(crédito: Minervino Júnior/CB/D.A Press)
(crédito: Minervino Júnior/CB/D.A Press)

No Dia Mundial da Alimentação, celebrado nesta sexta-feira (16/10), há motivos para comemorar. O Prêmio Nobel da Paz reconheceu o programa mundial de alimentação da Organização das Nações Unidas, o que dá visibilidade ao tema e o coloca em uma agenda global. Luciana Quintão, fundadora e presidente da ONG Banco de Alimentos, alerta que a pandemia transformou a vida de todo o planeta. “A crise econômica aumentou catastroficamente os indicadores da fome ao redor do mundo. Porém, as limitações impostas pela covid-19, como o isolamento social, acarretaram muita reflexão. Queremos trazer ideias para nutrir nossa esperança de um futuro melhor para todos”, diz.

O Brasil voltou ao Mapa da Fome em 2018, do qual havia saído em 2014. A última pesquisa do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) revelou que 10,3 milhões de brasileiros vivem em situação de insegurança alimentar grave, dado que se agravou com a pandemia da covid-19. Embora o Brasil esteja no ranking dos 10 países que mais produzem alimentos, também está entre os 10 que mais os desperdiçam. Um terço da produção vai para o lixo, quantidade suficiente para atender às necessidades nutricionais de cerca de 11 milhões de pessoas e reduzir a fome para níveis inferiores a 5%.

O maior banco de alimentos da América Latina, o Mesa Brasil Sesc, que há 26 anos une os doadores a seis mil instituições assistenciais para levar alimento a famílias vulneráveis, contabiliza números positivos. Segundo a gerente de Assistência do Departamento Nacional do Sesc, Ana Cristina Barros, houve aumento de 30% nas doações de alimentos em todo o país, entre janeiro e agosto deste ano, em comparação com o mesmo período do ano passado.

O programa distribuiu mais de 33 milhões de quilos de alimentos em oito meses. Em agosto, esse aumento foi ainda maior: 53% a mais do que o mesmo mês em 2019. “Nosso objetivo é atacar o desperdício e, ao mesmo tempo, ajudar pessoas em situação de vulnerabilidade. Muitas vezes, os alimentos, por estarem fora do padrão de comercialização, iam parar no lixo, por ter um amassadinho ou estar maduro. Nós fizemos a logística de pegar onde sobra e levar aonde falta”, conta.


Como muitas instituições assistenciais, como creches, fecharam por conta da pandemia, a organização passou a atender as famílias diretamente. “Além disso, fizemos um trabalho de captação de recursos financeiros junto a organismos internacionais e pessoas físicas e, com isso, passamos a comprar cestas básicas para distribuir”, revela. “Houve uma mobilização para ação emergencial, mas, como essa situação social vai perdurar, porque os efeitos (da pandemia) vão se alongar, acredito que continuaremos esse trabalho de captação de parceiros”, aposta.

*Estagiário sob a supervisão de Andreia Castro


  • Mais de 10,3 milhões de brasileiros vivem em situação de insegurança alimentar grave
    Mais de 10,3 milhões de brasileiros vivem em situação de insegurança alimentar graveFoto: MINERVINO JUNIOR
  • Em agosto, aumento de arrecadação do programa foi de 53% a mais do que no mesmo mês de 2019
    Em agosto, aumento de arrecadação do programa foi de 53% a mais do que no mesmo mês de 2019Foto: MINERVINO JUNIOR

Atenção especial com os mais carentes

Supervisora do Mesa Brasil no Distrito Federal, Sandra Silva Carvalho diz que esse programa foi implementado na capital em 2003. “Orgulho-me em fazer parte (da iniciativa) porque as instituições chegam, aqui, e se emocionam por estar recebendo alimento”, conta. Segundo ela, embora os alimentos não cheguem às instituições em perfeito estado, o programa faz oficinas para ensinar como aproveitar melhor os legumes e as frutas”, ressalta.

Luiza Alves, coordenadora do Movimento Habitacional e Cidadania das Pessoas com Deficiência (MOHCIPED) e uma das beneficiadas pelo Mesa Brasil, diz que o foco, durante a pandemia, é atender os vulneráveis que estão acamados. Ela explica que a entidade tem por principal objetivo a restauração de cadeiras de rodas e faz um apelo: “Precisamos de doações. Há pessoas que não saem mais de casa porque não têm dinheiro para adquirir o equipamento”. Luiza acrescenta que a MOHCIPED disponibiliza refeição para quem precisa: “Os alimentos do Mesa, por exemplo, doamos e, também, usamos na instituição”.

Celma Pedro, presidente da ONG Vida, que trabalha com ações comunitárias e de atendimento a vulneráveis desde os 18 anos, atua há 17 em Sol Nascente, uma das comunidades mais carentes do DF. “Desde os 13 anos, eu via minha avó fazer trabalhos com famílias carentes, ela tinha um restaurante e nunca negava comida a quem precisava”, conta. Segundo ela, muitos moradores de Sol Nascente passam necessidade. Embora a ONG Vida possua 490 famílias cadastradas, nem sempre o número de doações é suficiente para atender a todos. “Precisamos de doações de comida, mas, também, de alimentos, roupas, calçados, brinquedos e fraldas geriátricas”, enumera. (SK e EHP*)

Aumento no desemprego
O Dia Mundial da Alimentação alerta para a premência dos esforços voltados à erradicação da fome no Brasil e no mundo. O problema tem alto risco de agravamento em decorrência do aumento do desemprego provocado pela crise da covid-19. Segundo o Banco Mundial, somente na América Latina 25 milhões de pessoas ficarão sem trabalho em 2020. Relatórios das Nações Unidas anteriores à pandemia indicavam que o número de pessoas subalimentadas no mundo era de 821 milhões, o que significa que um em cada nove habitantes do planeta passa fome. Na infância, os números são mais graves: quase 151 milhões de crianças menores de cinco anos estavam com atraso em seu crescimento devido à carência alimentar.

De acordo com Luiza Alves, foco durante a pandemia é atender os vulneráveis que estão acamados  


Correio Braziliense 

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