Moro desperta interesse de partidos, mas quer congelar discussão sobre candidatura
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personBlog do Amaury Alencar
maio 02, 2020
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Ao menos quatro partidos já se declaram de portas abertas para que Sergio Moro dispute a Presidência da República em 2022. Foto: Reprodução/YouTube
A decisão transmitida a aliados pelo ex-juiz e ex-ministro da
Justiça, no entanto, é por ora congelar esse debate. Colocar de pé neste
momento um projeto político, tem dito Moro, apenas daria munição para o
presidente Jair Bolsonaro (sem partido) no embate entre ambos.
A primeira legenda a oferecer filiação a Moro foi o Podemos, ainda no
ano passado. Naquele momento, a discussão não foi adiante porque o
ex-responsável pela Lava Jato queria manter sua imagem de ministro
técnico e acima das disputas políticas, à frente de uma das pastas mais
sensíveis da máquina federal.
Este sentimento de cautela se mantém, afirma o senador Alvaro Dias
(PR). “Não quero colaborar com os adversários dele, que certamente
utilizariam a simples especulação de uma filiação para acusá-lo de ter
deixado o governo apenas em razão de um projeto eleitoral”, afirma.
Defensor ferrenho da Lava Jato, Dias disputou a Presidência em 2018
e, já durante a campanha, disse que convidaria Moro para seu ministério,
caso eleito. Mas teve a ideia roubada por Bolsonaro.
Segundo o senador, nada mudou na posição do Podemos de sonhar com a
filiação de Moro, mas o mais sensato nesse momento é não tratar do
assunto. “Não é nem questão de descartar ou cogitar uma candidatura, mas
simplesmente de não falar no assunto”, afirmou.
No meio político, Moro já foi informalmente lançado à Presidência por
algumas figuras políticas desde que se demitiu na sexta-feira da semana
passada, acusando Bolsonaro de tentar controlar politicamente a Polícia
Federal.
A principal apoiadora deste projeto é a líder do PSL na Câmara, Joice
Hasselmann (SP). “Quero gritar aos quatro ventos em 2022: Moro
presidente!”, escreveu ela em seu perfil no Twitter.
Presidente nacional do partido, o deputado federal Luciano Bivar (PE)
diz que vê em Moro um autêntico representante da direita liberal,
condizente com o ideário do PSL. “O PSL hoje é um partido que não está
ligado ao centrão. É um partido que não é de esquerda, é um partido
liberal. E que preserva as instituições democráticas”, afirma Bivar.
Segundo ele, essas características fazem do partido uma opção natural
para o ex-juiz. O envolvimento do partido no escândalo das candidaturas
laranjas, revelado pela Folha de S.Paulo, não é algo que hoje preocupe,
diz Bivar. “Nós hoje temos um sistema de prestação de contas
cristalino, totalmente transparente”, afirma.
Ele também afirma que é preciso esperar o desenlace do embate do
ex-ministro com Bolsonaro para conversar sobre uma possível candidatura.
“Naturalmente, agora ele está num momento sabático, de meditação. Vir
nesse momento para o partido seria criar uma situação de afrontamento
contra o presidente. Qualquer injunção nossa agora seria inoportuna”,
declara.
Outra legenda aberta ao ex-juiz é o Patriota, com quem Bolsonaro
chegou a negociar filiação, antes de optar pelo PSL, em 2018. Adilson
Barroso, presidente nacional do partido, afirma que ainda não procurou
Moro desde que ele saiu do governo, mas que está aberto a isso
futuramente. “O Patriota é um partido que não está envolvido em nada
de roubalheira, está sempre limpo. Se Moro vai para um partido abutre,
automaticamente vai pesar no ombro dele os casos de corrupção no
partido”, afirma.
Fundador do Partido Novo, João Amoedo afirmou à reportagem que
“qualquer partido sério gostaria de ter Moro nos seus quadros”. Isso não
significaria necessariamente, segundo ele, que o ex-ministro seria o
candidato a presidente pela legenda.
O próprio Amoêdo, que disputou a eleição em 2018, é apontado como
presidenciável novamente em 2022. “Não há nenhum compromisso meu de ser
candidato. O partido vai decidir o que for melhor lá na frente.”
Podemos, PSL, Novo e Patriota (que incorporou o PRP) cumpriram a
cláusula de barreira na eleição e teriam direito a participar de debates
durante a campanha, o que poderia ser um chamariz para o ex-ministro,
caso opte pela disputa presidencial.
Moro já recebeu alguns apoios pontuais a uma candidatura
presidencial, como do ex-deputado federal tucano Xico Graziano, que
estava alinhado a Bolsonaro antes da crise.
Segundo Graziano, o ex-ministro pode representar uma terceira via
entre o presidente e a esquerda na próxima eleição. “Só há um vencedor
nesse episódio, Sergio Moro. Será ele o aglutinador da esperança
nacional contra a velha política”, escreveu.
O ex-juiz também recebeu diversos acenos de militares, embora nenhum
deles tenha dado apoio explícito a uma campanha presidencial.
Um exemplo eloquente veio do presidente do Clube Militar, general
Eduardo José Barbosa, que soltou uma nota em defesa do ex-ministro na
última sexta-feira (24). “Com certeza, [a saída de Moro é] uma vitória
dos que defendem a impunidade dos corruptos poderosos”, afirmou.
No Congresso, outro apoio relevante a Moro foi dado pelo deputado
Capitão Augusto (PL-SP), coordenador da Frente Parlamentar da Segurança
Pública, a “bancada da bala”. “Infelizmente o pronunciamento do
presidente Bolsonaro não reverteu o quadro péssimo após a saída de Moro,
talvez tenha piorado mais com os ataques”, escreveu ele, na
sexta-feira, após o discurso de resposta do presidente contra as
acusações do ex-ministro.
Augusto, no entanto, acha que Moro não deve pensar em ser candidato a presidente, por uma questão pessoal, e não política. “Moro
saiu extremamente fortalecido. Para que ele vai passar por isso, expor a
família dele a todo esse ódio? Eu se fosse ele me dedicava à vida
acadêmica daqui para a frente, que inclusive paga bem melhor”, disse o
deputado à reportagem.