UNIÃO - Jair Bolsonaro e Paulo Guedes entregam novas PECs ao Senado: confiança no Legislativo
(Marcos Corrêa/PR)
Os números que atestam o fim da estagnação podem ser detectados na produção de carros, caminhões e tratores, nas altas recorde e em sequência da Bolsa de Valores de São Paulo, no aumento das vendas de bens de consumo e na geração de empregos. Paralelamente a esse princípio de recuperação, o governo partiu para uma demonstração explícita em sua disposição de atacar gargalos estruturais que têm estrangulado por décadas a expansão da produção de riqueza no país. A entrega do primeiro pacote de mudanças legislativas sugeridas pelo ministro da Economia, Paulo Guedes, na última terça-feira, 5, animou empresários e investidores indiscriminadamente.
“O governo tem demonstrado muita coragem de enfrentar questões que historicamente foram ignoradas”, diz o economista Raul Velloso. “É um ajuste de contas que pode ser doloroso para o cidadão, mas necessário para avançarmos.”
A RODA GIRA – Entregador em São Paulo: consumo que gera emprego
A RODA GIRA – Entregador em São Paulo: consumo que gera emprego (Roberto Casimiro/Fotoarena)
A situação está longe de ser confortável, mas a melhora é perceptível. Um exemplo é a queda no desemprego. Nos últimos doze meses, foram gerados 34% mais postos de trabalho com carteira assinada do que nos doze meses anteriores. Ainda assim, o desemprego está em 11,8%, o que no mundo real significa um contingente de 12,6 milhões de homens e mulheres sem trabalho ou salário. Mesmo quem consegue emprego ocupa vagas que são, em sua maioria, de baixa remuneração — a informalidade continua sendo a única saída de muitos trabalhadores. Os setores de serviços e comércio, como o varejista, que sofreram quedas abruptas nos últimos anos, estão encontrando na tecnologia uma saída para aumentar as vendas. Segundo a consultoria inglesa Euromonitor, o smartphone será o vetor de crescimento para esses segmentos em 2020 — os maiores responsáveis pelo aumento das ocupações são empresas da era do celular inteligente, como Uber e iFood. O turismo também tem crescido, com maior oferta de voos por empresas aéreas low-cost internacionais e diminuição das restrições de visto para estrangeiros. Em 2019, a procura por destinos como a catarinense Camboriú aumentou 30% no primeiro semestre. A construção civil, outro setor que produz forte impacto na empregabilidade, apresentou alta de 108% das vendas de imóveis em São Paulo no mês de setembro, segundo dados do Sindicato da Habitação (Secovi). A base de comparação é baixa, sem dúvida, dada a debacle do setor nos últimos anos, mas o crescimento não deixa de ser muito bem-vindo.
SURPRESA – A produção de veículos aumentou acima das expectativas em outubro: vitalidade da indústria
SURPRESA
– A produção de veículos aumentou acima das expectativas em outubro:
vitalidade da indústria (Ramon Bitencourt/O Tempo/Estadão Conteúdo)
Em um gesto altamente simbólico, o presidente Jair Bolsonaro, Paulo Guedes e todo o entourage governista atravessaram a pé a Praça dos Três Poderes, entre o Palácio do Planalto e o Congresso Nacional, para entregar as três Propostas de Emenda à Constituição (PECs) ao presidente do Senado, Davi Alcolumbre (DEM-AP).
O ato foi um desafio à classe política. Nas brochuras carregadas pelo presidente e pelo ministro estão três das seis medidas que, se aprovadas, prometem impulsionar o crescimento e ainda evitar que a população volte a experimentar o amargo gosto deixado pelo fracasso das políticas anteriores.
ALÍVIO – Praia em Balneário Camboriú (SC), um dos destinos mais procurados no país: o turismo já vive cenário de alta
ALÍVIO
– Praia em Balneário Camboriú (SC), um dos destinos mais procurados no
país: o turismo já vive cenário de alta (Markito/Arquivo Secom/.)
O segundo projeto é a chamada PEC Emergencial, que define gatilhos nas contas públicas das três esferas de governo para que mecanismos de contenção de gastos sejam deflagrados. Em bom português: quando o governo fica sem dinheiro, ele ganha permissão para cortar despesas que hoje são obrigatórias. Um dos ajustes “emergenciais” é a redução da jornada de trabalho dos servidores, com corte proporcional nos salários.
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O governo é ousado ao estabelecer como meta a aprovação de pelo menos uma dessas medidas até maio de 2020. Trata-se de uma agenda arriscada, uma vez que o calendário das eleições municipais de 2020 vai espremer a atividade legislativa a ínfimos seis meses. Foi o tamanho do desafio que levou tantos palacianos ao Congresso, como maneira de pressionar os parlamentares e também mostrar confiança em Alcolumbre para conduzir as propostas e votá-las no prazo.
RISCOS – Greve dos caminhoneiros, em 2018: o governo precisa evitar convulsões políticas para não abortar a retomada
RISCOS
– Greve dos caminhoneiros, em 2018: o governo precisa evitar convulsões
políticas para não abortar a retomada (Miguel Schincariol/AFP)
VOO DA GALINHA – Frenesi de compras nos anos Dilma: o estímulo ao consumo sem reformas estruturantes gerou crise
VOO
DA GALINHA – Frenesi de compras nos anos Dilma: o estímulo ao consumo
sem reformas estruturantes gerou crise (Marcos Limonti/Comèrcio da
Franca/Folhapress)
Se na seara política o prospecto é nebuloso, nem mesmo dentro do Ministério da Economia há paz. Uma rivalidade entre os secretários Waldery Rodrigues, da Fazenda, e Salim Mattar, de Desestatização, está criando constrangimentos. Mattar foi escolhido para agilizar as privatizações, e, até o momento, quase nada saiu do papel. Gustavo Montezano, que até junho era seu braço direito, foi alçado ao posto de presidente do BNDES justamente para destravar os negócios. Ainda não surtiu efeito. E a rusga é séria, porque é das privatizações que o governo pretende tirar dinheiro a fim de custear o equilíbrio fiscal necessário para fazer funcionar a PEC do Pacto Federativo. Como o governo abre mão de receitas em favor de estados e municípios, as contas precisam estar em perfeita ordem para que o rombo da União não prejudique ainda mais o país. Espera-se que as divergências não criem rachaduras na blindagem que o ministério precisará construir para conseguir aprovar propostas consistentes. Os planos apresentados até agora são muito bons, e investidores e empresários receberam as medidas com surpreendente entusiasmo. A partir de agora, todas as partes envolvidas na aprovação desse importante conjunto de ações precisam reconhecer e desempenhar o papel que lhes cabe em benefício do país.
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Veja. Com