A cada novo ciclo eleitoral, a cidade do Crato — historicamente rica em cultura,
pensamento crítico e participação popular —, torna-se palco de uma disputa
política desigual e repetitiva. Figuras externas, muitas vezes sem vínculos reais
com a população local, descem de paraquedas na disputa por vagas na
Assembleia Legislativa e na Câmara Federal, munidas de verbas generosas,
discursos prontos e acordos firmados nos bastidores do poder. São os
chamados “candidatos paraquedistas”, que aparecem durante o período
eleitoral e somem após o último voto contado.
Os interesses locais são frequentemente deixados de lado em nome de
alianças partidárias costuradas longe do Crato, por lideranças que enxergam o
município como curral eleitoral e não como uma comunidade com demandas
urgentes em áreas como saúde, educação, mobilidade urbana e
desenvolvimento sustentável.
Além da presença dos paraquedistas, outro fator compromete o avanço
democrático no Crato: a castração sistemática de novas lideranças políticas
locais. Muitos partidos comandados por chefes eleitorais — muitas vezes há
décadas no poder — seguem sob o controle de caciques eleitoreiros, que
impedem o surgimento de nomes autênticos e comprometidos com as pautas
populares. Jovens, mulheres, lideranças comunitárias e intelectuais com ideias
inovadoras são ignorados ou silenciados por estruturas partidárias
conservadoras que privilegiam o continuísmo e os conchavos.
Esse bloqueio institucionalizado cria um vácuo de renovação e impede a
construção de um projeto político enraizado nos anseios reais da população. A
cidade permanece refém de promessas ocas e mandatos distantes, sem
resultados práticos para sua população.
Mais do que nunca, é preciso repensar a forma como a política é feita no Crato.
A cidade necessita de representantes com raízes locais, que conheçam os
desafios enfrentados pelos cratenses e estejam comprometidos com um plano
de desenvolvimento que vá além do assistencialismo e dos interesses
pessoais. O futuro do município passa pela formação de uma nova geração de
lideranças políticas, capazes de romper com a lógica do clientelismo e da
dependência partidária, promovendo uma política transparente, participativa e
centrada no bem comum.
O Crato precisa de políticos, não de visitantes eleitorais. Precisa de projetos,
não de promessas. E, sobretudo, precisa de coragem para enfrentar os velhos
caciques e construir um novo caminho — feito por e para o povo cratense.
Francisco Leopoldo Martins Filho
Advogado
Membro Efetivo da Comissão Eleitoral da OAB/CE