70% DAS ESTRADAS estaduais estão em boas condições para o tráfego, segundo estudo da Engevias para a Superintendência de Obras Públicas (SOP)
70% DAS ESTRADAS estaduais estão em boas condições para o tráfego, segundo estudo da Engevias para a Superintendência de Obras Públicas (SOP)

Buracos, sinalização inadequada e vegetação invadindo a pista. Esses são alguns dos problemas encontrados em rodovias cearenses por quem passa por elas todos os dias ou pelo menos uma vez na semana. Um estudo da consultora Engevias para a Superintendência de Obras Públicas (SOP) identificou, entre agosto e outubro de 2019, que 2.372 km das rodovias pavimentadas e sob jurisdição do Estado, as CEs, apresentam algum problema. 

O número é a somatória das vias consideradas regulares, ruins e péssimas. Em contraposição, 5.785 km foram diagnosticados como em boas condições para o tráfego. Quintino Vieira, superintendente de Obras Públicas, explica que são consideradas boas aquelas rodovias "que a população possa usar com velocidade até o limite permitido pela lei", já as estradas consideradas regulares "também podem ser usadas com velocidade, mas não dão um conforto".

"Hoje acho que os números estão um pouco maiores, mas segundo o estudo nós temos 88,95% de estradas viáveis de se rodar no Ceará, somando as boas e regulares", enfatiza. Atualmente, todas as rodovias que cruzam o Ceará, sejam elas federais, estaduais ou municipais, totalizam 55.952 quilômetros. Destes, 11.942 km são responsabilidade do Governo estadual, 2.556 km da União e 38.573 km dos municípios.

O superintendente argumenta que "estrada não é só a construção". "Uma coisa que prejudica muito são caminhões que trafegam com peso acima do que deve ser colocado na estrada. E aí o pavimento que é para ter 7, 8 anos de vida passa a ter 2, 3 anos." A situação piora quando chega o período de chuvas mais intensas. Segundo Vieira, o trabalho de conservação tem sido desenvolvido em parceria com fiscalizações do Departamento Estadual de Trânsito (Detran) e da Polícia Rodoviária Federal (PRF). Caminhões que circulam pelas estradas cearenses estão sendo pesados, e veículos com carga acima do permitido são notificados e podem ser apreendidos.

Quanto à qualidade dos pavimentos, o professor Jorge Soares, coordenador do Centro de Tecnologia em Asfalto Norte/Nordeste da Universidade Federal do Ceará (UFC), afirma que ainda são utilizadas — não só no Ceará, mas em todo o País — normas desatualizadas, o que tem impacto na durabilidade. Mesmo existindo atualizações feitas pelo Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (Dnit), elas não são aplicadas.

Uma das normas atualizadas, a 180/2018 - ME, fala sobre a propriedade de adesão nas misturas asfálticas. "Chama-se dano por umidade induzida. Já existe normativa para isso, por que o Ceará não utiliza? Isso afeta diretamente a questão de quadra chuvosa, porque eu só aprovaria determinadas misturas asfálticas se elas tivessem a adesividade devida entre o asfalto e o agregado. Então, em época de chuva, não descolaria tão facilmente", exemplifica.

Desde setembro de 2019, o Centro realiza, em parceria com o Governo do Estado, um trabalho de acompanhamento de rodovias sob coordenação da Superintendência. Procurada pelo O POVO, a SOP afirmou que analisa a adoção das normas, mas não informou prazos.

A Pasta afirma que, anualmente, realiza o Levantamento Visual Contínuo e cadastra os defeitos de superfície de acordo com a extensão e a severidade. O estudo é realizado por um engenheiro a bordo de veículo equipado com câmeras de alta resolução, apontadas para o horizonte (fotografia panorâmica) e para o pavimento, GPS e hodômetro. São levados em consideração trincas, desgastes, afundamentos, buracos e remendos.

Um dos problemas de rodovias deterioradas é o maior risco de acidentes. "Se tenho uma rodovia que tem um trincamento que eventualmente evolui para um buraco, para problemas maiores, passo a ter uma rodovia com menos segurança para trafegabilidade", afirma o professor. Dados da Polícia Rodoviária Federal contabilizam 1.516 acidentes nas BRs do Ceará em 2019; 72 deles causados explicitamente por defeitos na via, dos quais 59 resultaram em vítimas feridas.

Além disso, Soares aponta o impacto financeiro da deterioração prematura. "Você faz um projeto para durar dez anos e ele dura um ou dois anos — o que não é incomum, por conta de uma normativa inadequada. O risco é de o contribuinte ficar gastando esse recurso, enquanto ele poderia estar economizando", afirma. "Não necessariamente o projeto e a construção vão ser mais baratos (com a adoção de normas mais recentes), mas o ciclo de vida útil do pavimento será mais prolongado." (Colaborou Gabriela Custódio)

As estradas para quem viaja por elas

Amélia Freire, confeccionista

Trajetos frequentes
Tabuleiro do Norte - Fortaleza
Tabuleiro do Norte - Mossoró (RN) - Fortaleza
Fortaleza -Tabuleiro do Norte
Rodovias por onde passa
CE-266, CE-265, CE-138, BR-304 e BR-116

"Por conta do trabalho, eu e meu esposo viajamos quase que toda semana de Tabuleiro para Fortaleza e duas vezes por mês no trajeto que vai de Tabuleiro para Mossoró e de lá para Fortaleza. Fazemos esses itinerários há 15 anos e nesse tempo houve muitas épocas de estradas ruins, muitos buracos e algumas até sem asfalto, era um caos. A viagem se tornava mais longa, quebrava o carro e ainda tinha o risco de assaltos. Hoje já estão consertadas e a viagem é tranquila, com alguns dos trajetos com pista dupla."

Flávio Henrique Gonçalves, agrônomo
 
Trajetos frequentes
Quixeramobim - Canindé - Ipu
Quixeramobim - Fortaleza
Quixeramobim - Senador Pompeu - Milhã - Solonópole - Orós - Cedro - Aurora
Rodovias por onde passa
CE-265, CE-257, BR-020 e BR-403

"Coordeno uma ONG que trabalha com assistência técnica à agricultura familiar, então viajo semanalmente a trabalho. E moro em Quixeramobim, mas sou de Aurora, então vou a cada 15 dias, para trabalhar e para visitar a família. Esse trajeto do Ipu está com três anos que eu faço e o de Aurora já está com 30 anos. Eu observo que nessa operação tapa-buraco eles deixaram trechos que seriam facilmente recuperados e foram fazer trechos em que o asfalto era melhor; foram fazer todo desde a base. Esse trecho de Canindé para Salitre é horrível, enquanto que o de Salitre a Santa Quitéria era melhor e eles foram arrancar. Acho que uma questão mais da estratégia, mas não tem dúvidas que as estradas melhoraram nos últimos anos; inclusive foram construídas várias."
Gerlândio Bezerra, motorista, proprietário de duas vans e filiado à Cooperativa dos Proprietários Autônomos de Transporte Alternativo de Passageiros de Assaré (Coopatrasse)
Trajetos frequentes
Tauá - Arneiroz - Aiuaba - Antonina do Norte - Assaré - Nova Olinda - Crato - Juazeiro do Norte
Tauá - Fortaleza
Tauá - Crateús
Tauá - Iguatu
Tauá - Teresina (PI)
Tauá - Natal (RN)
Rodovias por onde passa
CE-176, CE-230, CE-375, CE-292, CE-494, CE-386

"Eu tenho duas vans, uma é cadastrada na linha de Juazeiro do Norte a Tauá. [Há 13 anos], vou todo dia para Juazeiro do Norte, de segunda a sábado, saindo de Tauá às 4 horas da manhã. Chego [ao destino final] cerca de 7h30, 8 horas, depende do movimento da estrada. Retorno às 12h30. De Tauá a Antonina do Norte, a estrada estava destruída, agora começaram a fazer. Está faltando o trecho de Aiuaba a Antonina, esse é o pior que tem, é muito esburacado. De Antonina para Juazeiro está ótima, a estrada. Ficou 100% melhor do que era antes. Foi feita a pista toda nova, ampliada, está melhor. O asfalto [é] novo. Muito bom."
Custo
 
Em 2019, estima-se que houve um consumo desnecessário de 931,8 milhões de litros de diesel devido à má qualidade do pavimento nas estradas brasileiras. Esse desperdício custou R$ 3,30 bilhões aos transportadores, diz a pesquisa CNT de Rodovias.

Brasil
 
A qualidade das rodovias brasileiras piorou no último ano. É o que mostra a 23ª edição da Pesquisa CNT de Rodovias, divulgada pela Confederação Nacional do Transporte e pelo SEST SENAT em outubro de 2019. O estado geral apresenta problemas em 59% da extensão dos trechos avaliados. Em 2018, o percentual foi 57%.


o Povo 

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