Em uma tarde de sábado, no dia 07 de janeiro de
1928, os cearenses acabavam de conhecer a primeira edição do mais novo
periódico impresso do Estado. Fundado sob os auspícios de confrontar
desonestos e assegurar grito aos cidadãos silenciados, o Jornal O POVO,
hoje com 92 anos de existência, preserva com fidedignidade a sua
essência jornalística plural que o fez ser reconhecido como o veículo de
comunicação de maior credibilidade no Ceará.
A construção da respeitabilidade do público e das
autoridades para com este periódico quase secular passa pelas mãos dos
seus inúmeros colaboradores, espalhados por todas as regiões do Ceará e
em várias partes do Brasil. A trajetória de alguns desses profissionais
no jornalismo se confunde com a história do O POVO.
Esse é o caso do jornalista e memorialista Francisco
Huberto Esmeraldo Cabral, natural do Crato, hoje com 83 anos de vida,
dos quais 70 foram dedicados ao ofício jornalístico. Iniciou sua
carreira ainda adolescente, na década de 1950, como editor de um
periódico local. Nos anos seguintes atuou no rádio e escreveu para
jornais e revistas regionais. Em 1963 ingressou no quadro de
correspondentes do O POVO, onde permaneceu até 1973.
Durante uma década, Huberto Cabral reportou nas páginas do jornal os
principais acontecimentos do Cariri, a segunda região mais rica do
Ceará, também lembrada pelo tradicionalismo cultural e força religiosa.
Hoje com sete décadas de profissão, ele ainda atua
como repórter especial da Rádio Educadora, administrada pela Diocese do
Crato. Em entrevista ao O POVO, o decano do jornalismo caririense relembrou episódios memoráveis da época em que escreveu para este jornal.
Conhecido por ter uma memória bastante apurada,
motivo pelo qual é chamado por alguns de “enciclopédia viva do Cariri”, o
jornalista recapitulou momentos emblemáticos de sua trajetória no O POVO.
O mais simbólico deles, como relatou, foi no dia em que ele se escondeu
na floresta e driblou seguranças para entrar no avião presidencial e
conseguir um furo jornalístico, em pleno regime militar.
Ele relatou ainda curiosidades a respeito do modus
operandi da produção jornalística em uma época sem tantos aparatos
tecnológicos e comentou sobre as inovações implantadas nos últimos anos
pelo Grupo de Comunicação O POVO em diferentes plataformas.
Confira entrevista com o jornalista e memorialista Francisco Huberto Esmeraldo Cabral
OP – Sem as ferramentas tecnológicas
de hoje, de que forma as matérias eram enviadas para a sede do jornal,
em Fortaleza, na época em que o senhor era correspondente?
Huberto Cabral – Eu encaminhava as
matérias para Fortaleza através dos Correios, Rede Ferroviária Federal
(Refesa), ônibus ou aviões. Sempre tinha alguém para receber na
rodoviária, na estação de trem ou no aeroporto. Escrevia todos os textos
na minha máquina de datilografia, que uso até hoje. Quando a encomenda
chegava, os editores transcreviam a matéria para ser impressa nas
páginas do jornal.
OP – Qual comparativo o senhor faz desse tempo com os dias atuais?
Huberto Cabral – Houve muitos avanços
proporcionados pela tecnologia. Imagine a diferença de enviar um texto
para alguém em Fortaleza por celular e fazer o mesmo por um trem. Todo
esse sistema que eu era acostumado não existe mais. Hoje, felizmente,
prevalece a modernidade. Tudo se tornou mais fácil.
OP – Houve, então, uma mudança estrutural no jornalismo?
Huberto Cabral – Sim. Prova disso é o próprio O POVO. Começou no impresso, depois se expandiu para rádio, TV e online. É um grupo pioneiro, que sabe se adaptar às transformações.
OP – O senhor foi correspondente
durante o regime militar, período marcado por censura e restrição de
liberdades. Como foi exercer o jornalismo nessa época?
Huberto Cabral – Trabalhei normalmente
na época da revolução (militar). Nunca recebi censura. Sempre tive o
cuidado necessário para evitar qualquer tipo de restrição. Durante a
revolução, fiz a cobertura da visita de dois presidentes militares ao
Cariri, Castello Branco e Ernesto Geisel.
OP – Algo lhe marcou, em especial, nestas coberturas de visitas presidenciais?
Huberto Cabral – Tem um episódio que
eu lembro como se fosse hoje. Foi em junho de 1964, na primeira visita
do presidente Castello Branco ao Ceará, no Crato. A cidade estava tomada
por uns 200 jornalistas do Nordeste, de outras regiões do Brasil e até
do exterior. Todo mundo queria ouvir a mensagem do presidente militar
nos primeiros dias da revolução. Eu me preparei para pegar aquele furo.
Fiquei horas escondido na Floresta Nacional do Araripe, ao lado do
Aeroporto Nossa Senhora de Fátima, no Crato, hoje já desativado. Eu
estava com um gravador. Quando o avião pousou, corri e me escondi
embaixo da escada dos passageiros. Quando a escada desceu, agi com muita
rapidez e subi até chegar à porta. Quem abriu (a porta) foi uma
aeromoça. Ela ficou assustada, perguntando quem eu era e pra onde eu
iria. Respondi: ‘Depois lhe digo. Agora estou muito apressado, vou ali
falar com o presidente’. Ela ficou estática. Eu não perdi tempo, parti
direto pra cabine. Abri a porta e dei de cara com o Castello Branco.
Assim que ele me viu, me reconheceu.
OP – Então já tinham se visto antes? Onde?
Huberto Cabral – Sim. Ele já tinha
vindo para o Crato em 1953 para participar das comemorações do
centenário da cidade. Naquela época ele era o comandante da 10ª Região
Militar, que incluía o Ceará, Piauí e Maranhão. Entrevistei ele durante
essa visita, por isso ele me reconheceu.
OP – E o que o senhor o perguntou quando ficou frente a frente com ele?
Huberto Cabral – Eu disse que queria
uma mensagem para o Crato e para o Ceará, porque era a primeira visita
que ele fazia como Presidente da República ao nosso Estado. Colhi o
depoimento. Depois desci correndo do avião em direção ao carro e fui
como uma bala para a rádio (Educadora). Depois, enquanto a mensagem
rodava no ar, os outros jornalistas ainda esperavam o início de uma
entrevista coletiva. Naquele mesmo dia eu enviei a matéria escrita para o
jornal O POVO.
OP – Além dessa, o senhor também fez outras coberturas de visitas presidenciais…
Huberto Cabral – Nossa região sempre
foi bem visitada pelos presidentes. Lembro de ter entrevistado Juscelino
Kubitschek em janeiro de 1961, durante a inauguração do açude de Orós.
Mais tarde, em 1976, também entrevistei o Ernesto Geisel, que participou
da inauguração do mercado central de Juazeiro do Norte. Em 1986,
entrevistei o Sarney na inauguração do Memorial Padre Cícero. Mais
recente, entrevistei o Fernando Henrique, em 1996, e o Lula, em 2004, na
visita às obras da transnordestina e transposição.
OP – O senhor é conhecido como a
“enciclopédia viva do Cariri”, por ter na ponta da língua datas e
detalhes dos principais acontecimentos da região. O que considera a
respeito desse reconhecimento?
Huberto Cabral – Bom, desde os meus
oito anos que eu venho acompanhando todos esses fatos importantes na
nossa região. Participo de muitos eventos. Lembro ainda da primeira
exposição (Expocrato), em 1944. Sempre guardo tudo anotado. As revistas,
jornais, fita cassete, livros, fotos… tudo que tenho acesso. Faço isso
mais pra levar a história para o povo e para a imprensa.
Homenagens
A preocupação do jornalista em documentar os fatos
que ajudam a explicar a história do Cariri lhe rendeu a mais alta
titulação acadêmica que pode ser conferida por uma universidade. Em
março do ano passado, Huberto Cabral foi agraciado com o título de
Doutor Honoris Causa pela Universidade Regional do Cariri (Urca), após
sugestão do Departamento de História e aprovação do Conselho Superior da
Universidade (Consuni).
A homenagem reconhece o jornalista como uma
espécie de “guardião da história do Cariri”, sendo fonte de conhecimento
indispensável para a imprensa e pesquisadores que se debruçam sobre os
acontecimentos históricos da região no século passado.
Modesto, Cabral diz não saber o motivo de tamanho
reconhecimento. “Até hoje eu não sei a causa dessa honra. Eu considero
que essa seja uma homenagem a toda a imprensa do Cariri. Eu agradeço
muito e a estendo a todos os meus colegas”, declara.
Em 2014, o jornalista foi um dos homenageados no
álbum comemorativo dos 250 anos do município do Crato, lançado pela
fundação Demócrito Rocha, que leva o nome do fundador do Jornal O POVO.
No documento, Cabral é retratado como “testemunha vida do Cariri”. O
reconhecimento está a altura da admiração que ele nutre pelo periódico.
“Colaborar com O POVO foi para mim uma honra das maiores na profissão. O maior arquivo da imprensa do Ceará está no O POVO”, afirma.
O jornalista ressalta ainda a característica multiplataforma do Grupo O POVO de
Comunicação. “Nasceu como jornal impresso, mas ocupa hoje espaços
importantes no rádio, televisão e digital, se tornando um grande sistema
de comunicação”, reitera.
Ainda com as mudanças recentes no jornalismo,
provocadas pelo advento de novas ferramentas tecnológicas, Cabral
considera que o Jornal O POVO se mantém coeso na
essência da atividade jornalística: “informar para formar”, frisa,
acrescentando que ao longo dos 92 anos de existência, o periódico
“cumpre a sua missão e nunca deixará de ser um veículo da maior
expressão e necessidade social”.
Por LUCIANO CESÁRIO / CBN CARIRI