Estudante
de Direito e cheia de sonhos. No mundo das leis, a jovem Maria Iracema
Martins do Vale deu os primeiros passos ainda na década de 1960, como
estagiária na Justiça do Trabalho, época em que cursava o Curso de
Direito, na Universidade Federal do Ceará (UFC). Após formada, tornou-se
servidora da corte trabalhista, onde permaneceu até 1982. “Eu
ganhava um salário, para a época, que me garantiria segurança financeira
para o resto da vida, mas não era dinheiro que eu queria, eram novos
desafios. Sou uma mulher de desafios, nada fácil me agrada”, afirma a
hoje desembargadora e integrante do Conselho Nacional de Justiça (CNJ).
Uma das seis personalidades agraciadas com a Medalha da Abolição - o
Corpo de Bombeiros será o sétimo homenageado - Iracema agora divide a
rotina entre Fortaleza, onde despacha no Tribunal de Justiça do Ceará
(TJCE), e Brasília, onde participa das sessões do CNJ. Estudos em meio à Copa do Mundo Foi
em 1982, durante o período da Copa do Mundo da Espanha, que ela
resolveu se preparar para o concurso público para o Ministério Público
Estadual (MPCE). Foi aprovada e posteriormente nomeada para o cargo de
promotora de Justiça da comarca de Beberibe, no Litoral Leste do Ceará.
“Ali, de fato estava realizando um sonho. O Tribunal do Trabalho era
muito perto da minha casa, a decisão de mudar para trabalhar no
Ministério Público não foi fácil, mas não podia ter a minha vida
resumida a um relógio. Assumi Beberibe e se fosse para recomeçar,
recomeçaria da mesma forma”, fala orgulhosa da conquista.
Depois de Beberibe, Iracema Vale, então promotora de Justiça passou
também pelas comarcas de Acaraú e Sobral. Em Fortaleza, ela trabalhou
inicialmente no antigo Decom (Serviço Especial de Defesa Comunitária).
Promovida ao cargo de procuradora de Justiça, chegou à chefia do
Ministério Público do Ceará em 2003, eleita pelos colegas de classe. “No
Ministério Público deixei tudo preparado para a realização de concurso
público para servidores da casa. Não cheguei a concluir o mandato porque
foi promovida a desembargadora pelo critério do quinto constitucional,
após o falecimento do então desembargador Júlio Carlos de Miranda
Bezerra, em outubro de 2006”.
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No
Tribunal de Justiça, Iracema do Vale passou por cargos como presidenta
de Câmaras e ouvidora da Casa. Na sequência, chegou à corregedoria,
vice-presidência e presidência do Tribunal Regional Eleitoral (TRE). “A
cada dia, em cada um desses cargos você tem oportunidade de aprender uma
lição de vida e assim fazer o bem para as pessoas e também para o
Estado onde você mora. Toda a minha experiência me credenciou a desafios
maiores”. Na sequência, Iracema do Vale chegou ao mais alto cargo que
ela ocupou na carreira, presidenta do Tribunal de Justiça do Ceará. Segunda a presidir o TJCE
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A
frente da maior corte de Justiça do Ceará, a desembargadora Iracema do
Vale destaca realizações como o início das audiências de custódia,
integrando o Pacto por Um ceará Pacífico, lançado pelo Governo do Ceará
em 2015. “É um desafio grande. Fui a segunda mulher a presidir o
Tribunal de Justiça, a primeira foi a desembargadora Agueda Passos
Rodrigues Martins. Sempre fui recebida e respeitada pelos meus colegas e
como maior feito creio que foi a implantação das audiências de
custódia, com uma parceria com o governador Camilo Santana que liderou o
Pacto por um Ceará Pacífico e o Tribunal de Justiça entendeu a
necessidade de fazer parte deste momento e também fiz concurso público
para 76 novos juízes de Direito, para atender a uma demanda grande por
Justiça no Estado”, afirmou.
Iracema Vale ressaltou ainda que
uma parceria com o Supremo Tribunal Federal resultou no Projeto “Paz em
Casa”, cujo objetivo era proteger mulheres vítimas de violência
doméstica. “Levei a ideia ao governador Camilo Santana, que ele abraçou
de imediato e viabilizou o funcionamento da Casa da Mulher Brasileira em
Fortaleza”.
A carreira no Tribunal de Justiça a credenciou
para ser a representante do Ceará no Conselho Nacional de Justiça (CNJ).
“Quando pensei que estava no final da minha carreira, me deparei com
este desafio. Inicialmente fui ouvidora do CNJ, a convite do ministro
Dias Toffoli. É uma função complexa, mas que procuro sempre manter o
diálogo com os tribunais de todo o país”.
Maior honraria do Estado
Ao
final da carreira e agraciada com a Medalha da Abolição, Iracema revela
que tem um sonho. “Quando me aposentar, quero contribuir com as
pessoas, ou ensinar crianças ou cuidar de idosos que não têm ninguém por
eles, quero oferecer ao meu país e ao meu Estado, muito além da
Justiça”, finalizou.
Sobre a medalha da Abolição, ela destacou
que a homenagem apenas aumenta a responsabilidade para que ela continue
oferecendo o melhor de seus conhecimentos para o Estado do Ceará.
“Sinto-me orgulhosa e isso só aumenta mais ainda a minha
responsabilidade. A maior honraria do Ceará exige de mim uma
responsabilidade com o meu povo, por isso quero trabalhar até o dia que
Deus decidir me levar. A Abolição representa a liberdade e a boa Justiça
também representa a liberdade, foi o que eu procurei fazer durante e
minha carreira, preciso honrar esta homenagem todos os dias. Sou uma
mulher realizada e agora chegou a hora de eu oferecer o melhor de mim ao
Estado do Ceará”.