
Não só na região, mas num cenário além das fronteiras estaduais, o preço da gasolina vem caindo constantemente. Sem consumidores nas bombas, o valor tende a ficar mais atrativo. Mas, atrativo para quem, se a ordem é não sair de casa?
Estamos enfrentando um fenômeno atípico na economia, uma pandemia, por meio do isolamento de pessoas e redução da atividade produtiva. Logo, a demanda por derivados de petróleo caiu ao passo que os estoques aumentaram. Se há uma produção de petróleo acima da demanda, o que não for consumido vira estoque. E foi justamente no momento de entrada da pandemia que o ditador árabe aumentou a produção numa briga de preços com a Rússia afetando os mercados, deixando os estoques lotados e sem capacidade de armazenagem suficiente para tanto petróleo.
Como resultado, o preço da estocagem aumentou enquanto o preço do barril de petróleo ficou abaixo do custo de estocagem. O impacto disso na economia é muito grande. As incertezas sobre quando passaremos por essa pandemia também são grandes e não se consegue ver uma melhora da economia, além do mais, não sabemos como será o mundo pós-crise. Essas incertezas somadas à redução da demanda de transportes nas ruas, aviões sem decolar, além da redução da atividade produtiva de derivados de petróleo geram perspectivas de mais queda no futuro.
Essa queda do preço do petróleo vai impactar diretamente os mercados, principalmente o Brasil. Partindo desse pressuposto, a tendência é que os preços ao consumidor baixem (como gás de cozinha, cosméticos, produtos de limpeza, gasolina, e toda cadeia de produtos que usam o petróleo como insumo de produção, como sintéticos e embalagens).
Vale lembrar que o Brasil é um produtor de petróleo bruto e importa os derivados de petróleo, como gasolina e diesel. Se levarmos em consideração a variação cambial, uma situação de valorização do dólar frente ao real (como está atualmente, 1 dólar igual a 5,53 Real brasileiro), para exportadores como a Petrobras, é mais conveniente vender, apesar de os lucros serem menores, porque na outra ponta a importação (comprar) se torna mais cara.
Diante disso, podemos pensar que, mesmo os barris de petróleo sendo vendidos a preços mínimos (abaixo de 16 US$), o Brasil vai negociar num cenário de dólar alto, o que encarece a compra. Assim, o câmbio desvalorizado tende a encarecer a nossa gasolina por conta dos altos custos com importação, por exemplo A gasolina tenderá a baixar de acordo com a queda do preço dos barris, mas por conta do câmbio, talvez esta queda não seja tão brusca/integral e duradoura no bolso do brasileiro. Lembrando que os fatores determinantes do preço da gasolina incluem além da taxa de câmbio e os custos para importar (como transporte e taxas portuárias), as cotações internacionais, além de margens de lucro.
Ainda não se sabe ao certo como os mercados reagirão a esta mudança brusca na economia, uma vez que os preços dos produtos hoje em dia estão ligados ao atual estágio da pandemia de coronavírus. Aqui no Brasil, o cenário político instável é um agravante e gera bastante incertezas no mercado e isso impacta diretamente no mercado cambial.
Sobre os preços dos combustíveis em baixa nos últimos dias nada mais é do que uma adequação dos donos de postos diante do desequilíbrio da velha lei da oferta e procura para não terem maiores prejuízos com a redução do consumo de combustíveis e deve ser corrigida.
Convém destacar que, a redução de preços dos combustíveis já vinha sendo praticada pela Petrobras com seus estoques (a Petrobras prevê a redução do preço médio dos combustíveis de 8% da gasolina e de 4% do diesel válidos desde o último dia 21 – este é o 11° ajuste feito pela estatal este ano), mas a redução feita é apenas para as distribuidoras, após isso, o preço é livre e os postos de gasolina podem optar ou não repassar os preços menores ao consumidor final (já que cada posto tem sua própria política de preços, que decorrem de impostos e custos operacionais e mão de obra).
A redução do preço do petróleo que foi anunciada no último dia 20 poderá ser vista no mês de maio. O comportamento dos preços de combustíveis aqui no Brasil vai depender de como a Petrobras vai manejar sua política de repasses (uma vez que o repasse ao consumidor depende de políticas comerciais de postos e distribuidoras, além dos impostos estaduais e federal). Se respeitada a política de paridade internacional, acredita-se que o preço da gasolina caia. De quanto será essa queda, é difícil precificar, principalmente porque tudo depende de como estará o cenário da economia internacional nos próximos dias.
Para os produtores de petróleo esse cenário é muito ruim, mas de outro lado representa uma redução de custos com energia barata para outros setores produtivos. A gasolina mais barata é ruim para a competitividade do etanol. Se o preço da gasolina baixar, a tendência é o preço do etanol cair já que a sua procura também cai. Para os consumidores, acredita-se que a redução do preço dos combustíveis não aconteça tão rapidamente, uma vez que esses repasses demoram a acontecer para o consumidor final (ainda mais considerando-se o atual cenário de quarentena e de incertezas deve demorar mais ainda).
O comportamento do mercado a essa mudança brusca precisa ser observado antes de qualquer tomada de posição por parte da Petrobras, até porque estamos enfrentando algo nunca previsto nas teorias econômicas tradicionais. Essa cotação do petróleo a esse patamar mínimo, pode acelerar a tendência de desinvestimentos e de cortes de custos e de produção em curto prazo, além disso, coloca a Petrobras numa situação bem delicada, uma vez que a companhia já vinha anunciando suspensão de investimentos e de custos para enfrentamento da crise.
Badalo