Foi durante um almoço de aniversário no sábado, 7 de março que, segundo as suspeitas, praticamente toda a família Teixeira e outros convidados acabaram infectados pelo coronavírus. Até então não havia nenhum caso da Covid-19 registrado no Ceará. Os três primeiros casos só foram confirmados
pelo Governo estadual em 15 de março, um domingo —o número agora já
chega a 348, com cinco mortes registradas.
Até então, a pandemia parecia
ser algo muito distante. “A gente não sabe direito quem foi o primeiro a
estar contagiado nem como começou. Mas no dia 9, segunda-feira, dois
dias depois do aniversário em Fortaleza, algumas pessoas já começaram a
ter os sintomas. Inclusive eu e meu pai”, conta a estudante de medicina
Laís Teixeira, de 29 anos. Ela teve febre e dor no corpo por pouco
tempo, motivo pelo qual achou que se tratava de uma simples virose. Na
semana seguinte, porém, estava ajudando a internar quatro membros de sua família que já apresentavam quadro grave. Um deles, seu primo Rafael, de 29 anos, teve de ir direto para a UTI.
Rafael tem um longo histórico de atleta.
Dos 6 aos 16 anos participou de importantes competições de natação.
Depois, começou a fazer triathlon, completou 11 circuitos Ironman e três
competições mundiais. “Vou fazer 30 anos e nunca parei. Bebo muito
pouco, nunca coloquei um cigarro na boca, não tenho nenhum problema
respiratório…”, relata. No dia 9, diante de uma febre de 38,3 graus,
tomou um paracetamol e seguiu com sua rotina normal. A febre persistiu
no dia seguinte, mas até então nada de tosse ou falta de ar. No dia
procurou um médico, que receitou dipirona, repouso e hidratação.
Mas o coronavírus era mais que “uma simples virose”,
como ele mesmo chegou a pensar nesses primeiros dias de sintomas. Longe
disso. Depois de sua primeira ida ao médico, seu quadro começou a
evoluir rapidamente. No fim de semana começou a tossir desenfreadamente.
“Era uma tosse seca. E por causa da frequência você não consegue puxar
ar”, conta. Na emergência de um hospital, após fazer uma radiografia do
pulmão, um hemograma completo e outros exames, foi diagnosticado com
bronquite. Voltou para a casa com a indicação de dois antibióticos e
corticoide. Três dias depois começou a ficar desesperado. “De terça pra
quarta já não dormi nada, fiquei tossindo a noite inteira. Acordei
falando para minha mãe que precisava de ajuda. Falava por 30 segundos e
ficava cansado, com falta de ar. Já não conseguia encher o pulmão”. A
essa altura, com os primeiros casos de coronavírus sendo notificados, já
suspeitava que pudesse estar infectado. Na quarta-feira, 18 de março,
finalmente decidiu ir para o hospital particular Monte Klinikum, onde
estavam realizando o exame. A tomografia de pulmão revelou um quadro
inflamatório avançado, típico de quem contraiu a Covid-19. Imediatamente
foi encaminhado para a UTI. A confirmação veio dias depois.
“Quando botaram o cateter, uma
mangueirinha para auxiliar na oxigenação, só com isso já consegui
respirar melhor”, conta o rapaz. “Era uma UTI de cardiopatia que
adaptaram para receber os pacientes com coronavírus e manter o
isolamento. Eu fui o primeiro a entrar, fui recepcionado por todos os
enfermeiros. No dia seguinte foi uma loucura, vi um monte de maca
passando, gente entubada…”, recorda. “Meu quarto era limpo o tempo todo
para que os médicos entrassem. A enfermeira dizia que a UTI já estava
100% cheia e estavam todos morrendo de trabalhar”, relata.
A passagem pela UTI foi rápida. Rafael
foi transferido para um quarto dois dias depois de dar entrada no
hospital, e lá permaneceu por mais três dias isolado com sua namorada
—de acordo com o protocolo do hospital, o acompanhante não pode deixar o
lugar. Com a queda do processo inflamatório, recebeu alta.
Desde a última segunda-feira, 23 de março, o casal permanece de
quarentena e depende de outros familiares para fazer compras no mercado.
Ela também apresentou os sintomas do coronavírus, mas se encontra bem e
não chegou a ser diagnosticada. “Todo mundo da família teve sintoma.
Minha mãe está tossindo pra caramba, mas não conseguiu fazer o exame.
Continua fazendo quarentena”, conta Rafael.
Um dia depois de dar entrada no
hospital Monte Klinikum, sua tia e prima também foram ingressadas no
quarto, sem necessidade de passar pela UTI. O roteiro foi
similar: começou com dor de garganta e febre e evoluiu para tosse seca,
sensação de moleza, falta de ar… Um diagnóstico de virose e a receita de
antibióticos. E pouca melhora. Thaís, de 26 anos, e sua mãe (que
prefere não ser identificada), de 65, testaram positivo para a Covid-19
dias depois da internação. Apesar dos fortes sintomas, o quadro de Thaís
não se agravou, de modo que ela permanece no hospital como acompanhante
de sua mãe, pertencente ao grupo de risco. Após mais de uma semana de
internação, ambas permanecem isoladas no quarto, à espera de uma melhora
significativa no quadro da matriarca.
“O hospital segue um protocolo de
tratamento, mas minha mãe não estava reagindo aos remédios. O médico diz
que a doença é extremamente nova e que o quadro é instável”, relata
Thaís, estudante de Engenharia de Produção. Com o agravamento da infecção,
o médico, seguindo o protocolo, decidiu medicar a mulher de 65 anos com
Reuquinol, cuja fórmula possui sulfato de hidroxicloroquina.
Normalmente prescrito para doenças como lúpus, artrite e malária, sua
eficácia contra o coronavírus ainda está em análise.
“O médico avisou que é uma tentativa,
que não tem nada certo ainda. É uma pesquisa muito recente. Mas o
hospital tem um acompanhamento muito bom, os profissionais são muito
preparados e demonstram muita preocupação”, destaca Thaís. “O que me
assustava é que aumentavam o antibiótico da minha mãe e o corpo não
reagia. A gente mudou o antibiótico e ela piorou. Nada funcionava, o
indicador de infecção aumentava. Todos os dias o médico vem aqui, faz
todos os exames e toma providências”, acrescenta. As primeiras 48 horas
tomando Reuquinol também não alteraram o quadro de sua mãe. O médico
avisava que seu corpo podia ter criado resistência e passaram a pedir
paciência. Na última sexta-feira, 27 de março, “ela finalmente
apresentou alguma melhora e deu para respirar aliviada”, relata Thaís.
Seu pai e irmão também apresentaram os sintomas,
mas se encontram bem e permanecem em casa. Além de Rafael, Thaís e sua
mãe, o casal anfitrião do evento familiar também testou positivo para a
Covid-19 e chegou a ser internado na UTI. Dias depois receberam alta.
Além deles, outros três convidados também testaram positivo. Todos os demais tiveram os sintomas.
“A última semana foi bem puxada. Eu era a única pessoa acompanhando
eles nos hospitais o tempo inteiro. Eu que internei todos eles, então a
pressão foi grande”, conta Laís, a estudante de medicina que auxiliou na
internação de seus familiares. “Só tínhamos notícia uma vez por dia. E
fica essa tensão, porque ninguém conhece a doença direito, não sabe o
que esperar, fica preocupado com os sintomas que cada um está
sentindo…”, acrescenta ela, que permanece em quarentena em casa.
Pronunciamento de Bolsonaro na TV
Diante de toda aflição da família com o coronavírus, o pronunciamento do presidente Jair Bolsonaro minimizando a doença, sobretudo entre os mais jovens, causou surpresa. “Fiquei abismado, me arrepiei na hora”, recorda Rafael. “Sinceramente, ele só pode viver em outro mundo, alheio ao que acontece”, opina Thaís. “Na verdade, me deixou com medo, porque ele consegue atingir determinadas pessoas. Muitos vão acreditar e viver a vida normal”, acrescenta a estudante.
Rafael, que é empresário, também rejeita
o discurso bolsonarista e de alguns empresários ―incluindo alguns
amigos seus― de que a economia não pode parar. Na última semana, o
bolsonarismo mobilizou sua base e carreatas foram realizadas em algumas
cidades, com pedidos para a retomada das atividades. “Entendo que está
ruim para todo mundo, mas como podem dizer que vai morrer mais gente de
fome do que de coronavírus? Fica todo mundo no achismo, com o presidente
mandando todo mundo trabalhar… Ninguém acreditava que na Itália
morreria tanta gente”, destaca.
Para ele, o que o Governo precisa fazer é ajudar de alguma forma os empresários a pagar o salário de seus empregados.
Em seu caso, afirma que não possui capital de giro suficiente para
manter os cinco funcionários de sua empresa e ao mesmo tempo se
sustentar pelos próximos meses. “Mas é preciso pensar no coletivo nessas
horas. Se tiver condição de se sustentar e continuar pagando a
diarista, mesmo sem ela trabalhar, então pague. Tenho muito amigo
empresário que fica falando que não pode fechar a economia 100%, mas ele
está lá na casa dele tomando uma cervejinha com a família. E aí? E a
pessoa que de fato vai passar fome?”, questiona Rafael. “Tem que descer o
degrau, deixar de tomar sua cervejinha durante um mês, deixar a zona de
conforto. O que custa fazer sua própria comida e limpar a casa? Eu vejo
como egoísmo, sabe”, prossegue. E conclui: “Se o pai de um deles
estiver hospitalizado, quero ver se vai manter a opinião de mandar todo
mundo trabalhar. O que minha família passou… Você nunca sabe do problema
do outro até se colocar no lugar da pessoa”.
Conteúdo: ElPaís
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