O ex-vice-governador Domingos Filho, presidente estadual do PSD, vai estar na mesa de negociações da base governista para 2022 e deve ter força para garantir um espaço expressivo para o partido, que cresceu em representação no estado no último pleito municipal. Segundo ele, o PSD estará representado em candidatura majoritária no ano que vem, rejeitando a hipótese de se candidatar a deputado. Domingos Filho não vislumbra, no entanto, uma ruptura com o grupo do PDT caso seu nome não seja contemplado. Confira na entrevista que ele concedeu a O Estado:

O Estado. Um ponto que você costuma mencionar sobre o PSD no Ceará é a atenção às candidaturas femininas. Como foi pensado isso no partido?
Domingos Filho. Isso terminou sendo um grande desafio dos partidos, porque as mulheres, por serem mais comedidas, naturalmente mais dedicadas, elas terminam desanimando muito para entrar na vida pública em função dos maus exemplos que se tem disso. Temos estimulado muitas candidaturas femininas, mostrando que, se as pessoas de bem não estiverem na vida pública, vai ficar só o mau-caratismo. Então é com muita participação do PSD Mulher, com muito diálogo com o PSD Mulher nacional, que tem realmente contribuído muito nisso, que nós conseguimos estimular muito, tendo um número significativo de vereadoras, prefeitas e vice-prefeitas, e agora pré candidatas a deputadas estaduais e federais.
OE. O PSD cresceu bastante no Ceará em 2020, virou a segunda maior presença partidária nos municípios. Com o poder de negociação que isso dá a vocês, já sabe o que pretendem pleitear junto à base do governo para a eleição de 2022? Espaço na vice, talvez?
DF. Eu tenho repetido que partido que não tem projeto de poder não é partido, é uma reunião de pessoas. Então claro que o PSD também deseja ter seus quadros avaliados na sucessão e também somos da base do governo, temos tratado de questões muito claramente com o governador Camilo Santana, com o senador Cid Gomes, que são lideranças que coordenam o processo. Hoje uma questão que me parece muito clara é a candidatura do governador ao Senado, isso é unânime, a aceitação dele. Ainda restam de candidatura majoritária outros cargos.
E naturalmente, pela experiência das últimas quatro eleições do nosso projeto político nos interiores, nas duas eleições com o governo Cid e nas duas eleições com Camilo, todas as decisões foram tomadas às vésperas das convenções, porque o cenário só fica claro a essa altura. Essa questão só vai se resolver no momento adequado e, dentro do momento adequado, é claro que o nosso partido vai está sentado na mesa de negociações com seus nomes disponíveis para avaliação.
OE. Você tem se mostrado disposto a ter o próprio nome na chapa a governador. Caso as discussões não cheguem a esse acordo, avalia se lançar mesmo sem o PDT, disputando contra o candidato deles?
DF. Não vejo sinais nesse sentido, no cenário de hoje não vejo razões para mudanças. Eu diria que temos muito mais razões para pacto do que para desavenças, então não enxergo muito uma possibilidade da gente não sair juntos. Porque estamos juntos esse tempo todo, votamos duas vezes no Cid, eu tive o privilégio de ser seu vice-governador no segundo mandato, votamos duas vezes no Camilo, votamos duas vezes no prefeito Roberto Cláudio e votamos no prefeito Sarto, portanto temos aí uma relação longeva de muita parceria e todos os caminhos nos sinalizam para estarmos juntos. Não vejo sintoma de divergência.
OE. E nessa hipótese, avalia se lançar como candidato a deputado? Câmara ou Assembleia?
DF. O PSD nos colocou o desafio de candidatura majoritária. O PSD estará na candidatura majoritária.
OE. Outra discussão hoje na base governista é sobre a relação entre PT e PDT no Ceará. Pelo que você observa, acredita que há risco de rompimento?
DF. Acho que não haverá alteração, porque desafios já foram colocados em outras oportunidades. O que eu falo é que a conjuntura política estadual é diversa da nacional. Evidente que aqui tem um ponto a se ponderar a mais, porque temos um candidato a presidente da República que é cearense, que é o Ciro [Gomes], e ele não pode fazer uma pré-campanha olhando só para causas do Ceará, senão ele não era candidato a presidente, era candidato a governador.
Então claro que essa posição nacional precisa ser respeitada na história dele, e isso por vezes pode criar algumas dificuldades aqui. Mas acho que está bastante amadurecida essa parceria, já vamos para a quinta eleição de governador com ela firmada, o presidente Lula já tratou com Camilo que já foi dada toda a liberdade para ele conduzir esse processo. Evidente que pode ter altos e baixos até lá, mas o Camilo tem sua aptidão e fará com que, entre ele e Cid Gomes, pelo lado do PDT, possa se construir uma relação que possa ser mantida.
OE. Nacionalmente, o PSD vem apostando no nome do presidente do Senado, Rodrigo Pacheco, para ser candidato ao Planalto. O que você pensa da ideia de unir forças da chamada terceira via em torno de um só nome? E acha que isso seria possível em torno do nome do Pacheco?
DF. Os partidos de centro vão buscar caminhos, encontrar esforços para encontrar uma candidatura que unifique todos eles. Com essa ideia, todos os partidos naturalmente estão colocando os seus quadros que têm disponíveis. O Gilberto Kassab [presidente nacional do PSD] vem animando a candidatura do Rodrigo Pacheco por enxergar nele um perfil que possa reunir todos esses outros candidatos. Eu enxergo que essa condição de uma candidatura própria do nosso partido não impede a nossa relação ao local, porque estamos tratando de eleições em dois turnos e agora mesmo já temos o Lula candidato com apoio do Camilo, então assim, a eleição estadual tem sua própria lógica.
Não existe verticalização partidária, naturalmente que os partidos estão livres para apoiar os candidatos apoiando a conjuntura local. Eu enxergo que o Pacheco tem aí um grande perfil que possa harmonizar, é um jovem presidente do Senado, mineiro, tem tomado posições altaneiras na condição de presidente do Senado e presidente do Congresso, e enxergo também que, para que a gente tenha a possibilidade real de vencer, tem que também ter um candidato competitivo, que tenha apelo popular forte para chegar lá.
OE. Enquanto isso, o presidente Jair Bolsonaro, com popularidade em queda, tem dado sinais de que pode não disputar a reeleição. Acredita que ele não dispute ou enxerga uma recuperação?
DF. Palavra mente, movimento não mente. Os movimentos do presidente não são de quem não vai disputar, pelo contrário, são movimentos que denotam nitidamente que ele está entrando na campanha. O que poderia desanimar o presidente seria chegar lá, na proximidade das convenções, e ter absoluta certeza de que não tem chance, aí a eleição pode declinar. Eu pessoalmente não acredito nisso, acho que os movimentos que estão sendo feitos é de pleno combate político, então não tem sinal de que possa deixar o pleito.
OE. Como tem avaliado as propostas de mudanças eleitorais no Congresso?
DF. Concordo com o espaço obrigatório de mulheres, acho que tem que deixar vagas exclusivas para mulheres, para que efetivamente a gente possa ter uma participação no parlamento com representação popular compartilhada entre mulheres e homens.
Ou seja, vagas que só seriam preenchidas se forem para mulheres, e se não ficariam desocupadas. Eu discordo da volta da coligação partidária, eu acho que isso é um desserviço aos partidos. Nós já temos aí 37 partidos, você não vai ter solidez para o partido e, embora já tenha caído o distritão – que seria uma majoritária pura –, se voltam as coligações, os partidos que se organizam terminam sendo grandemente prejudicados. Eu discordo, acho que o modelo deve continuar o que foi inaugurado e acabou de ser experimentado, teve êxito na eleição a vereador, não há motivo para haver mudança. Eu sou sempre pelo fortalecimento partidário, que é um instrumento que expressa o que a democracia representa.
O ESTADO CE