A estudante Márcia Alessandra Café Lima,
53, entrou para a estatística dos 13 milhões de desempregados em
dezembro último. Sem renda, teve de controlar as despesas e decidiu
eliminar o plano de saúde. "Ficou difícil manter", calcula. Ela não está
sozinha. No Ceará, mais de 35 mil pessoas tiveram de abdicar do serviço
nos últimos cinco anos - período da maior recessão brasileira da
história pós-industrial. Os dados são da Agência Nacional de Saúde
Suplementar (ANS).
No recorte de tempo entre março de 2014 a igual mês em
2019, o número de beneficiários passou de 402,8 mil para 367,7 mil. Uma
queda de 8,7% no Estado. Na outra ponta, os planos empresariais e
coletivos por adesão apresentaram aumento de 13,54% e 32,43%,
respectivamente.
O vice-presidente do Instituto Brasileiro de Executivos
de Finanças do Ceará (Ibef-CE), Raul Santos, explica que o número de
contratantes individuais e familiares é o que mais flutua.
"Quando ocorre um abalo na renda da pessoa física, ela
vai cortando os gastos. O desemprego é o principal fator, mas muito
atrelado à questão do próprio custo. Enquanto o plano individual é muito
caro, o corporativo amortece (o preço)", avalia.
Raul acrescenta que o setor terá de se adequar à nova
realidade, oferecendo uma maior gama de serviços para atender às
necessidades específicas dos usuários. "A questão da tecnologia e
flexibilidade tem de acontecer para ajudar a alavancar novamente esse
mercado", complementa.
Mário Monteiro, economista, professor do Centro
Universitário Estácio e sócio da Reinfra Consultoria, reitera que os
números evidenciam a crise e a perda da massa salarial. Pondera, no
entanto, que as pessoas retornam para o Sistema Único de Saúde (SUS).
"Isso vai demandar que o Governo equacione a crise
fiscal para atender à demanda. (Ele terá que) Redirecionar recursos e
tem de arcar com mais eficiência, esse é o grande desafio", aponta.
Outro ponto, exemplifica, é o envelhecimento
populacional. Na medida em que ficam mais velhas, aumenta a necessidade
de acompanhamento e tratamentos. Ele analisa que as pessoas passarão a
obter planos novamente quando houver uma recuperação da economia no
País.
Para Márcia, o plano de saúde é inviável nesse momento. "Agora, quando preciso, recorro a clínicas populares. Até voltar ao mercado, não vou poder contratar outro", relata.
O presidente da comissão de Direito do Consumidor da
Ordem dos Advogados do Brasil (OAB - Secção Ceará), Sávio Aguiar,
explica que, nestes casos, não há muito o que ser feito. Os clientes que
não têm mais condições de pagar ficam sem atendimento em razão do
regime de pagamento para a utilização. "A legislação determina que, com
60 dias de atraso, gere o cancelamento do plano. Justifica-se tal
situação, porque teria que ter o custeio da operação", esclarece. O
usuário pode tentar negociar com a operadora após esse tempo.
"Passado esse prazo, o plano é cancelado por
determinação da própria ANS. São raros os casos na Justiça em que se
conseguem reativar, mas o cliente vai ter uma certa dificuldade, porque é
pela própria imposição legal", explica.
Clínica Sim inaugura
Em Fortaleza, os moradores contam com a Clínica
Sim, que já planeja expansão. São nove unidades na Capital e, em breve, a
décima unidade será inaugurada no Shopping RioMar Fortaleza.
A rede possui outras três clínicas em Recife, e está
prestes a se tornar a maior do segmento do Norte e Nordeste, com a
inauguração ainda de duas novas unidades em Belém, também no próximo
mês.
No mercado de saúde popular desde 2007, a Clínica Sim
oferta exames e procedimentos, além de 30 especialidades médicas e
consultas odontológicas, atingindo o público que quer mais qualidade que
o SUS e abandonou plano de saúde.
Causas
Não são apenas as classes de menor poder
aquisitivo que frequentam as clínicas. A demora para agendar consulta,
mesmo entre quem tem plano, tem levado gente ao serviço, onde, de modo
geral, é possível marcar e receber atendimento no mesmo dia ou, no
máximo, em 24 horas.
o Povo