Diante do represamento de benefícios no INSS — que já
supera dois milhões, sendo 1,489 milhão previdenciários e o restante
assistenciais (Benefício de Prestação Continuada-BPC), o governo decidiu
correr para editar um decreto com o novo regulamento da Previdência
Social, conforme as mudanças trazidas pela reforma, em vigor desde 13 de
novembro.
A minuta do texto já está sendo discutida pela área técnica do governo e a expectativa é que seja divulgado nos próximos dias.
Esse ato é necessário para ajustar os sistemas, pois desde a entrada
em vigor das novas regras, nenhum pedido de aposentadoria foi atendido.
Somente estão sendo concedidos benefícios que não foram alterados pela
reforma, como rural e BPC.
Depois de quase dois meses a contar da vigência da reforma, sem que
os sistemas tenham sido atualizados, o governo avalia a criação de uma
força tarefa para ajudar a reduzir a fila de espera. A ideia é remanejar
servidores de outros órgãos e contratar terceirizados para o
atendimento nas agências, liberando os funcionários treinados para a
análise dos processos.
O assunto foi tratado em uma reunião com representantes da Secretaria
Especial de Previdência e Trabalho e da Dataprev (empresa responsável
pelo processamento dos dados da Previdência) no início desta semana.
Leia mais: Reajuste anual de 11,7 milhões de segurados do INSS deverá ser anunciado no dia 10
Para justificar a demora, a assessoria de imprensa do INSS disse em
nota que a reforma foi a ” maior e mais profunda no sistema
previdenciário do país”, com mudanças nas regras de acesso, idade,
alíquotas, regras de transição, regras de cálculo, limitação à
acumulação de benefícios, dentre outras:
“Para tanto, todos os sistemas de concessão de benefícios da
Previdência Social precisam ser ajustados às novas regras, o que já vem
sendo feito. Nenhum cálculo de atendimento de regras ou definição de
valores de benefícios concedidos pelo INSS é feito de forma manual pelos
servidores, mas por sistemas que cumprem esse papel com segurança e
uniformidade”, explica a nota.
Ainda de acordo com a assessoria, não há prazo para a regularização
do problema, mas que a atualização dos sistemas está em fase avançada.
O represamento dos benefícios do INSS se agrava em um momento em que a
Dataprev passa por um processo de enxugamento. A autarquia anunciou
nesta quarta-feira um Programa de Adequação de Quadro (PAQ) da empresa,
para desligar 493 empregados, o que representa 15% do total (3.360), até
o fim de fevereiro.
A concessão de benefícios pelo INSS já vem em crescente represamento
nos últimos anos, resultado de uma redução do quadro de funcionários por
motivos de aposentadoria. A medida provisória (MP) que autorizou um
pente fino no INSS, com pagamento de bônus para servidores dedicados à
análise de processos com suspeitas de irregularidade ajudou a desafogar
mas não resolveu o problema, segundo o INSS. A MP começou a surtir
efeitos a partir do segundo semestre.
O órgão também vem investindo recursos na automatização da concessão
de benefícios previdenciários, a fim de assegurar a concessão ou
indeferimento sem a participação de servidores. Segundo a nota técnica
do INSS enviada à Comissão de Orçamento do Congresso, antes da aprovação
da reforma, havia 2.362 milhões de pedidos na fila, sendo 1.701 milhão
de benefícios previdenciários.
Pelas normas vigentes, o segurado precisa esperar 45 dias pelo
atendimento, mas esse prazo já está sendo triplicado. No entanto, o
segurado não perde porque os valores são pagos com correção retroativa à
data da entrada do pedido, o que eleva o gasto do governo federal.
O novo decreto vai atualizar o de número 3.048/1999. São quase 100
páginas diante da amplitude da reforma da Previdência. Uma das novidades
será a regulamentação da situação dos segurados, especialmente,
intermitentes, que não conseguem recolher a contribuição mínima mensal
(sobre o salário mínimo).
De acordo com o decreto, esse trabalhador poderá agrupar as
contribuições, desde que sejam no mesmo ano. Poderá também utilizar uma
contribuição maior para completar o que faltou ou ainda complementar do
próprio bolso. Atualmente, quem não consegue recolher o mínimo fica no
prejuízo porque o valor não conta na hora de pedir o benefício.
*Extra online