Ao menos dois prefeitos foram assassinados no Brasil em 16 dias. O empresário João Gregório Neto, conhecido como João do Povo, morto no último dia 24, véspera de natal, em Granjeiro-CE, e João Schwambach,
morto a tiros, na noite de 8 de janeiro, ao deixar a sede do Executivo
local, em Imbuia-SC. No caso do Ceará, a Secretaria da Segurança Pública
e Defesa Social (SSPDS), anunciou na última quinta-feira, 9, que o
atual prefeito do município, Ticiano Tomé, e seu pai, Vicente Félix de
Souza, são suspeitos de envolvimento. O crime levanta discussão a
respeito da violência no campo político Estadual.
O presidente da Associação dos Municípios do Estado do
Ceará (Aprece) e prefeito de Cedro, Nilson Diniz (PDT), diz que o
assassinato de João do Povo foi uma "surpresa". O gestor acredita que a
política surgiu como um canal para o debate democrático, que substitui
ataques do gênero e o uso da violência física. No caso de Granjeiro, a
Aprece fez uma solicitação direta ao governo do Estado, cobrando uma
resposta mais rápida. Segundo Diniz, o fato do crime ter ocorrido no
final do ano, entre o período de natal e ano novo, poderia afetar a
celeridade das investigações. "Sabíamos que nesse período de recesso é
como se o Brasil não funcionasse. Então, corremos junto ao governo para
reforçar a importância de se fazer as diligências rapidamente.
Felizmente as autoridades tiveram o mesmo pensamento e atuaram
prontamente", explica.
O gestor alega que o caso deixa uma "sensação ruim" na
política estadual, mas acredita tratar-se de um fato isolado e fora do
contexto geral. Ele avalia que as eleições de 2020 não devem ser
prejudicadas. "Acredito que seja algo mais local, talvez pela
proximidade dos membros. A convivência mais próxima pode fazer com que
as divergências tornem-se mais pessoais", afirma.
Sobre a relação entre prefeito e vice, Nilson acredita
que é importante que haja uma sintonia. Para ele, o caso de Granjeiro
não produzirá uma tensão capaz de mudar a dinâmica das relações
políticas no Estado.
"Nas conversas com os prefeitos não vi a
possibilidade de alguém repensar a escolha de um vice, por exemplo. O
que ocorre é uma preocupação com as próprias eleições, a maioria dos
prefeitos está orientando seus secretários e pessoal para não cometer
irregularidades ou gafes durante o ano eleitoral", finaliza.
A respeito da violência na política do Ceará, Monalisa
Soares, professora vinculada ao Laboratório de Estudos de Política,
Eleições e Mídias da Universidade Federal do Ceará (Lepem-UFC), ressalta
que o assassinato do prefeito de Granjeiro não é um caso inédito ou
incomum no interior do Estado. Para a pesquisadora, o crime deixa marcas
no município, mas não deve afetar o Estado.
"A dinâmica da política
municipal é diferente da estadual e da nacional. No interior, o uso de
violência na política torna-se mais comum porque, de certo modo, reflete
mais a dinâmica das disputas e relações interpessoais. A política local
não é de indivíduos, é de grupos", afirma, explicando que em nível
municipal, há regiões onde a influência dos partidos é menor do que a de
famílias tradicionais.
A professora explica que entre as décadas de 1960 e
1980, casos de pistolagem eram mais comuns e faziam parte da realidade
política local, mas que com o passar do tempo essa lógica arrefeceu.
Monalisa alerta que atualmente a violência no interior é menos tolerada e
pode gerar um ônus para os grupos envolvidos, afetando o julgamento da
população em períodos eleitorais.
"O povo se sente no direito de saber o
que aconteceu, porque está mais próximo daquele fato. A violência pode
distanciar a população do grupo político responsável e de seus aliados,
que também são postos em xeque", conclui. Sobre um possível retorno de
crimes como o ocorrido em Granjeiro, ela avalia que, por se tratar do
primeiro caso que reaparece, é preciso esperar antes de tratá-lo como
exceção.
o Povo