
Entre os bairros de Barra do Ceará e Pirambu, na zona oeste de Fortaleza, o Rio Ceará deixa de ser apenas um ponto de referência geográfica para se transformar em cenário de descobertas. Os passeios de barco que percorrem o estuário do rio vêm se consolidando como uma forma de turismo comunitário e cultural, revelando paisagens pouco conhecidas, histórias de resistência e uma rica biodiversidade no encontro do rio com o mar.
Os roteiros são guiados por moradores da região, como Albertinho, é ele quem conduz turistas, estudantes e pesquisadores pelo trajeto fluvial, oferecendo não só um passeio, mas uma verdadeira aula viva sobre o território.
“É um rio de muita história, que corta a cidade desde a serra até o mar. Mas também é um rio sofrido, por onde passaram as primeiras embarcações dos colonizadores e onde hoje ainda resistem comunidades que enfrentam a especulação imobiliária e o preconceito com a periferia”, afirma o guia.
Durante o percurso, que dura em média uma hora e meia, os visitantes têm contato com manguezais, bancos de areia, aves migratórias e construções históricas, como as ruínas da antiga alfândega, além de ouvirem relatos sobre a ocupação da região, os pescadores artesanais, as lutas sociais e os saberes populares.
A travessia acontece em maré baixa e sai da Barra do Ceará, passando por pontos como o manguezal,e as imediações da Vila do Mar. Em alguns momentos, é possível descer do barco e caminhar por trechos de areia firme, o que torna a experiência ainda mais sensorial e conectada ao lugar.
Os passeios são agendados com antecedência e atendem principalmente grupos escolares e instituições culturais. Mas a intenção, segundo os organizadores, é ampliar o acesso ao público em geral e fortalecer o ecoturismo na zona oeste da cidade, valorizando o protagonismo das comunidades locais.
“É um território muito rico e bonito, mas que ainda sofre com invisibilidade. O passeio é uma forma de contar a nossa versão da história e mostrar que há cultura, conhecimento e beleza aqui também”, ressalta Albertinho.
Albertu’s Restaurante
Ao final do trajeto, os visitantes são convidados a conhecer o Albertu’s Restaurante, instalado na casa onde Albertinho vive desde criança, no Pirambu. O espaço, que também funciona como galeria, centro cultural e ponto de apoio aos passeios, foi reconhecido como o primeiro Museu Orgânico de Fortaleza, em parceria com o Instituto Brasil de Dentro e o Museu da Pessoa.
Ali, objetos antigos, fotografias, brinquedos populares e pinturas de artistas da comunidade dividem espaço com mesas e cadeiras simples de onde se avista o rio. O cardápio é enxuto, com foco em frutos do mar e receitas caseiras, como moqueca, caranguejo e baião de dois. Mais do que um restaurante, o local é uma celebração da memória afetiva da Barra do Ceará.
“Esse espaço é minha casa, mas também é um lugar de encontro. É aqui que a gente conta nossas histórias, cozinha com afeto e recebe quem vem nos conhecer de verdade, sem filtros ou estereótipos”, diz o anfitrião Alberto de Souza, com orgulho.
O conceito de museu orgânico propõe que a cultura viva das pessoas e dos territórios pode ser, ela mesma, um acervo. A ideia surgiu a partir da valorização de mestres e mestras da cultura popular e já foi implantada em outros pontos do Ceará, como em Sobral e Aracati. No caso do Albertu’s, o museu nasce da relação entre os irmãos Alberto e Albertinho, sua casa e o rio — que atravessa sua vida e toda suas vivências.
“Tudo aqui tem um porquê. Cada objeto, cada imagem, cada história contada tem a ver com o rio, com a infância, com os sonhos que a gente carrega. E o mais bonito é ver que tem gente interessada em ouvir”, completa.
Além das visitas espontâneas, os passeios e o museu têm atraído escolas, universidades, coletivos culturais e turistas interessados em conhecer outra face de Fortaleza. O rio Ceará, que já foi via de transporte, fonte de alimento e símbolo de conexão entre comunidades, agora se afirma como lugar de aprendizado e resistência. Para Albertinho, ver o rio valorizado e respeitado é um sonho antigo: “A gente não quer só mostrar o bonito, mas fazer o povo entender que isso aqui tem história, tem vida, tem futuro. O rio é nosso parente”, afirma.
Por Priscila Sampaio