Moro pede que PGR apure citação a Bolsonaro em caso Marielle
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personBlog do Amaury Alencar
outubro 31, 2019
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O ministro da Justiça e Segurança Pública, Sergio Moro, pediu ao
procurador-geral da República, Augusto Aras, que abra um inquérito para
apurar “todas as circunstâncias” da citação do nome do presidente Jair
Bolsonaro nas investigações sobre a morte de Marielle Franco, vereadora
do Rio de Janeiro assassinada em 14 de março do ano passado. Rovena Rosa/Agência Brasil
Por meio de ofício encaminhado a Aras nesta quarta-feira (30), Moro
diz que uma “inconsistência” em torno da citação do nome de Bolsonaro
nas investigações pode ensejar eventuais crimes de obstrução de Justiça,
falso testemunho e denunciação caluniosa, tendo o presidente como
vítima, motivo pelo qual estaria atraída a competência da Justiça
Federal, da Polícia Federal e do Ministério Público Federal (MPF) para
atuar no caso, segundo o ministro.
“Para que os fatos sejam devida e inteiramente esclarecidos, por
investigação isenta, venho através desta solicitar respeitosamente a
V.Ex.ª que requisite a instauração de inquérito para apuração, em
conjunto, pelo Ministério Público Federal e Polícia Federal, perante a
Justiça Federal, de todo o ocorrido e de todas as suas circunstâncias”,
escreveu Moro.
Ontem (30) à noite, o Jornal Nacional, da TV Globo, noticiou
que registros do condomínio Vivendas da Barra, e também o depoimento de
um dos porteiros à Polícia Civil, deram conta de que um dos suspeitos
do assassinato, o ex-policial militar Élcio Queiroz, esteve, horas antes
do crime, na casa do sargento aposentado da Polícia Militar Ronnie
Lessa, suspeito de ser o executor da ação, que mora no local.
Segundo o Jornal Nacional, em depoimento, o porteiro
informou que Élcio Queiroz anunciou que iria não à casa de Lessa, mas à
de número 58 do Vivendas da Barra, que é a residência de Jair Bolsonaro
no Rio de Janeiro. Ainda segundo o programa da Globo, em seu depoimento,
o porteiro afirmou ter interfonado para a casa do então deputado
federal e que “seu Jair” havia autorizado a entrada do visitante.
Contudo, registros de presença da Câmara dos Deputados demonstram que
naquele dia o então deputado estava em Brasília, conforme também
noticiado pelo Jornal Nacional. Tal “inconsistência” é que precisa ser
apurada, afirma o ministro Sergio Moro no ofício encaminhado a Aras.
“A inconsistência sugere possível equívoco na investigação conduzida
no Rio de Janeiro ou eventual tentativa de envolvimento indevido do nome
do Presidente da República no crime em questão, o que pode configurar
crimes de obstrução à Justiça, falso testemunho ou denunciação
caluniosa, neste último caso tendo por vítima o Presidente da República,
o que determina a competência da Justiça Federal e, por conseguinte, da
Polícia Federal e do Ministério Público Federal”, afirmou Moro.
O ministro da Justiça destaca, no ofício, que investigações
anteriores conduzidas pela Polícia Federal no caso Marielle constataram
já ter havido tentativas de introduzir falsas testemunhas no caso. “A
tentativa de obstrução da Justiça só foi contornada com a atuação
independente da Polícia Federal e que contribuiu para identificação dos
reais suspeitos pela prática do crime em questão”, escreveu Moro.
Em setembro deste
ano, a então procuradora-geral da República, Raquel Dodge, solicitou ao
Superior Tribunal de Justiça (STJ) a federalização das investigações
sobre o assassinato de Marielle, após ter constatado em apuração própria
tentativas de desviar o curso do inquérito local. Tal solicitação
tramita em segredo de Justiça.
A vereadora Marielle Franco e seu motorista, Anderson Gomes, foram
assassinado a tiros em 14 de março do ano passado. Os disparos foram
efeituados de um carro contra o veículo em que os dois se encontravam,
em meio ao trânsito, na região central do Rio de Janeiro.
Live
Na noite de ontem, o presidente Jair Bolsonaro fez uma live (trasmissão ao vivo) nas redes sociais para comentar a reportagem do Jornal Nacional.
O presidente disse que os registros no painel de votação da Câmara
confirmam que ele estava em Brasília no dia citado pelo porteiro em
depoimento. “Eu tenho registrada no painel eletrônico da Câmara presença
às 17h41, ou seja, 31 minutos depois da entrada desse cidadão, desse
elemento no condomínio, e tenho também às 19h36. E tenho também
registradas no dia anterior e no dia posterior as minhas digitais no
painel de votação.” Ainda na transmissão, o presidente levanta hipóteses
sobre os motivos que podem ter levado o porteiro a citar o seu nome em
depoimento. “O que parece? Ou o porteiro mentiu ou induziram o porteiro a
cometer um falso testemunho ou escreveram algo no inquérito que o
porteiro não leu e assinou embaixo”, diz o presidente.
Jair Bolsonaro está viagem ao Oriente Médio e à Asia e retorna para Brasília ainda esta semana.
Presidente em exercício
Hoje, o presidente em exercício, Hamilton Mourão, disse a jornalistas
que considera o depoimento do porteiro “muito fraco”. “Seria leviano de
dizer que o objetivo é atingir a pessoas do presidente, mas que pode
dar a entender isso, dá. É um fato que as fontes comprovam que o
presidente não estava no condomínio dele, estava aqui em Brasília, então
eu, na minha visão, ao chegar esse dado para mim, eu desprezaria porque
não corresponde à verdade.” Atualização Jorge Alves Email: jorgelbalves@gmail.com Fonte: Agência Brasil