Quase 30 mil crianças brasileiras ainda vivem em unidades de acolhimento

Blog do  Amaury Alencar
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 Hoje, 25 de maio, celebra-se o Dia Nacional da Adoção. Atualmente, no Brasil, 29.579 crianças estão em acolhimento, mesmo assim, apenas 4.808 processos de adoção estão em andamento. Ao olhar o número, não se imagina a quantidade de histórias diferentes que existem por trás das estatísticas. Jemima Pessoa, é professora e compartilha de uma história de superação que por acaso, ou por destino, se cruzou com uma pequena guerreira chamada Sofia.


As histórias aconteciam simultaneamente cerca de 5 anos atrás, quando Jemima, casada, sonhava em aumentar a família que já contava com o pequeno Calebe. “Eu sempre tive o pensamento que se um dia eu tivesse a oportunidade, eu adotaria. Mas, eu era jovem e solteira, o tempo passou, eu casei, tive um filho e essa porta nunca foi fechada”, relembra a professora. Ao passo que a vida foi acontecendo, o casal decidiu que era hora de aumentar a família, Jemima já tinha 38 anos e por isso, ela e o marido decidiram que iam deixar o destino agir. “A gente decidiu que ia entrar na fila e que eu ia tentar engravidar naturalmente também”, explica.

A vida, por sua vez, se ocupou de traçar outros caminhos e após um ano de espera, o casamento da professora chegou ao fim. “Então, aquela ideia de que seria o que desse certo primeiro, acabou se tornando só a adoção”. Agora, Jemima estava na fila sozinha e o sonho se perpetuou mesmo assim. “Eu mudei o perfil um pouco, quando eu estava casada, pensava em uma criança menor. Mas, depois que eu fiquei só, entendi que um bebê não seria bom porque eu não ia ter mais ajuda”, detalha.

Paralelamente, pelo pouco que se sabe, em uma realidade completamente diferente, a pequena Sofia vivia nas ruas. De acordo com a ONG Visão Mundial, atualmente, são 70 mil crianças em situação de rua em todo o Brasil, das quais 19% dormem com fome. O que se sabe, é que os parentes da menina já não tinham condições de acolhê-la e por isso, o destino da pequena estava fadado às dificuldades que as ruas geram para aqueles que dependem delas.
Um dia, Sofia foi levada ao abrigo Casa de Jeremias e, desde então, ela aguardava por uma nova oportunidade de ter uma vida melhor. Quando Sofia tinha 4 anos, essa oportunidade chegou. Coincidentemente, também completavam-se 4 anos desde a inscrição de Jemima no cadastro para a adoção.

“Eu já sabia como era ser mãe, mas eu gostaria de dar uma irmã pro meu filho e as coisas acabaram se encaixando de um jeito que acabou dando muito certo”, relembra a professora. Para ela, a maior dificuldade foi a demora. Quando foi chamada para conhecer sua filha, já havia se passado tanto tempo que a notícia foi uma grande surpresa. “Eu tinha ido trabalhar e recebi uma mensagem, coincidiu de ser durante a pandemia, eu achei que não haveria adoção na pandemia, achei que seria muito mais difícil”, conta. Jemima explica que durante a crise sanitária houve uma preocupação sobre não deixar os processos parados e fazê-los funcionar na medida do possível.

No dia de conhecer a pequena, a professora não sabia direito como se comportar. “Eu fiquei com um comportamento esquisito, fiquei sem saber o que fazer. É novo, a gente tem medo de dizer algo que não deve ser dito. Então, nos primeiros dias, eu tive uma mistura de medo e ansiedade, mas com o passar do tempo, eu fui me acostumando”, desabafa. Segundo ela, não demorou muito para a pequena começar a frequentar a sua futura casa. “Eu preferia ela na minha casa, na minha rotina do que eu lá [no abrigo], então, eu acho que o fato dela ter vindo pra cá facilitou o processo”, opina.

A união das duas trouxe novos desafios a serem superados. Os primeiros meses foram de intensos ensinamentos sobre rotinas, limites e regras. “Ela não tinha o costume de ter uma rotina, não tinha costume de sair. Ela tinha uma independência muito grande para a idade dela, isso me chamava muito a atenção. Completamos um ano juntas e ela se tornou uma criança mais paciente, que segue uma rotina e mudou perceptivelmente”, orgulha-se a mãe.
“Sofia”, vem do grego e significa “ciência” ou “sabedoria”, para Jemima, a filha faz jus ao nome. “As professoras elogiam ela na escola, dizem que ela não é uma criança que dá trabalho”, conta. A personalidade da menina é extremamente extrovertida. “Ela é tão mais carismática do que eu, chega e faz amizade com todo mundo. Ela se apresenta, fala com todos. A dificuldade de se enturmar com os outros, não existiu”.

A chegada de Sofia mudou a vida de toda a família, e o pequeno Calebe precisou de tempo para se acostumar com a ideia de ter uma irmã. “Quando a Sofia chegou, ele tinha ciúme. Dividir a minha atenção e a da babá era muito complicado para ele, hoje as coisas se acalmaram”, explica.

Para as futuras mamães, que pretendem adotar em uma casa onde já há outra criança, Jemima explica que é necessário ter a compreensão de que os obstáculos existem e que nem sempre vai ser fácil. “Nem tudo é um mar de rosas, você tem que saber resolver os conflitos, mas vale muito a pena”.

Para Jemima, adotar uma criança mais velha é bem diferente de adotar um bebê. “O bebê tem uma necessidade básica, já uma criança maior tem uma personalidade, diz o que quer e o que não quer, ela já come só, ela se arruma e passeamos. Porém, também tem que se saber lidar com uma história de vida anterior, que, muitas vezes, não tem nada a ver com o que você pratica na sua casa”, aconselha. “É como se você tivesse que começar do zero com uma criança grande. É mais fácil do ponto de vista do cuidado, mas quanto a lapidar dá mais trabalho”, afirma.

Atualmente, a professora já possui o processo de adoção consolidado e para ela, é uma experiência extremamente gratificante observar a evolução de Sofia. “É um sentimento muito prazeroso, uma criança que nunca tinha te visto começar a te amar e te chamar de mãe. Com o passar do tempo, a gente vai aprendendo a ser mãe de novo, de uma maneira diferente”, explica.

Para o futuro, Jemima quer que os seus dois filhos se formem no que os fizer feliz, que sejam independentes e realizados em todos os aspectos. “O que eu desejo para eles dois, é que sejam capazes de viver nesse mundo sem depender de ninguém, que não se limitem. Quando eu estiver velha, quero passear na casa deles e ficar revezando”, brinca a professora.

Faz pouco tempo, mas, para a família de Jemima, é como se Sofia sempre tivesse estado ali. “Ela já está tão entrelaçada que as coisas vão fluindo naturalmente”. Para a professora, o ato de adotar é uma aventura na qual você se dispõe a cuidar, a se doar e permitir se transformar e a recompensa por essa atitude é o amor. “Sofia é um sonho realizado, ela veio preencher o espaço que estava vazio. Veio preencher a lacuna que faltava”, emociona-se..

                      o Estado Ce 

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