Cidade histórica no Cariri foi homenageada pela
Acadêmicos de Santa Cruz, da Série A do carnaval carioca. Foto: Diego
Mendes / Agência O Globo
Luciano Dias
O desfile da Acadêmicos de Santa Cruz, na Série A do carnaval
carioca, colocou a cearense Barbalha no mapa da Sapucaí e abriu caminho
para quem planeja conhecer um novo destino religioso, cultural e
ecológico. O enredo “Santa Cruz de Barbalha – Um conto popular no Cariri
Cearense” mostrou a cidade característica do Nordeste na arquitetura,
nas tradições, na cultura e na gastronomia, e singular na natureza
exuberante e nas festas religiosas. No mapa do Ceará, o município está a
531 quilômetros ao sul da capital Fortaleza.
A sinopse do roteiro turístico pode ser feita ao som do samba-enredo
da escola da Zona Oeste do Rio, escolhido o melhor da Série A pelo
Estandarte de Ouro, do Globo. O terceiro verso tinge de natureza a
fantasia do sertão de chão de barro e árido: “O verde admirava da
varanda”. Barbalha está no sopé da Floresta Nacional do Araripe. A área
de quase 39 mil hectares é um convite ao ecoturismo com trilhas bem
sinalizadas, nascentes, fauna e os biomas mata atlântica, cerrado e
caatinga.
O Balneário de Caldas e o Arajara Park são atrações nas cores da
mata. Comungam diversão, natureza e água, muita água fresca e límpida de
nascentes. O Balneário de Caldas é estância hidromineral com duas
fontes naturais, piscinas, bicas e cachoeira, além de quadras
esportivas, restaurantes, vestiários. Um “clubão” para se divertir com a
família.
O Arajara Park reúne Área de Proteção Ambiental, Reserva Particular
do Patrimônio e área de lazer em 76 hectares. Vizinho da Floresta do
Araripe, o parque é equipado com restaurante, piscinas, toboáguas e
brinquedos aquáticos com referência a dinossauros habitantes da região
há 110 milhões de anos. Os fósseis dos animais compõem importantes
sítios arqueológicos. A área também abriga sítios paleontológicos
significativos. Hoje, a espécie símbolo da cidade é o Soldadinho do
Araripe, pássaro de plumagem branca, vermelha e preta, só encontrado na
região e cantado assim pelos integrantes da Santa Cruz: “No Araripe o
soldadinho/Anuncia um novo dia”. A ave batiza uma charmosa pousada,
extensão do parque com chalés no estilo rústico e vista para mata.
Seguindo pelas estrofes, o samba nos leva a Juazeiro do Norte, a 64
quilômetros (uma hora e meia) do centro de Barbalha. “A bênção a Padim
Padi Ciço” pode ser pedida no santuário onde estão a estátua de Padre
Cícero Romão, com 27 metros de altura, e o museu dedicado ao religioso,
ou na Capela do Socorro, endereço do túmulo do padre.
A letra de Samir Trindade, Júnior Fionda, Elson Ramires e Rildo
Seixas lembra que o temido “Capitão Virgulino / Que se chamou Lampião” e
sua companheira “‘Maria Bunita’ da saia rendada” fizeram história ali.
Barbalha serviu de palco para o encontro do cangaceiro com Padre Cícero e
de esconderijo para o bando. Virgulino e Maria Bonita se refugiaram na
Pedra do Morcego, no Geossítio Riacho do Meio, ponto turístico a 15
quilômetros do centro da cidade, com trilhas ecológicas e fontes d’água.
A festa principal da cidade embala o primeiro refrão da composição e
impõe outro ritmo ao Cariri. “Oh moça solteira / Oh pau da bandeira iaiá
/ Oh moça solteira / Pede ao santo padroeiro um sinhô pra ser seu par’
resume a simbiose do sagrado com a cultura e o humano da Festa do Pau da
Bandeira de Santo Antônio. A comemoração atrai 600 mil pessoas na
primeira quinzena de junho. Turista de fé e viajantes solteiros
acompanham o cortejo e o hasteamento para conseguir tocar o pau da
bandeira e pedir uma graça ou um casamento.
A festa de 92 anos, patrimônio Cultural Brasileiro, concedido pelo
Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) é um
carnaval sagrado. É uma explosão de cultura com mais de 50 expressões.
Apresentações de grupo de folguedo, reisado de congo, reisado de couro
(integrantes usam máscaras de couro), dança do coco, grupo de vaqueiros,
grupo de capoeira, de violeiros, banda cabaçais, Folia de Reis e
quadrilhas juninas mantêm o corpo e o espírito em sintonia com as
comemorações. Um dos destaques é a missa regional. A liturgia existe com
as participações efetivas e afetivas de grupos folclóricos e de
cantadores de viola, e a oferenda de produtos típicos do município, como
rapadura, cana-de-açúcar, carne, macaxeira, queijo e outros.
A arquitetura do século XIX é um traço tão marcante quanto a festa
religiosa. A cultura da cana-de-açúcar, os senhores do engenho e seus
escravos cantados nos versos “Onde plantei o meu valor/ Colhi meus
ideais/ Vai ressoar o meu tambor/ A voz que ecoa dos canaviais” foram
importantes na economia e na construção da cidade. Sob a influência da
Igreja Católica, a cidade mais rica da região entre os séculos XVII e
XIX deixou construções como uma rica herança. No conjunto se destacam a
Igreja da Matriz de Santo Antônio, a Igreja do Rosário; e os prédio
histórico Maria Olímpia; Palácio 03 de Outubro, o Casarão Hotel e as
casas espalhadas pelo centro e erguidas no mesmo período. Barbalha é um
luxo só.
Serviço:
Pousada Soldadinho do Araripe
Diárias a partir de R$ 300. Sitio Farias e Santo Antonio, s/n, Zona Rural, Arajara, Barbalha. Tel. (88) 98140-3232.
Hotel Leon
Diárias de R$ 209 em apartamento duplo. Rua Projetada 60, Barbalha. Tel. (88) 3532-2571.
Arajara Park
Abre nos fins de semana. Ingresso a R$ 38. Sítio Farias e Santo Antônio, s/n Zona Rural, Arajara, Barbalha. Tel. (88) 3532-3232.
Balneário do Caldas
Ingressos a R$ 14. Estancia Mineral do Caldas 80, Barbalha. Tel. (88) 3532-9118.
“O Globo“