O Cariri é conhecido por ser um importante polo econômico, devido à forte influência religiosa, cultural e sua crescente evidência nos setores do comércio e indústria. Entretanto, dados mostram que a região também é marcada pelo alto índice de violência contra a mulher que, no ano de 2020, sofreu um aumento de 220% e registrou 32 assassinatos de mulheres.
Também no último ano, o Ceará liderou o ranking de assassinatos de pessoas transexuais no país, junto ao estado de São Paulo. A Associação Nacional de Travestis e Transexuais do Brasil (Antra) contabilizou 175 mulheres transexuais assassinadas, a maioria sendo negras e em condições de vulnerabilidade socioeconômica.
Diante desse panorama, é notável que a pandemia contribuiu para o crescente cenário da violência de gênero, não só no Cariri, mas em todo o estado e em diversos países. Como principal medida de segurança para frear a propagação do novo Coronavírus, o isolamento social obrigou muitas mulheres a conviver mais tempo com seus agressores, o qual, em 51% das vezes, é um familiar, e em 38% é um parceiro, segundo uma pesquisa do Instituto Patrícia Galvão.
Além disso, o cenário econômico também pode ser apontado como uma das causas do aumento da violência contra a mulher. Segundo um estudo do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), sete milhões de mulheres ficaram desempregadas no Brasil nos primeiros meses da pandemia. Este fator, somado à suspensão do Auxílio Emergencial - por decisão do Governo Federal -, intensificou as situações de vulnerabilidades para famílias brasileiras que estão na linha da pobreza; destas, 63% são chefiadas por mulheres negras, sem cônjuges e com filhos de até 14 anos, e 40% por mulheres brancas, de acordo com um levantamento do IBGE de 2018.
Já o setor da saúde pública, amplamente sobrecarregado pela situação pandêmica, tem seus equipamentos - postos de saúde, centros especializados e de referências, hospitais, dentre outros - funcionando de forma precária, com a carência de planos municipais emergenciais de assistências e combate às violências e à pobreza.
Nesse contexto, o 8 de março não é uma data comercial, mas, sim, um dia de luta e reivindicações pelos direitos das mulheres desde sua criação. Oficializado em 1975 pela Organização das Nações Unidas (ONU), o Dia Internacional da Mulher foi proposto, em 1910, pela ativista e operária alemã Clara Zetkin, durante o II Congresso Internacional de Mulheres Socialistas, em Copenhague, capital da Dinamarca. A proposta de Zetkin era de que essa data fosse marcada, mundialmente, por mobilizações de mulheres da classe trabalhadora, as quais reivindicariam melhores condições de trabalho e direito ao voto.
Nos dias atuais, essa data é marcada por passeatas nas ruas de cidades em boa parte do mundo. A origem desta tradição não é certa, no entanto, uma das mais emblemáticas manifestações de mulheres em prol dos seus direitos ocorreu em 8 de março de 1917, na Rússia, e foi organizada por operárias do setor de tecelagem que entraram em greve e ocuparam as ruas de São Petersburgo, com cartazes que reivindicavam “igualdade, pão, paz e terra”.
8M Cariri 2021
O movimento de mulheres do Cariri atua com afinco durante todo o ano, com diversas mobilizações que preveem a manutenção dos direitos de meninas e mulheres. Em datas sazonais, como o 8 de março, 20 de novembro (Dia da Consciência Negra) e 25 de novembro (Dia Internacional de Combate à Violência contra a Mulher), as organizações representativas unem-se em manifestações públicas nas cidades caririenses.
No ano de 2021, contudo, a mobilização 8M Cariri ocorrerá através de uma campanha de arrecadação de alimentos, transmissões ao vivo, postagens em redes sociais, pois não haverá passeata nas ruas, devido à pandemia e os altos índices de ocupação dos leitos nos hospitais da região.
Também será realizado um ato simbólico em pontos estratégicos das cidades de Crato, Juazeiro do Norte e Barbalha, com o hasteamento de faixas e outdoors, contendo as reivindicações do movimento, a fim de informar à população sobre a luta das mulheres no Cariri.
Já a campanha de arrecadação de alimentos e produtos de limpeza contemplará famílias da região em situação de vulnerabilidade social. As doações poderão ser destinadas a endereços das três cidades do Crajubar: à sede do Grupo de Valorização Negra do Cariri (Grunec), na Rua Coronel Secundo, nº 287, próximo à Delegacia da Mulher, no centro do Crato; à Escola de Saberes de Barbalha, na Rua Senador Alencar, nº 368; e à sede da Quebrada Cultural, na Rua Dr. Francisco Monteiro, nº 447, bairro Triângulo, em Juazeiro do Norte. Os interessados também podem doar por depósito bancário ou on-line, pela ferramenta Pix e pelo link vaka.me/1848459.
Reivindicações no Cariri
O movimento 8M Cariri é composto por mais de 26 organizações que unem-se em manifesto, para clamar por melhores condições de vida para toda a população. Dentre as principais reivindicações deste ano estão as melhorias e continuidade dos serviços públicos do Sistema Único de Saúde (SUS) e a garantia dos direitos de seus servidores; a vacinação gratuita e imediata para toda população brasileira; mais investimentos no âmbito da ciência e da pesquisa; justiça por Marielle Franco e Anderson Gomes; o fim de todas as formas de violência - machismo, racismo, LGBTfobia, capacitismo etc; o apoio à produção de alimentos saudáveis, com fomento e crédito emergencial para a agricultura familiar e a derrubada dos vetos ao Projeto de Lei 735, que trata do abono a feirantes e agricultores impossibilitados de comercializar sua produção em decorrência da pandemia.
Com 14 milhões de desempregadas e desempregados no país - na maioria, mulheres (64%) -, a inflação no preço dos alimentos e a volta do Brasil ao Mapa da Fome da ONU, o movimento de mulheres do Cariri também exige a manutenção do valor de R$ 600,00 e sua permanência até o fim da pandemia. Além disso, o manifesto assinado pelas organizações mobilizadoras repudia, veementemente, as ações da ministra da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos, Damares Alves, ao tentar impedir o direito ao abortamento legal, em casos de violência sexual contra crianças e adolescentes, assegurado por lei no Artigo 128 do Código Penal brasileiro.
Para doar:
Depósito bancário: Banco Bradesco, Agência: 771-4, Conta Poupança: 1001746-7, Ana Verônica Barbosa Isidorio.
Chave Pix: (88) 99649-1718, Maria Alice.
Ponto de coleta (Crato): Grunec - R. Coronel Secundo, nº 287, próximo à Delegacia da Mulher, Centro;
Ponto de coleta (Barbalha): Escola de Saberes de Barbalha - R. Senador Alencar, nº 368, Centro;
Ponto de coleta (Juazeiro do Norte): Quebrada Cultural - R. Dr. Francisco Monteiro, nº 447, bairro Triângulo.