Por Francisco Leopoldo Martins Filho
Advogado
O Partido do Eu Sozinho" – Um Guia Irônico do Sistema Partidário Atual
Num país onde os partidos políticos brotam mais que mato depois da chuva, a
ideologia é um luxo – e a coerência programática, uma lenda urbana. Se você
ainda acha que partido serve para representar ideias ou defender causas
coletivas, parabéns: você é um otimista incurável.
Ideologia? Só se for a do cargo comissionado
Hoje em dia, o que move um partido não é uma plataforma política – é uma
plataforma elevatória rumo ao poder. "Esquerda" e "direita" são apenas
coordenadas espaciais em discursos de campanha. O que importa mesmo é
estar bem posicionado na foto da posse.
Aliás, é importante entender que, nos partidos modernos, ideologia é como Wi-
Fi em elevador: dizem que existe, mas nunca funciona quando você precisa.
Ação programática: o programa é se manter no programa
Partidos deveriam propor soluções para os problemas do país. Mas isso dá
trabalho. Melhor mesmo é repetir chavões, terceirizar o pensamento para os
marqueteiros e, claro, garantir a verba do fundo partidário.
Ações programáticas são feitas sim — em PowerPoint, na véspera da eleição.
Depois? Bem, depois é cada um por si, e Deus (ou o fundo eleitoral) por todos.
Disputas internas: porque brigar com adversário é muito mainstream
O verdadeiro espírito partidário está na briga interna. O inimigo não está fora —
ele é o colega de partido que quer a mesma boquinha que você. É uma guerra
civil com sigla única.
Nada une mais um partido do que a desunião. As correntes internas são tantas
que, às vezes, é difícil saber se é um partido ou uma tempestade tropical.
Diretórios partidários: o cartório da vaidade
Os diretórios deveriam ser espaços de debate político. Mas vamos ser
realistas: são feudos. Quem comanda o diretório comanda o partido. Quem
comanda o partido, comanda a máquina. E quem comanda a máquina,
comanda o caixa. A democracia interna é tão vibrante quanto um ventilador
quebrado.
Interesse coletivo? Só se coincidir com o individual
A política virou uma espécie de empreendedorismo do ego. Cada parlamentar
é uma microempresa com CNPJ, rede social ativa e marketing próprio.
Defender o bem comum? Só se estiver nos Trending Topics.
O partido, nesse contexto, é como uma Uber Pool: você pega uma carona até
onde dá, depois desce e pega outro. Fidelidade partidária é um mito, tipo
unicórnio: bonito na teoria, inexistente na prática.
Finalizando... com esperança? Não, com realismo
Se os partidos políticos fossem empresas, a maioria estaria sendo investigada
por propaganda enganosa. Mas como são apenas pilares da democracia, a
gente segue achando normal.
Afinal, enquanto houver fundo partidário, há esperança – de alguém ganhar
alguma coisa. O povo? Esse assiste de camarote, pagando ingresso com o
próprio voto.
Francisco Leopoldo Martins Filho
Advogado
Membro Efetivo da Comissão Eleitoral da OAB/CE
