GIGANTE - A mulher de 1,48 metro: próxima dos miseráveis e também
de políticos e empresários (Acervo Memorial Irmã Dulce/.)
Para Francisco, a canonização de domingo, de irmã Dulce e outras quatro pessoas, é um gesto de coerência de seu pontificado, o da celebração da Igreja que se aproxima dos desvalidos — tanto a brasileira quanto a freira italiana Giuseppina Vannini, a indiana Mariam Thresia, a suíça Marguerite Bays e o inglês John Henry Newman, sacerdote anglicano convertido ao catolicismo no fim do século XIX, ostentaram em vida o permanente contato com as vozes humildes. Levá-los aos céus, para a veneração em terra, é uma tentativa de recuperação do rebanho perdido para o avanço das denominações evangélicas. Diz o sociólogo Francisco Borba, coordenador do Núcleo Fé e Cultura da PUC de São Paulo: “Desde o Concílio Vaticano II, nos anos 60, há um esforço da Igreja de mostrar a ideia de que todos podem ser santos”. Francisco leva essa ideia, que alguns consideram populista, ao apogeu.
Não por acaso, o papa argentino é o que mais fez santos (veja o quadro) — são 898 em apenas seis anos de pontificado, incluindo uma canonização coletiva de 813 pessoas no terceiro mês de seu mandato. No documento Gaudete et Exsultate (Alegrai-vos e Exultai), de 2018, ele decretou: “Ser pobre no coração — isto é santidade”. Para Geraldo Hackmann, professor de teologia da PUC do Rio Grande do Sul, “do ponto de vista prático, a canonização fortalece a Igreja Católica, aproximando os fiéis”. Outra maneira de fortalecimento proposta por Francisco é a que está em discussão no Sínodo para a Amazônia, que se realiza em Roma até a próxima semana: a ordenação de homens casados, atalho para expandir o alcance da fé católica nos grotões.
DEVOÇÃO – O túmulo da freira, em Salvador: o número de visitantes saltou de 3 000 para 15 000 neste anoEm nome dos pobres e dos doentes, a mulher de 1,48 metro era gigante. Criou um dos maiores complexos de saúde do Brasil, o Hospital Santo Antônio, em Salvador, que hoje faz 3,5 milhões de procedimentos ambulatoriais por ano, gratuitamente. Ela atraía atenção, carinho e dinheiro de políticos e empresários como Antonio Carlos Magalhães e Norberto Odebrecht. Nascida numa família de classe média (filha de dentista e professor), tinha uma afeição espantosa pelos miseráveis. Certa vez, foi alimentar um morador de rua. Na primeira colherada, ele cuspiu a comida na cara da religiosa. Dulce reagiu: “A primeira colher era para mim mesmo, agora coma você”. Invadiu casas para abrigar gente que morava nas ruas. Foi afastada de sua congregação, a das Irmãs Missionárias da Imaculada Conceição da Mãe de Deus, em razão de suas atividades, que não seguiam regras tradicionais.
LIBERAL – O papa no Sínodo para a Amazônia: atalho para atrair mais gente
Não é fácil ser santo, e irmã Dulce entrou numa engrenagem que talvez seja a mais severa (e fascinante) da Igreja. Na Antiguidade, quase todo mártir cristão era alçado à condição de santo. Não havia regras, daí o número de 27 000 santos listados. No século XVI, o papa Sisto V determinou que apenas o sumo pontífice poderia conceder o definitivo nihil obstat (nenhuma objeção, em latim). Instalou-se, a partir daí, uma complexa estrutura na fábrica de santos — tão intrincada, tão repleta de subterfúgios, que rapidamente se transformou em máquina de desvio de dinheiro e corrupção ao longo dos séculos. Em um livro de 2015, Via Crúcis, o jornalista italiano Gianluigi Nuzzi revelou, com base em documentos sigilosos, que o escritório do Vaticano encarregado das canonizações chegava a pedir até 50 000 euros para abrir determinadas causas. Um único processo de santificação poderia custar 750 000 euros, para análise de postulados, pagamento de traduções, contratação de médicos — sim, todo milagre só é aceito desde que a medicina seja incapaz de explicar recuperações do corpo humano — e, em casos escandalosos, o pagamento de pareceres. Quatro meses depois das denúncias, o papa Francisco criou novas regras para o rito. Em 2016, ele definiu que toda contribuição para qualquer processo de canonização tem de ser depositada numa única conta e gerenciada por um único administrador, que deve “escrupulosamente respeitar as intenções dos contribuintes”. Irmã Dulce foi canonizada sem nenhum atalho irregular. Em depoimento ao jornalista Graciliano Rocha, no livro Irmã Dulce, a Santa dos Pobres (Editora Paralela), o banqueiro Ângelo Calmon de Sá estima que a causa tenha custado 1 milhão de reais entre 1999 e dezembro de 2010, momento da beatificação anunciada por Bento XVI. O dinheiro veio de doações.
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Depois da morte do candidato, uma petição formal é submetida a Roma para os passos inaugurais da beatificação (no caso de irmã Dulce, os primeiros papéis pousaram em Roma em janeiro de 2000). Com a aprovação, a diocese local indica um postulador, o encarregado de reunir os testemunhos, de reconstruir a vida do pretendente (o advogado de Dulce foi o teólogo calabrês Paolo Vilotta, de 37 anos, sempre muito bem-vestido e permanentemente calado). O passo seguinte é a exumação do corpo, modo de garantir que a pessoa existiu (dali foram extraídos os fragmentos ósseos da baiana levados a Francisco). Com o material reunido, o relator finaliza o positio, peça derradeira de defesa da postulação, submetida aos cardeais da Congregação para a Causa dos Santos, que então se debruçam sobre os supostos milagres, convocando médicos especialistas — pelo menos sete. Um milagre tem de ser preternatural (quando a ciência não é capaz de explicá-lo), instantâneo (acontecer imediatamente após a oração), duradouro e perfeito.
Na visão do Vaticano e dos fiéis, os santos e as santas levam a Deus as súplicas de seus semelhantes. Feita santa, Irmã Dulce dos Pobres tem pela frente um desafio, que, se não pode ser considerado milagroso, porque seria desrespeitoso imaginá-lo assim, é árduo: iluminar os caminhos para a Igreja Católica no Brasil. Essa talvez seja sua grande missão a partir deste domingo, 13, dia em que Francisco, o papa simples, vai canonizá-la
FONTE : VEJA. COM