PF diz que DEM liderou esquema com maior candidata laranja do país
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personBlog do Amaury Alencar
novembro 26, 2019
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Investigação da Polícia Federal aponta fortes indícios de que verba
eleitoral pública do DEM nacional foi desviada por meio da maior
candidatura laranja das eleições de 2018.
Uma mulher do Acre que oficialmente concorreu a deputada estadual
recebeu R$ 240 mil do Diretório Nacional da sigla, declarou ter
contratado 46 pessoas para atividades de mobilização de rua, entre elas
dois coordenadores de campanha, além de aluguel de 16 automóveis,
confecção de santinhos e contratação de anúncios –recebendo ainda R$
39.500 em material eleitoral doado. Reprodução
Apesar do aparente grande aparato de campanha, a policial militar
Sonia de Fátima Silva Alves obteve apenas seis votos, tornando-se a
candidata com o voto mais caro do país –foram R$ 46,6 mil de verba
pública por apoiador.
A maior parte da receita declarada pela candidata foi repassada por
meio de uma transferência eletrônica assinada em 13 de setembro de 2018
por Romero Azevedo, tesoureiro nacional, e “A Magalhães NT” –Antonio
Carlos Magalhães Neto, prefeito de Salvador e presidente nacional do
DEM, partido que hoje comanda o Congresso Nacional.
De acordo com o inquérito da PF, ao qual a reportagem teve acesso,
Sonia foi usada como candidata laranja para desvio dessas verbas em
benefício da campanha do deputado federal Alan Rick (AC), presidente do
Diretório Estadual do DEM e membro de Executiva Nacional do partido.
Apesar de reproduzir o documento de transferência do dinheiro, a PF
não faz considerações sobre o prefeito de Salvador e cita artigo do
estatuto do partido que estabelece que os comitês financeiros regionais
respondam civil e criminalmente por eventuais irregularidades no
processo eleitoral. “Sendo Alan Rick o beneficiado direto com os
gastos de campanha da candidata e tendo ele, ao mesmo tempo, controle do
comitê financeiro, que é quem responde civil e criminalmente pelas
irregularidades, parece sinalizar que, sem eximir os demais membros do
comitê de parte da responsabilidade, Alan Rick Miranda é responsável
pelas irregularidades identificadas”, diz relatório do delegado
responsável, Jacob Guilherme da Silveira Farias de Melo.
O caso de Sonia foi publicado pelo jornal Folha de S.Paulo em
fevereiro, em apuração que mostrava potenciais candidaturas laranjas em
14 partidos. A reportagem integrou pacote de apurações do jornal que
revelou a existência de esquema de candidaturas laranjas no PSL –partido
pelo qual Jair Bolsonaro se elegeu– em Minas Gerais e Pernambuco.
No primeiro caso, o ministro do Turismo, Marcelo Álvaro Antônio, que presidiu o PSL de Minas, foi indiciado e denunciado.
Na apuração sobre o caso do DEM, a Polícia Federal lista entre os
indícios de que Sonia foi laranja da campanha de Alan Rick –que se
elegeu com 22.263 votos– as diversas relações entre o deputado e os
supostos prestadores de serviços da candidata.
Relata ainda que ela não teve votação nem na cidade de um de seus
supostos coordenadores de campanha e que um de seus supostos cabos
eleitorais publicou em suas redes sociais pedido de voto para outro
candidato.
Os policiais colheram também depoimentos de dois ex-integrantes da
campanha do DEM no Acre que confirmam a existência da candidatura
laranja.
“Recente investigação da Polícia Federal em Pernambuco apurou fato
semelhante no partido PSL, onde o presidente do partido, o deputado
federal Luciano Bivar, foi investigado pelo desvio dos recursos do fundo
com candidaturas femininas laranjas. Ocorre que os fatos narrados na
presente investigação são muito mais graves. Os desvios foram maiores e
operacionalizados de forma muito visível (inclusive com reportagens
sérias publicadas em fevereiro de 2019), tornando necessário medidas
proporcionais”, escreveu o delegado da Polícia Federal.
Além do deputado, sua mulher, Adriana Michele (tesoureira da sigla), e
mais de 30 outras pessoas são suspeitas de integrarem o esquema –a PF
cita a ocorrência de seis crimes, com implicação que varia de acordo com
o suspeito.
No mês passado, a PF pediu a prisão temporária da mulher de Rick, de
Sonia e de outros dois dirigentes do DEM-AC, além de busca e apreensão
em uma série de endereços –a prisão do deputado não foi pedida por causa
de limitações impostas pela Constituição em razão do cargo que ele
ocupa.
O juiz eleitoral Anastácio Lima de Menezes Filho negou os pedidos de
prisão afirmando, entre outros pontos, que a medida “em nada ou quase
nada” auxiliaria na coleta de provas e “configuraria verdadeiro atentado
aos direitos e liberdades públicas consagrados na Constituição”.
O magistrado também negou parte dos pedidos de busca e apreensão,
entre eles os que tinham como alvo a casa do deputado. “Nada indica que a
prova possa estar guardada na residência conjugal ou no escritório,
principalmente quando toda a lógica aponta que se busque tais indícios
na Executiva Estadual do DEM”, escreveu. OUTRO LADOPor meio de sua assessoria, o deputado
Alan Rick afirmou que Sonia foi escolhida já perto da eleição para a
vaga de uma candidata que havia desistido e que o expressivo repasse de
verbas, decidido pela Executiva Estadual, ocorreu para que ela pudesse
reverter a situação de desvantagem. “Além de ingressar tardiamente na
campanha, a candidata enfrentou diversos contratempos, a exemplo de
erros na confecção do material de propaganda e grave enfermidade”, diz a
resposta.
Rick afirma ainda que a verba empregada “nem sempre traz o resultado
desejado para o candidato e para o partido, mas é certo que os
resultados servem para o aprimoramento das escolhas futuras em novos
pleitos”.
Também por meio de sua assessoria, o DEM nacional divulgou nota
afirmando ter aprovado resolução, em 2018, determinando a transferência
direta das verbas para a conta bancária das candidatas mulheres e
definido “que as lideranças partidárias de cada estado teriam a
responsabilidade de identificar a viabilidade eleitoral das
concorrentes”.
“Os critérios, fixados após iniciativa do presidente nacional do
partido, ACM Neto, foram estabelecidos para impedir quaisquer desvios
desses valores por parte dos candidatos homens.”
A resolução, porém, não traz menção clara no sentido de
responsabilizar os diretórios estaduais pela escolha e análise da
viabilidade eleitoral das candidatas.
Em resposta à pergunta sobre se o partido tomou alguma atitude em
relação ao caso de Sonia, a nota afirma apenas que “o Democratas
Nacional continua acompanhando os desdobramentos das investigações
realizadas no estado do Acre”.
A reportagem não conseguiu falar com Sonia de Fátima. Fonte: Folhapress