram o Comares Cariri: Altaneira, Barbalha, Caririaçu, Crato, Farias Brito, Jardim, Missão Velha, Nova Olinda e Santana do Cariri.

Com um investimento de R$110 milhões em infraestruturas ao longo de 30 anos, o projeto possibilita a desativação de lixões a céu aberto, a implantação de unidades de triagem e tratamento mecânico, além de um aterro sanitário moderno e sustentável. A expectativa é que mais de 270 toneladas de resíduos gerados diariamente nas cidades consorciadas tenham destinação correta, reduzindo significativamente os impactos ambientais e os riscos à saúde pública.

A concessionária tem intensificado suas ações de educação ambiental e promoção social na região do Cariri, com foco na conscientização sobre o descarte correto de resíduos e seus impactos na vida dos caririenses. Isso demonstra o compromisso com a construção de cidades mais seguras e sustentáveis, onde a participação popular é essencial para promover mudanças duradouras. 

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