Petrobras desiste de base contra desastre ambiental

Blog do  Amaury Alencar


 
Nem o desastre ambiental que afeta a costa do Nordeste do Brasil, há mais de 50 dias, fez com que a cúpula da Petrobras voltasse atrás na decisão de abortar a criação de uma Base Avançada do Centro de Defesa Ambiental (CDA) de Ilhéus, na Bahia (BAV-Ilhéus). O agravante é que gestores da empresa descartaram a implantação da unidade no dia 20/9, mesmo em meio ao avanço da grave contaminação das praias nordestinas. Na última sexta-feira, 25/10, exatamente o litoral norte de Ilhéus foi afetado pela chegada da mancha de petróleo cru e a Petrobras foi obrigada a deslocar equipes da base de Manaus (AM) para o município baiano.

O POVO apurou que um comunicado confirma que as gerências da Petrobras do Nordeste e do Rio de Janeiro concordaram em desistir da base em Ilhéus por causa da política de "otimização de recursos e reavaliação de negócios (desinvestimentos)" implantadas na Petrobras pela gestão do presidente Jair Bolsonaro (PSL).
Gestores da empresa, orientados pela nova ordem de gestão da companhia, comunicaram que estava encerrado o processo de contratação de locação de imóvel da Base de Ilhéus. Eles consideraram também a necessidade de adaptação do sistema de Segurança, Meio Ambiente e Saúde da Petrobras aos novos tempos.

O fim do processo de criação da Base de Defesa Ambiental de Ilhéus, no território baiano - um dos mais atingidos pela mancha de petróleo cru, foi comunicada à gerência de Solicitação de Bens e Serviços (SBS). A Bahia, que perdeu a base há 28 dias, foi o último dos nove estados atingidos pela poluição. No dia 11/9, Salvador registrou pela primeira vez a chegada da substância tóxica.
Fontes ouvidas pelo O POVO explicam que, após o início do processo de privatização da Petrobras, haveria um desmonte na empresa dos Centros de Defesa Ambiental no Nordeste. Um pouco antes da desistência da Base de Ilhéus, também teria sido enviado um documento informando sobre a desmobilização do CDA do Ceará e a transferência de servidores para o Rio de Janeiro. O aviso teria sido dado um pouco antes do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e Recursos Naturais Renováveis (Ibama) apelar à Petrobras para que atuasse no desastre ambiental em curso.

No dia 11/9, o Ibama em Brasília, já atrasado nas ações contra a catástrofe no Nordeste, requisitou a Ângelo Sartori Neto, gerente Setorial de Planejamento de Contingência (RJ), o emprego dos CDAs para a "contenção e recolhimento de óleo no mar e a limpeza de zonas costeiras afetadas por borra de "piche" que contaminam o litoral" banhado pelo oceano Atlântico.

Na época, o Ibama indicava como críticas as praias do litoral de Alagoas, Pernambuco, Rio Grande do Norte e Ceará. De acordo com o ofício 737/2019/Dipro, a Petrobras precisava atuar com urgência nos municípios de "São Miguel dos Milagres/AL, Porto de Pedras/Al, Japaratinga/AL, Maragogi/AL, São Miguel dos Milagres/AL, Porto Canguaretama/RN, Tibau do Sul/RN, Nísia Floresta/RN, Parnamirim/RN, Natal/RN, Extremoz/RN, Ceará-Mirin/RN, Maxaranguape/RN, Aquiraz/CE e Fortaleza/CE".
Como a Petrobras havia constatado que o petróleo cru derramado no Atlântico que tomou a costa nordestina "não tinha o DNA" de suas plataformas nem de seus navios petroleiros, a empresa só começou a atuar um dia depois do apelo desesperado do Ibama por ajuda. Foi em 12/9, treze dias após a contaminação do litoral brasileiro.

Segundo fontes, como o desastre ambiental se avolumava naqueles dias e a Petrobras poderia responder por crime de omissão já que possui a expertise para esse tipo de ocorrência, resolveu-se esperar pelo fim da crise no mar do Nordeste para a retomada do projeto de extinção dos CDAs no Nordeste.

No início do ano, a Petrobras já havia fechado o CDA de Aracaju, em Sergipe, quando não renovou o contrato com a empresa parceira HDG, do Grupo Bravante, que atua como auxiliar técnica da companhia. Outra empresa do mesmo grupo, a Navemestra poderia ser acionada. Porém, até agora não foi chamada para atuar. E, segundo O POVO apurou, existem equipamentos da HDG parados em um Terminal da Transpetro, numa base em Pirambu (SE), que poderiam estar sendo utilizados na crise ambiental no Nordeste e dependem de autorização. Segundo fonte, o Ministério Público Federal precisa interferir.

No dia 5/10, Sergipe, o mais atingido pela contaminação da mancha tóxica, foi o primeiro estado a decretar "situação de emergência na faixa litorânea por causa do derramamento de produtos químicos em ambiente marinho". No mesmo dia foi instalado um Gabinete de Crise e Ricardo Salles, ministro do Meio Ambiente, passou pelas praias sergipanas.

Fontes ouvidas pelo O POVO afirmam, que antes do desastre ambiental, o plano da Petrobras era extinguir três dos seis Centros de Defesa Ambiental localizados no Nordeste. Além dos CDAs do Ceará e Sergipe, Pernambuco perderia o seu no ano que vem. O do Rio Grande do Norte estava passando por análise. E, de acordo com fontes, apenas o Maranhão permaneceria com o CDA, caso se confirme a existência de pré-sal na região. Existiria também o plano da redução de CDAs nas regiões Norte, Sul e Sudeste. O Sindicato dos Petroleiros confirma a informação.

Na última semana, o CDA do Ceará foi consultado para saber se tem material suficiente para fazer um cerco preventivo com barreiras de contenção na bacia do Curu e na foz do rio Jaguaribe, no litoral de Aracati onde a situação é grave. O maior rio do Ceará troca serviços ambientais com o Atlântico e no abastecimento de água para dezenas de municípios cearenses. A urgência levou o Gabinete de Crise daqui, formado por técnicos do Ibama, Marinha do Brasil, Universidade Federal do Ceará e Secretaria do Meio Ambiente do Ceará, a visitar o CDA em Fortaleza.

Os Centros de Defesa Ambiental, distribuídos por onde a Petrobras opera, são responsáveis por estruturar, apoiar e monitorar os Planos de Contingência, no âmbito do Sistema Petrobras, de forma a manter e operacionalizar a prontidão da Companhia para os cenários de emergência previstos nos planos de resposta das unidades operacionais, instalações e atividades urgentes para combater catástrofes ambientais relacionadas ao derramamento de derivados de hidrocarbonetos de petróleo.


o Povo