
No coração do bairro Mondubim, em Fortaleza, há um lugar onde a arte pulsa como memória viva do Ceará. O Minimuseu Firmeza, criado pelos artistas Nice e Estrigas em 1969, é mais do que um espaço de exposição: é um testemunho de resistência cultural, um centro de convivência comunitária e uma referência histórica para as artes visuais do Estado.
“Nice e Estrigas transformaram a casa onde viviam em museu ainda em vida. A proposta era viver cercado de arte e partilhar isso com a sociedade”, conta a historiadora e gestora do espaço, Paula Machado. “O Minimuseu foi aberto ao público naquele ano e desde então abriga um acervo que ajuda a contar a história da arte no Ceará.”
A coleção do museu reúne nomes fundamentais da cena artística cearense, como Aldemir Martins, Chico da Silva, Mário Barata e Raimundo Campos. As obras compõem um panorama da arte moderna e contemporânea no Estado, com ênfase em produções que dialogam com o território e com a sensibilidade popular. Além das obras, o Minimuseu guarda um acervo documental de grande valor, que tem sido utilizado como fonte de pesquisa em inúmeros trabalhos acadêmicos.
Décadas de história
Com mais de cinco décadas de existência, o museu é também um importante ponto de apoio cultural para os moradores do Parque Santana, comunidade do entorno. “O Minimuseu é aberto a todos, mas quem frequenta de forma mais constante é a própria vizinhança. Para muitas pessoas, é o único equipamento cultural acessível”, destaca Paula.
Mondubim
A relação com o bairro é construída com ações que ultrapassam as artes plásticas. Crianças e mulheres são o principal público das atividades realizadas no espaço, que incluem colônias de férias duas vezes por ano, ensaios da quadrilha infantil, oficinas de bordado, reuniões comunitárias e encontros promovidos em parceria com a igreja local e o posto de saúde. “É um espaço vivo, onde a cultura não é só contemplada, mas praticada”, resume a gestora.
Instalado em uma casa-museu, equipamento é referência na preservação da arte no Ceará e promove ações culturais com moradores do entorno, especialmente mulheres e crianças. Apesar da importância histórica e do papel social que cumpre, o Minimuseu enfrenta obstáculos que comprometem seu funcionamento e ampliam os riscos de invisibilização. O principal deles é a dificuldade de acesso.
Acesso ao museu
A expansão do VLT, com a construção de um muro em frente ao museu, reduziu significativamente a largura da rua, dificultando a entrada de veículos. A situação é agravada pela falta de pavimentação no entorno, um problema que se intensifica no período chuvoso. “Nos dias de chuva, é praticamente impossível chegar de carro. Com as obras particulares recentes, a situação piorou ainda mais”, relata Paula.
Hoje, o museu funciona com o apoio do Sesc, o que garante que as portas permaneçam abertas. No entanto, para que possa atuar de forma mais ampla e efetiva, a busca por novos parceiros e o fortalecimento de vínculos institucionais é fundamental. “O apoio do Sesc é essencial, mas insuficiente para o que o museu pode oferecer. A urbanização da rua e o reconhecimento mais amplo por parte do poder público são urgentes”, enfatiza.
Legado
O sonho, segundo Paula, é que o legado de Nice e Estrigas siga vivo por muito tempo, com condições adequadas para receber o público e preservar o acervo. “A casa em si já é uma obra. Tudo ali fala da história da arte cearense, de uma trajetória de dedicação, generosidade e amor à cultura. Não podemos deixar isso se apagar.”
Na tentativa de buscar soluções conjuntas, uma audiência pública está marcada para esta quarta-feira, 14 de maio, na Câmara Municipal de Fortaleza. O objetivo é reunir representantes do poder público, comunidade, pesquisadores, imprensa e sociedade civil para discutir formas de garantir o funcionamento efetivo do museu e melhorias no acesso ao local. A esperança é de que, a partir desse encontro, novas parcerias surjam para que o Minimuseu Firmeza continue sendo, no Mondubim, um farol de memória, arte e pertencimento.
Por Priscila Sampaio