
A crise no maior hospital da rede de assistência de Fortaleza, Instituto Doutor José Frota (IJF), ganha um novo capítulo para funcionários e pacientes que acompanham de dentro do hospital o momento atual que a unidade de saúde está enfrentando. Em depoimento ao O Estado, funcionários do hospital e acompanhantes de pacientes relatam que vivem um clima de insegurança sobre como os atendimentos devem ser realizados no período das festas de Natal e réveillon.
A unidade que é classificada como nível de atendimento terciário presta atendimento às vítimas de traumas de alta complexidade, lesões vasculares graves, queimaduras e intoxicações agudas, como aponta a Secretaria Municipal de Saúde (SMS), vem enfrentando desafios que impactam na qualidade do serviço prestado.
Atualmente, dos mais de 370 medicamentos que deveriam estar disponíveis para uso, faltam em torno de 250; bem como materiais para realização de cirurgias, como aponta o médico Edmar Fernandes, vice-presidente do Sindicato dos Médicos do Ceará (Simec).
“Nesses momentos de festas e férias naturalmente aumentam muito os acidentes graves. Como você vai atender esses pacientes se não tem uma equipe recebendo os pagamentos em dia, se não se tem medicamentos ou materiais para realizar cirurgias? As pessoas só estão se amontoando lá, muitos dos pacientes são tão graves que não tem como mandar para casa e precisam aguardar o hospital para realizar seus procedimentos”.
Funcionários que conversaram com a reportagem sem se identificar relatam que na situação atual o hospital não deve conseguir receber novos pacientes que já são esperados pela data.
“O fluxo do IJF funciona de acordo com o calendário. Vão acontecendo eventos e as equipes vão se preparando com planos de ação para tudo isso. Mas diante de tudo que está acontecendo hoje, nós não temos condições de fazer atendimentos nem nos dias comuns, imagina quando chega o fluxo das festas do fim de ano. O natal é um dos plantões mais difíceis que a gente tem”.
O temor dos funcionários da unidade é que os pacientes cheguem para ser atendidos e não consigam atendimento devido a crise de falta de insumos.
“Nosso principais pacientes nesta época são traumas, queimaduras, acidentes perfurocortantes ou com armas de fogo, então temos um número maior nos atendimentos. Pelo quadro atual de déficit de funcionários e insumos, acredito que não tem como dar conta dos pacientes que podem vir. Mas mesmo assim o hospital pega os pacientes e infelizmente vão se amontoando nos corredores. Como já visto nesses últimos dias, pacientes com quadros graves que precisam de medicação mais potente são levados somente com dipirona. Apesar do aumento no fluxo por conta do fim de ano é necessário apontar que essa falta de insumos básicos como ataduras, esparadrapo, álcool vem se arrastando desde as últimas semanas até agora”.
Os relatos também apontam que há um temor de sobrecarga dos profissionais por haver uma defasagem no quadro de funcionários e desvalorização do serviço prestado.
“Temos hoje uma política pública financeira bem defasada para o IJF. Outra preocupação nossa é a falta de mão de obra, o pagamento para horas extras, por exemplo, está muito desatualizado. Hoje nós temos pessoas aqui dentro que recebem R$180 por 12 horas de plantão. Muitas vezes a gente tira plantão extra mais para ajudar a equipe, por pena de deixar os pacientes sem assistência, do que para ganhar algum dinheiro. Muitas vezes um técnico de enfermagem fica com 15 ou 20 pacientes para dar conta em um plantão”.
A falta de assistência correta aos pacientes apontada pelos funcionários reflete também nos pacientes. Acompanhantes de vítimas de acidente de queimadura e trauma por queda de moto conversaram com a reportagem e contaram suas experiências.
“Estou acompanhando um familiar que realizou uma cirurgia no pé devido a uma queda de moto, eu não sou mais autorizado a ficar com ele pois me falaram que acompanhantes não podem mais ficar no hospital e acontecem coisas horríveis com o paciente. Meu familiar ficou oito dias sem tomar banho pois não tinha um técnico disponível para realizar o serviço”.
O outro acompanhante relata que presenciou uma situação de uma profissional se desculpando por precisar de um remédio mais indicado para a dor do paciente mas só tinha dipirona.
“Ela falou que o recomendado era outro medicamento, mas pediu desculpas e disse que ia dar dipirona pois era o único remédio que tinha”.
Os profissionais que conversaram com a equipe apontaram que a gestão municipal precisa dar suporte ao IJF com urgência, não só a prefeitura de Fortaleza mas também o governo do Estado do Ceará. O vice-presidente do Simec reforça a mesma opinião.
“O IJF é um dos maiores hospitais do Brasil e infelizmente por questão de gestão, infelizmente após o período eleitoral a gestão municipal passou a não ajudar mais o IJF. O governo do Estado também tem responsabilidade disso porque mais da metade dos pacientes do IJF são oriundos do interior do Ceará”.
A crise dentro da unidade hospitalar vem se arrastando desde o mês de setembro de 2024, quando funcionários apontam que os insumos que já eram poucos começaram a faltar e a alimentação dos profissionais, acompanhantes e pacientes começou a ser afetada. No último dia 12 de dezembro funcionários realizaram uma paralisação por falta de alimentação no hospital.
Após o ocorrido, a assessoria jurídica da empresa CRS Eventos e Serviços de Alimentos LTDA que presta serviços ao IJF, informou haver uma dívida de R$3 milhões no pagamento da prestação de serviços de alimentação aos pacientes e servidores. O Ministério Público do Ceará (MP-CE) cobrou, ainda na sexta-feira (13/12), que a Prefeitura de Fortaleza adotasse providências para regularizar um possível problema no fornecimento de alimentação a pacientes, acompanhantes, servidores e colaboradores do IJF.
Também na sexta-feira (13), o governador Elmano de Freitas anunciou que já estava liberado o aporte de R$9,6 milhões para o IJF que seria disponibilizado junto com R$ 9,5 milhões para Santa Casa de Fortaleza, um total de R$19,1 milhões. Já na quarta-feira (18) foi aprovado na Câmara Municipal de Fortaleza (CMFor) o projeto de Lei Orçamentária Anual (LOA) com orçamento de R$ 14,7 bilhões para 2025 no IJF.
A reportagem procurou a Secretaria Municipal de Saúde (SMS) que informou não ter disponibilização das informações da Unidade. A assessoria do IJF informou à reportagem que os insumos estão sendo racionalizados, mas que há medicamentos no hospital. Remédios para quadro de dor, são dados aos pacientes de acordo com o perfil do atendimento para cada caso.